






Poirot e os Quatro Relgios
Agatha Christie







PRLOGO

A tarde do dia 9 de Setembro foi exactamente igual
a qualquer outra tarde. Nenhuma das pessoas que viriam a estar relacionadas com os acontecimentos 
desse
dia poderia alegar que tivera uma premonio de tragdia. (Com excepo, evidentemente, de Mrs. Packer, 
de
Wilbraham Crescent, 47, a qual era especializada em
premonies e, depois, descreveu sempre, com grande
mincia de pormenores, os estranhos pressentimentos
e as tremuras que tivera. Mas Mrs. Packer estava, no
47, to distante do 19, e o que neste nmero se passou
relacionou-se to pouco com ela, que lhe pareceu absolutamente desnecessrio ter uma premonio.)
No Gabinete de Secretariado e Dactilografia Cavendish, dirigido por Miss K. Martindale, no dia 9 de
Setembro fora um dia igual a tantos outros, um dia rotineiro. O telefone tocara, as mquinas de escrever 
tinham matraqueado como de costume e o nvel de trabalho fora mdio, nem acima nem abaixo do habitual.
O gnero tambm fora o costumado, sem interesse especial. At s duas e trinta e cinco da tarde, o dia 9 
de
Setembro no teve nada a distingui-lo de outro dia
qualquer.
As duas e trinta e cinco, a extenso de Miss Martindale deu sinal e Edna Brent, que trabalhava no 
escritrio contguo, atendeu-a com a voz ofegante e um
nadinha nasalada do costume, enquanto empurrava
um caramelo para um dos lados da boca.

- Que deseja, Miss Martindale?
- J lhe disse que no deve falar assim quando
atende o telefone, Edna! Pronuncie as palavras com
clareza e domine a respirao.
- Desculpe, Miss Martindale.
- J foi melhor. Se tentar, consegue. Mande-me a
Sheila Webb.
- Ainda no voltou do almoo, Miss Martindale.
- Ah! - Miss Martindale viu que eram duas horas e trinta e seis minutos, o que significava que Sheila
estava exactamente seis minutos atrasada. - Mande-ma assim que chegar - acrescentou, a pensar que,
nos ltimos tempos, Sheila Webb se desmazelava um
pouco.
- Sim, Miss Martindale.
Edna passou de novo o caramelo para o meio da
lngua e, a chupar prazenteiramente, recomeou a dactilografar o romance Amor Nu, de Armand Levine.
O erotismo forado da obra deixava-a indiferente - como, alis,  maioria dos leitores de Mr. Levine, no
obstante os seus esforos. Armand Levine era uma
prova convincente de que nada pode ser mais enfadonho do que a pornografia enfadonha. Apesar das capas
sinistras e dos ttulos provocantes, as suas vendas decresciam todos os anos e a ltima conta de servios 
dactilogrficos j lhe fora apresentada trs vezes, em vo.
A porta abriu-se e Sheila Webb entrou, um bocadinho ofegante.
- A Sandy Cat chamou-te - informou Edna.
- J  preciso ter azar! - exclamou Sheila, a fazer uma careta. - No nico dia em que chego atrasada!
Passou a mo pelo cabelo, pegou num lpis e num
livro de apontamentos e bateu  porta da directora.
Miss Martindale levantou a cabea. Era uma mulher de quarenta e tal anos, que respirava actividade e

' Gata Loura. (N. da T.)

eficincia e devia a alcunha de Sandy Cat ao seu cabelo
ruivo-claro e ao seu nome prprio de Katherine.
- Chegou atrasada, Miss Webb.
- Peo desculpa, Miss Martindale. Houve um
grande engarrafamento de trnsito...
- H sempre um grande engarrafamento de trnsito a esta hora do dia. Devia contar com isso e sair de
casa mais cedo. - Consultou a sua agenda e prosseguiu: - Telefonou uma tal Miss Pebmarsh, que precisa 
de uma estengrafa para as trs horas e se mostrou
particularmente interessada em que fosse voc. J trabalhou alguma vez para ela?
- No me lembro, Miss Martindale. Pelo menos
ultimamente, no trabalhei.
- A morada  Wilbraham Crescent, dezanove...
- Calou-se, com um ar interrogador, mas Sheila
Webb abanou a cabea.
- No me lembro de l ter ido.
Miss Martindale consultou o relgio.
- Trs horas... Consegue l chegar a tempo. Tem
outros compromissos, para esta tarde? - Passou os
olhos pela agenda, que tinha a seu lado. - Professor
Purdy, Curlew Hotel, s cinco horas. Deve chegar antes disso, mas se no chegar mandarei a Janet.
Mandou-a embora, com um aceno de cabea, e
Sheila voltou para o escritrio.
- Alguma coisa interessante, Sheila?
- Ora, mais um daqueles dias chatos... Uma velhota qualquer de Wilbraham Crescent e, s cinco horas, o 
professor Purdy... e todos aqueles horrveis nomes arqueolgicos! Como desejaria que, de vez em
quando, acontecesse alguma coisa emocionante, para
variar!
A porta de Miss Martindale abriu-se e a directora
avisou:
- Esqueci-me de um pormenor, Sheila. Se Miss
Pebmarsh no estiver, quando chegar, entre, pois a
porta no estar fechada. Entre para a sala que fica

9

 direita do vestbulo e espere. No se esquece ou prefere que escreva num papel?
- No me esquecerei, Miss Martindale.
A directora voltou para o seu santurio.
Edna Brent tirou debaixo da cadeira um sapato um
bocado espampanante, cujo salto altssimo e muito fino se despregara.
- Como diabo regressarei a casa? - perguntou,
tristemente.
- Deixa-te de lamrias, alguma coisa se h-de arranjar - respondeu-lhe uma das outras raparigas,
quase sem deixar de martelar as teclas.
Edna suspirou e meteu na mquina uma nova folha
de papel. O desejo dominava-o. Com dedos frenticos
rasgou o tecido finissimo que lhe cobria os seios e empurrou-a para a sopa...
- Bolas! - resmungou Edna, a procurar a borracha, ao ver que escrevera "a sopa" em vez de "o sof".
Sheila pegou na malinha de mo e saiu.
Wilbraham Crescent era uma fantasia criada por
um construtor de 1880, mais ou menos, e constava de
uma meia-lua de duas fileiras de casas com os jardins
de permeio, traseiras com traseiras. Este conceito arquitectnico causava constantes dificuldades s 
pessoas
que no conheciam o lugar. As que chegavam ao lado
exterior da meia-lua tinham dificuldade em encontrar
os nmeros mais baixos, e as que chegavam ao lado interior viam-se s aranhas para descobrir os mais 
altos.
As casas eram limpas, afectadas, com varandas artsticas e um ar muitssimo respeitvel. O modernismo
mal lhes tocara ainda, pelo menos exteriormente. As
cozinhas e as casas de banho tinham sido as primeiras
divises a sofrer as consequncias das mudanas.
No havia nada de especial no nmero 19. Tinha
cortinas impecveis e um puxador muito reluzente, na
porta principal. De ambos os lados do caminho que
conduzia  entrada erguiam-se roseiras.
Sheila Webb abriu a cancela, encaminhou-se para a

10

porta principal e tocou  campainha. Aguardou um ou
dois minutos e, como no lhe respondessem, obedeceu
s instrues recebidas. Girou o puxador, a porta
abriu-se e ela entrou. A porta do lado direito do vestbulo estava entreaberta. Sheila bateu, aguardou um
momento e entrou tambm. Encontrou-se numa vulgar e aconchegada sala de estar, talvez um pouco 
atravancada para o gosto moderno. A nica coisa extraordinria que lhe chamou a ateno foi a abundncia 
de
relgios: um relgio de p, a um canto; um relgio
de porcelana de Dresda, na chamin; um relgio de prata, na secretria; um pequeno relgio dourado de 
fantasia, numa papeleira, e numa mesa, junto da janela, um
velho relgio de viagem, com uma caixa de cabedal,
desbotado e o nome ROSEMARY em letras douradas e j
um pouco apagadas, a um canto.
Sheila olhou, um pouco surpreendida, para o relgio da secretria, segundo o qual j passava das quatro
e dez. Olhou para o da chamin e verificou que se encontrava nas mesmas circunstncias.
Estremeceu violentamente, ao ouvir um estalido,
por cima da cabea, e ao ver sair um cuco de um relgio de parede, de maneira esculpida. O passaroco
anunciou, em tom audvel e firme, quase ameaador:
cu, cu! cu, cu! cu, cu! Depois desapareceu e a portinha fechou-se.
Sheila Webb esboou um sorriso e contornou a
ponta do sof. De repente, porm, estacou, petrificada.
Estiraado no cho estava o corpo de um homem,
de olhos semicerrados e sem vida e com uma mancha
escura e hmida na frente do fato cinzento-escuro.
A jovem baixou-se, quase maquinalmente, e tocou-lhe
na cara e numa das mos. Estavam ambas frias. Depois tocou na mancha hmida e retirou bruscamente a
mo, de olhos desorbitados de horror.
No mesmo instante ouviu abrir a cancela e olhou,
quase sem dar por isso, para a janela. Uma figura de

11

mulher subia o carreiro, apressada. Sheila engoliu a
custo a saliva, pois tinha a garganta ressequida. Sentia-se pregada ao cho, incapaz de se mexer ou gritar, 
de
olhos fixos em frente.
A porta abriu-se e entrou uma mulher alta e idosa,
com um saco de compras. Tinha cabelos grisalhos ondulados, penteados para trs, e olhos muito grandes 
e
de um azul muito bonito, olhos que fitaram Sheila,
mas no a viram.
A jovem soltou uma espcie de gemido abafado, os
olhos azuis fitaram-na de novo e a mulher perguntou,
vivamente:
- Est a algum?
- Es... est - gaguejou Sheila, enquanto a mulher se aproximava, depressa, das costas do sof.
Depois gritou:
- No... no! Pisa-o... pisa-o e ele est morto!

NARRATIVA DE COLIN LAMB

Para falar em termos policiais: s 2.59 h da tarde
de 9 de Setembro, passava por Wilbraham Crescent,
na direco oeste. Era a primeira vez que por ali passava e confesso francamente que Wilbraham Crescent
me intrigava.
Obedecia a um pressentimento com uma persistncia que se tornava cada dia mais obstinada, ao mesmo
tempo que o pressentimento parecia cada vez mais inconsistente e com menos probabilidades de dar 
qualquer resultado positivo. Eu sou assim.
O nmero que me interessava era o 61, mas nunca
mais o encontrava. Seguira cuidadosamente os nmeros de 1 a 35, mas ao chegar a Wilbraham Crescent
parecera terminar. Uma artria com o nome vulgar de
Albany Road barrava-me o caminho. Retrocedi. Do
lado norte no havia casas; apenas um muro atrs do
qual se erguiam quarteires de prdios altos e modernos, cujas entradas deviam ficar noutra estrada.
Olhei para os nmeros por onde passava: 24, 23,
22, 21... Diana Lodge (provavelmente o nmero 20,
com um gato amarelado no poste da cancela, a lavar o
focinho), 19...
A porta do nmero 19 estava aberta e uma jovem
saiu e correu pelo carreiro abaixo com o que me pareceu a velocidade de uma bomba. Acentuavam a 
semelhana os gritos que ela soltava, gritos altos, agudos,

13

quase desumanos. A pequena transps a cancela e
chocou comigo com tal fora que por pouco no me
atirava para fora do passeio. Como se isso no bastasse, agarrou-se a mim num frenesi desesperado.
- Calma! - aconselhei, a sacudi-la um bocadinho,
depois de recuperar o equilbrio. - Vamos calma...
Continuou a agarrar-me, mas deixou de gritar e comeou a ofegar, em arquejos profundos e trmulos como
soluos.
No posso dizer que tenha reagido brilhantemente
 situao... Perguntei-lhe se acontecera alguma coisa,
compreendi que a pergunta era redundante e emendei:
- Que aconteceu?
A pequena respirou fundo, antes de responder, a
apontar para trs:
- Ali!
- Ali o qu?
- Est um homem no cho... morto... Ela ia-lhe
passar por cima...
- Quem? Porqu?
- Creio que... que  cega. Ele est sujo de sangue... - Levantou uma das mos que me seguravam e
acrescentou: - E eu tambm. E eu tambm estou suja
de sangue!
Examinei as manchas da manga do meu casaco e
observei:
- E, agora, tambm eu estou sujo de sangue. Parece-me melhor levar-me l e mostrar-me.
- No posso! - afirmou, a tremer violentamente. - No posso! No voltarei a entrar l!
- Talvez tenha razo.
Olhei  minha volta, mas no encontrei nenhum
lugar adequado para depositar uma jovem quase desmaiada. Acabei por a sentar no passeio, encostada ao
gradeamento de ferro.
- Deixe-se ficar aqui at eu voltar. No me demorarei. Se se sentir mal, incline-se para a frente e meta
a cabea entre os joelhos.

14

- Creio... creio que j estou bem.
No parecia muito convencida, mas eu no perdi
tempo a argumentar. Dei-lhe uma palmadinha tranquilizadora no ombro e meti pelo carreiro acima,
apressadamente. Entrei, hesitei um momento no vestbulo, espreitei no aposento da esquerda, que era uma
sala de jantar deserta, atravessei o vestbulo e entrei na
sala da direita.
A primeira coisa que vi foi uma mulher idosa, de
cabelo grisalho, sentada numa cadeira. Virou bruscamente a cabea, ao sentir-me entrar, e perguntou:
- Quem ?
Percebi logo que era cega. Os seus olhos, embora
virados para mim, estavam fixos num ponto atrs do
meu ouvido esquerdo.
- Uma jovem chocou comigo, na rua, e disse que
estava aqui um homem morto - expliquei, sem rodeios.
Acto contnuo, tive conscincia do absurdo das minhas palavras. No parecia possvel que estivesse um
homem morto naquela sala arrumada, com aquela mulher calma sentada numa cadeira, de mos 
entrelaadas. Mas ela redarguiu-me, sem hesitar:
- Atrs do sof.
Contornei o sof e vi os braos abertos, os olhos vtreos e a mancha de sangue coagulado, no peito.
- Como foi?
- No sei.
- Mas... Quem ?
- No fao a mnima ideia.
- Temos de chamar a Polcia. - Olhei  minha
volta e indaguei: - Onde est o telefone?
- No tenho telefone.
Observei-a com mais ateno.
- A senhora mora aqui? Esta  a sua casa?
- Sim.
- Pode-me dizer o que sucedeu?
- Sem dvida. Vim das compras - reparei no saco

15

das compras, abandonado em cima de uma cadeira,
 entrada - e entrei aqui. Percebi imediatamente que
estava algum na sala. So coisas que sentimos com facilidade, quando somos cegos. Perguntei quem era 
e
s ouvi o barulho da respirao acelerada de algum.
Encaminhei-me na direco do som e ento quem
quer que era comeou a gritar que estava um homem
morto e eu ia pis-lo. Depois essa pessoa passou por
mim a correr e saiu da sala.
Acenei com a cabea. As histrias condiziam.
- Que fez, ento?
- Tacteei o caminho, com cuidado, at o meu p
encontrar um obstculo.
- E depois?
- Ajoelhei e toquei em qualquer coisa... na mo
de um homem. Estava fria, no se sentia o pulso...
Levantei-me e sentei-me aqui,  espera. Estava convencida de que algum apareceria, de que a jovem,
quem quer que fosse, daria o alarme. Achei melhor
no sair de casa.
Impressionou-me a calma da criatura. No gritara
nem sara, aos tropees e cheia de pnico, da casa onde se encontrava um morto. Limitara-se a sentar-se
calmamente,  espera. Era a nica maneira sensata de
proceder, mas exigia coragem.
- Quem  o senhor?
- Chamo-me Colin Lamb e ia a passar.
- Onde est a jovem?
- Deixei-a encostada  cancela. Encontra-se em
estado de choque. Onde fica o telefone mais prximo?
- H uma cabina a cerca de cinquenta metros,
pouco antes de chegar  esquina.
- Tem razo, lembro-me de passar por l. Vou telefonar  Polcia. A senhora...
Hesitei, sem saber se deveria perguntar se ficaria
onde estava ou se ficaria bem.
Ela poupou-me a escolha:
- Acho melhor trazer a jovem c para dentro.
- No sei se querer vir... - redargui, duvidoso.

16

- No vir para esta sala, claro. Leve-a para a casa de jantar, que fica do lado oposto do vestbulo, e diga-
lhe que vou fazer ch.
Levantou-se e encaminhou-se para mim.
- Mas... a senhora poder...
Esboou um leve e breve sorriso.
- Meu caro jovem, preparo as minhas refeies,
na minha cozinha, desde que vim morar para esta casa, h catorze anos. Ser cega no  forosamente ser
invlida.
- Desculpe, fui estpido. Talvez no se importe
de me dizer o seu nome?
- Millicent Pebmarsh... Miss
Sa e desci o carreiro. A pequena levantou a cabea
e comeou a erguer-se.
- Creio... creio que j estou mais ou menos bem.
- ptimo! - redargui, enquanto a ajudava a levantar-se.
- Estava... estava l um homem morto, no estava?
- Claro que estava. Vou l abaixo,  cabina, avisar
a Polcia. No seu lugar, esperaria dentro de casa.Levantei a voz, para abafar os seus protestos imediatos
e veementes: - V para a sala de jantar, que fica  esquerda do vestbulo. Miss Pebmarsh est a fazer uma
chvena de ch para si.
- Ela , ento, Miss Pebmarsh? E  cega?
- . Tambm foi um grande choque para ela, evidentemente, mas est a proceder com muita sensatez.
Venha, eu levo-a. Uma chvena de ch far-lhe- bem,
enquanto espera pela Polcia.
Passei-lhe um brao pelos ombros, conduzi-a pelo
carreiro acima, instalei-a  mesa da sala de jantar e sa
a correr, para telefonar.

- Posto da Polcia de Crowdean - anunciou uma
voz calma.
- Posso falar com o detective-inspector Hardcastle?

17

- No sei se est... - respondeu a voz, cautelosa. - Quem fala?
- Diga-lhe que  Colin Lamb.
- Um momento, por favor.
Pouco depois, ouvi a voz de Hardcastle:
- Colin? No esperava que telefonasse to cedo.
Onde est?
- Crowdean... ou melhor, estou em Wilbraham
Crescent. Est um homem morto no nmero dezanove, creio que apunhalado. Deve estar morto h meia
hora, aproximadamente.
- Quem o encontrou? Voc?
- No. Ia a passar, inocentemente, quando uma
pessoa saiu de casa, como se o Diabo a perseguisse, e
quase me derrubou. Disse-me que estava um homem
morto e uma mulher cega o pisara.
- No est a mangar comigo, pois no?
- Admito que parece fantstico, mas creio que os
factos so os que expus. A cega  Miss Millicent Pebmarsh, que mora na referida casa.
- Mas ela pisou o morto?
- No no sentido em que pensa. Parece que, em
virtude de ser cega, no sabia que ele l se encontrava.
- Vou pr a engrenagem em aco. Espere l por
mim. Que fez  pequena?
- Miss Pebmarsh est a preparar-lhe uma chvena
de ch.
Dick observou que parecia tudo muito aconchegadinho.

2

A engrenagem da Lei trabalhava a todo o vapor em
Wilbraham Crescent,19. Estavam presentes um cirurgio e um fotgrafo da Polcia e os peritos em 
impresses

18

digitais. Trabalhavam com eficincia, cada um
deles entregue  sua prpria tarefa.
Por fim chegou o detective-inspector Hardcastle,
um homem alto e impassvel, de sobrancelhas expressivas e ar autoritrio. Queria-se certificar de que 
estavam a fazer tudo quanto ordenara, e de que o estavam
a fazer como deviam. Lanou um ltimo olhar ao cadver, trocou algumas palavras com o mdico da Polcia 
e depois dirigiu-se  sala de jantar, onde se encontravam trs pessoas diante de chvenas vazias: Miss
Pebmarsh, Colin Lamb e uma rapariga alta, de cabelos
castanhos anelados e grandes olhos cheios de medo.
"Muito bonita", pensou o inspector, para consigo,
e apresentou-se a Miss Pebmarsh:
- Detective-inspector Hardcastle.
Sabia algumas coisas acerca de Miss Pebmarsh,
embora os seus caminhos nunca se tivessem cruzado,
profissionalmente. Vira-a diversas vezes e sabia que se
tratava de uma ex-professora e que tinha um emprego
relacionado com o ensino de braille no Instituto Aaronberg de Crianas Deficientes. Parecia inacreditvel 
que
encontrassem um homem assassinado na sua casa impecvel e austera, mas o inacreditvel acontecia 
mais
vezes do que se supunha.
- Foi terrvel o que aconteceu, Miss Pebmarsh, e
deve t-la abalado muito. Preciso que me descrevam,
com toda a clareza, o que sucedeu. Estou informado
de que foi Miss... - olhou para o livro de apontamentos que um agente lhe entregara -. . Sheila Webb
quem descobriu o cadver. Se me autorizar a utilizar a
sua cozinha, Miss Pebmarsh, levarei para l Miss
Webb, a fim de podermos conversar calmamente.
Abriu a porta de comunicao com a cozinha e
aguardou que a jovem passasse. Um polcia novo, 
paisana, j l se encontrava instalado a escrever, sentado  mesa de tampo de frmica.
- Esta cadeira parece confortvel...
Hardcastle puxou uma cadeira e Sheila Webb sentou-se 

19

nervosamente, a fit-lo com os grandes olhos assustados.
O inspector teve vontade de lhe dizer que no a comeria, mas conteve-se e limitou-se a declarar:
- No precisa de estar preocupada; queremos
apenas fazer uma ideia clara do que se passou. Chama-se Sheila Webb e mora?...
- Palmerston Road, catorze, a seguir  fbrica
de gs...
- Bem sei. Suponho que  empregada

- Sou estenodactilgrafa e trabalho no Gabinete
de Secretariado de Miss Martindale.

- Gabinete de Secretariado e Dactilografia Cavendish.  este o nome completo, no ?
- Exactamente.
- H quanto tempo l trabalha?
- H cerca de um ano... isto , h dez meses
certos.
- Agora explique-me, por palavras suas, como
veio parar a Wilbraham Crescent, dezanove.
- Foi assim.. - Sheila Webb j falava com
maior segurana. - Miss Pebmarsh telefonou para o
escritrio e pediu que lhe mandassem uma secretria,
s trs horas. Por isso, quando regressei do almoo,
Miss Martindale mandou-me c.
- Isso passou-se tudo de acordo com a rotina, no
 verdade? Quero dizer, voc era a primeira da lista,
ou l como fazem essas coisas...

- Desta vez, no. Miss Pebmarsh pediu especificamente que me mandassem a mim.
- Miss Pebmarsh pediu especificamente que a
mandassem a si... - repetiu Hardcastle, de sobrancelhas arqueadas. - Compreendo... Por j ter trabalhado 
anteriormente para ela, suponho?
- Mas eu nunca trabalhei para ela! - apressou-se
Sheila a esclarecer.
- No? Tem a certeza disso?
- Absoluta! No  uma daquelas pessoas fceis de
esquecer.  isso que me parece to estranho...

20

- Bem, deixemos esse pormenor por agora. A que
horas chegou?
- Devia faltar pouco para as trs horas, pois o relgio de cuco... - Calou-se, bruscamente, de olhos
muito abertos. - Que estranho! Na altura no reparei...
- No reparou, em qu, Miss Webb?
- Nos relgios.
- Que tm os relgios?
- O relgio de cuco deu as trs horas, mas todos
os outros estavam cerca de uma hora adiantados. Que
esquisito!
- , sem dvida, muito esquisito - concordou o
inspector. - Quando deu pela presena do cadver?
- S quando contornei o sof... Foi... foi horrvel!
- Concordo. Reconheceu o homem? Tratava-se de
algum que j tivesse visto?
- Oh, no!
- Tem a certeza absoluta? Podia parecer diferente
do seu aspecto habitual... Pense bem. Tem a certeza
absoluta de que nunca o vira?
- Tenho.
- Muito bem. E que fez?
- Que fiz?
- Sim.
- Bem... nada, absolutamente nada! No fui capaz.
- Compreendo. No lhe tocou?
- Sim, toquei. Para ver se... quero dizer, s para
ver... Mas ele estava frio e... e... fiquei com a mo suja de sangue... de sangue espesso e viscoso.
Comeou a tremer e Hardcastle tranquilizou-a, em
tom paternal:
- Ento, ento, acalme-se. J acabou tudo, no
pense no sangue. Conte o que sucedeu a seguir.
- No sei... Ah, sim, ela chegou.
- Refere-se a Miss Pebmarsh?
- Sim... mas eu no pensei que fosse Miss Pebmarsh.

21

Entrou com um saco de compras. - Sublinhou
o "saco de compras", como se fosse algo incongruente
e relevante.
- E que lhe disse voc?
- No creio que lhe tenha dito alguma coisa...
Tentei, mas no pude. Senti-me abafada aqui... - levou a mo  garganta.
O inspector acenou afirmativamente e Sheila Webb
prosseguiu:
- E depois ela... ela perguntou: "Quem est a?"
Comeou a contornar o sof, pela retaguarda, e eu
pensei... pensei que o ia pisar. Gritei... e o mal foi
comear. No consegui conter os gritos, sa, no sei
como, pela porta fora...
. . Como se o Diabo a perseguisse - murmurou o inspector, ao recordar-se das palavras de Colin.
Sheila Webb fitou-o, muito triste e assustada, e disse, inesperadamente:
- Peo desculpa.
- No tem de que pedir desculpa, pois contou a
sua histria muito bem. Agora no precisa de pensar
mais no assunto. S uma coisa: por que motivo se encontrava na sala?
- Porqu? - indagou, intrigada.
- Sim. Suponho que chegou alguns minutos mais
cedo e tocou  campainha. Mas se ningum atendeu,
porque entrou?
- Porque ela disse que entrasse.
- Quem?
- Miss Pebmarsh.
- Mas eu pensei que no tinha falado com ela...
- E no falei. Foi Miss Martindale que o disse...
Que entrasse e esperasse na sala da direita do vestbulo.
- Ah! - exclamou Hardcastle, pensativo.
- Deseja mais alguma coisa? - perguntou Sheila
Webb, timidamente.
- Creio que no. Mas gostaria que aguardasse

22

mais uns dez minutos, pois pode surgir alguma coisa
acerca da qual a deseje interrogar. Depois disso, mandarei um carro lev-la a casa.  verdade, e a sua 
famlia? Tem famlia?
- Os meus pais morreram. Vivo com uma tia.
- Como se chama ela?
- Mistress Lawton.
O inspector levantou-se e estendeu a mo.
- Muito obrigado, Miss Webb. Tente repousar
bem, esta noite. Precisa disso, depois do que lhe aconteceu.
Ela sorriu-lhe, tmida, e voltou para a sala de
jantar.
- Colin, olhe por Miss Webb - recomendou o
inspector. - Miss Pebmarsh, quer fazer o favor de
vir c?
Hardcastle comeou a estender a mo para a guiar,
mas ela passou resolutamente por ele, estendeu as
pontas dos dedos para uma cadeira que estava encostada  parede, puxou-a um pouco para a frente e 
sentou-se.
Hardcastle fechou a porta, mas Millicent Pebmarsh no lhe deu tempo para falar e perguntou:
- Quem  aquele jovem?
- Chama-se Colin Lamb.
- Isso j ele me disse. Mas quem ? Porque veio c?
Hardcastle olhou-a, um pouco surpreendido.
- Ia a passar por acaso quando Miss Webb saiu a
correr e a gritar como uma desalmada. Depois de entrar e de verificar o que sucedera, telefonou-nos e ns
convidmo-lo a acompanhar-nos e a esperar.
- O senhor tratou-o por Colin.
-  muito observadora, Miss Pebmarsh...(Observadora? Parecia uma palavra pouco adequada e,
todavia, nenhuma outra se ajustava.) - Colin Lamb 
meu amigo embora eu j no o visse havia algum tempo.  bilogo martimo.
- Ah, compreendo!

23

- Miss Pebmarsh, ficar-lhe-ia grato se me pudesse
dizer alguma coisa acerca deste surpreendente acontecimento.
- Da melhor vontade... mas h muito pouco que
dizer.
- Suponho que mora aqui h algum tempo?
- Desde mil novecentos e cinquenta. Sou... fui,
professora. Quando me informaram de que no podiam fazer nada pela minha viso deficiente e de que
no tardaria a cegar, empreguei todos os meus esforos
para me especializar em braille e em vrias outras tcnicas de auxlio aos cegos. Sou empregada no 
Instituto
Aaronberg de Crianas Cegas e Deficientes.
- Obrigado. Falemos dos assuntos desta tarde.
Esperava alguma visita?
- No.
- Vou-lhe ler uma descrio do morto, para ver se
lhe recorda algum em especial. Altura entre um metro e setenta e dois e um metro e setenta e cinco, 
cerca
de sessenta anos, cabelo escuro a comear a embranquecer, olhos castanhos, cara rapada e magra e 
queixo
firme. Aspecto de pessoa bem alimentada, mas sem
ser gordo, fato cinzento-escuro e mos bem tratadas.
Podia tratar-se de um empregado bancrio, de um
contabilista, de um advogado ou de homem com qualquer profisso liberal. Esta descrio lembra-lhe 
algum conhecido?
Millicent Pebmarsh pensou um bocado, antes de
responder:
- No posso dizer que lembre... Trata-se, evidentemente, de uma descrio muito generalizada e que
se coadunaria com um grande nmero de pessoas. Poder-se- tratar de algum que vi ou conheci em 
qualquer ocasio, mas no se trata, com certeza, de algum
que conhecesse bem.
- Nos ltimos tempos no recebeu nenhuma carta
de qualquer pessoa que se propusesse visit-la?
- No.

24

- Muito bem. A senhora telefonou ao Gabinete de
Secretariado Cavendish, solicitou os servios de uma
estengrafa e...
- Desculpe - interrompeu-o a cega. - No fiz
semelhante coisa.
- No telefonou ao Gabinete de Secretariado Cavendish a pedir?...
- Nem tenho telefone em casa.
- H uma cabina ao fundo da rua - lembrou o
inspector.
- H, de facto. Mas afirmo-lhe, inspector Hardcastle, que no precisei dos servios de nenhuma estengrafa 
e no, repito: no, telefonei a esse tal Gabinete, a fazer semelhante pedido.
- No pediu, especificamente, que lhe mandassem Miss Sheila Webb?
- Nunca ouvira, sequer, falar desse nome.
Hardcastle fitou-a, estupefacto.
- Deixou a porta da frente apenas no fecho...lembrou.
- Deixo-a assim com muita frequncia, de dia.
- Qualquer pessoa poderia entrar...
- Parece que foi isso que sucedeu, neste casocomentou secamente a cega.
- Miss Pebmarsh, segundo a opinio do mdico,
o homem morreu aproximadamente entre a uma e
meia e as duas e quarenta e cinco da tarde. Onde estava nessa altura?
Miss Pebmarsh pensou, de novo, antes de responder:
- Creio que sa de casa cerca da uma e meia. Precisava de fazer umas compras.
- Sabe-me dizer exactamente aonde foi?
- Deixe ver... Fui aos Correios da Albany Road
expedir uma encomenda e comprar alguns selos; depois comprei umas coisas para a casa, botes e 
alfinetes de segurana, na capelista Field & Wren. A seguir
regressei... Posso-lhe dizer exactamente que horas

25

eram: o meu relgio de cuco estava a dar as trs horas
quando transpus a cancela. Consigo ouvi-lo da estrada.
- E quanto aos seus outros relgios?
- Como?
- Os seus outros relgios parecem estar todos
adiantados cerca de uma hora.
- Adiantados? Refere-se ao relgio de p, do
canto?
- No apenas a esse. A todos os outros relgios
da sala.
- No compreendo o que quer dizer com "os outros relgios". No existem outros relgios na sala.

3

- Essa agora, Miss Pebmarsh! Que me diz do belo relgio de porcelana de Dresda, que tem na prateleira da 
chamin? E do bonito relgio dourado francs? E do relgio de prata? E... sim, e do relgio que
tem o nome de "Rosemary" gravado a um canto?
- Um de ns deve estar doido, inspector. Garanto-lhe que no tenho nenhum relgio de porcelana de
Dresda, nenhum relgio com o nome... - como disse? - ... com o nome de "Rosemary" gravado, nenhum 
relgio dourado francs... e qual era o outro?
- Um relgio de prata.
- Nem nenhum relgio de prata. Se no acredita
em mim, pode perguntar  mulher que vem fazer a
limpeza. Chama-se Mistress Curtin.
O detective-inspector Hardcastle estava perplexo.
Miss Pebmarsh falava em tom de grande segurana e
firmeza, convictamente. Meditou, alguns momentos,
e depois levantou-se.
- Miss Pebmarsh, importa-se de me acompanhar
 sala?

26

- s suas ordens. Para lhe ser franca, eu prpria
gostaria de ver esses relgios.
- Ver? - repetiu Hardcastle, surpreendido.
- Examinar seria um termo mais adequadoconcordou Miss Pebmarsh -, mas at as pessoas cegas usam 
modos convencionais de linguagem que no
se aplicam exactamente s suas capacidades. Quando
disse que gostaria de ver esses relgios, queria dizer
que gostaria de os examinar e sentir com os meus dedos.
Hardcastle saiu da cozinha, atravessou o pequeno
vestbulo e entrou na sala, seguido por Miss Pebmarsh. O perito das impresses digitais levantou a cabea 
e anunciou:
- Estou quase a acabar, inspector. Pode mexer no
que quiser.
Hardcastle acenou afirmativamente e pegou no pequeno relgio de viagem, com a palavra "Rosemary"
gravada a um canto. Entregou-a a Miss Pebmarsh, que
o apalpou cuidadosamente.
- Parece um vulgar relgio de viagem, com estojo
de cabedal que se fecha. No  meu, inspector, e tenho praticamente a certeza de que no se encontrava
nesta sala quando eu sa,  uma e meia.
- Obrigado.
O inspector aceitou o relgio de viagem e tirou o
de porcelana da prateleira da chamin.
- Tenha cuidado com este - recomendou, ao entreg-lo  cega. -  frgil.
Millicent Pebmarsh tacteou o relgio, com dedos
delicados e cuidadosos, e abanou a cabea.
- Deve ser um relgio encantador, mas no 
meu. Onde disse que estava?
- Do lado direito da prateleira da chamin.
- A devia estar um castial de porcelana.
- Est, de facto, mas foi puxado para a porta.
- Disse que havia ainda outro relgio, no disse?
- H mais dois.

27

Hardcastle arrumou o relgio de porcelana de Dresda e entregou a Miss Pebmarsh o pequeno relgio 
dourado francs. Ela examinou-o depressa e devolveu-o.
- Tambm no  meu.
Foi a vez do de prata, que ela devolveu igualmente
e afirmou no lhe pertencer.
- Os nicos relgios que deviam estar nesta sala
so um relgio de p, naquele canto junto da janela...
- Exactamente.
... e um relgio de cuco, na parede, prximo da
porta.
Hardcastle no soube ao certo que dizer. Observou
perscrutadoramente a mulher que tinha  sua frente,
tranquilo por ela no saber que estava a ser observada.
Miss Pebmarsh tinha a testa um pouco franzida, numa
expresso de perplexidade.
- No compreendo - afirmou, irritada. - No
consigo compreender.
Estendeu uma das mos, com perfeito conhecimento do ponto da sala onde se encontrava, e sentou-se. 
Hardcastle olhou para o homem das impresses
digitais, que se encontrava de p,  porta.
- Examinou estes relgios?
- Examinei tudo, inspector. No h quaisquer
impresses no relgio dourado, nem seria de esperar
que as houvesse, pois a superfcie no as retm. Acontece o mesmo com o de porcelana. No entanto, o de
viagem e o de prata tambm as no tm, e isso j parece um pouco esquisito. Normalmente, deviam ter 
impresses digitais. A propsito, nenhum deles tem corda e esto todos parados  mesma hora: quatro 
horas e
treze minutos.
- E quanto ao resto da sala?
- H trs ou quatro jogos diferentes de impresses digitais, suponho que todas de mulheres. O contedo 
das algibeiras da vtima est em cima da mesa.
Indicou com a cabea um montinho de coisas e
Hardcastle aproximou-se e observou. Encontrou uma

28

carteira com sete libras e dez xelins; algumas moedas;
um leno de seda, de bolso, sem qualquer inicial; uma
caixa de pastilhas digestivas; e um carto impresso,
que o inspector se inclinou para ler.

MR. R. H. CURRY
Metropolis and Provincial Insurance Company, Ltd.

Denvers Street, 7 Londres, W. 2

O inspector voltou ao sof onde Miss Pebmarsh se
sentara e perguntou-lhe:
- Aguardava a visita de algum de uma companhia de seguros?
- De uma companhia de seguros? No, no
aguardava.
- Da Metropolis and Provincial Insurance Company...
- Nunca ouvi falar dela - afirmou Miss Pebmarsh, a abanar a cabea.
- No tencionava fazer nenhum seguro?
- No. Estou segura contra incndio e roubo na
Jove Insurance Company, que tem aqui uma sucursal.
No tenho nenhum seguro pessoal; como no tenho
famlia nem parentes chegados, no acho necessrio fazer um seguro de vida.
- O nome de Curry diz-lhe alguma coisa? Mister
R. H. Curry?
O inspector observava-a atentamente, mas no notou nenhuma reaco.
- Curry... - repetiu, e abanou a cabea. -  um
nome pouco vulgar, no ? Mas no, no me lembro de
o ter ouvido nem de conhecer algum com esse nome.
Era assim que se chamava o homem que mataram?
- Parece que sim.
Miss Pebmarsh hesitou um momento, antes de perguntar:

29

- Deseja que eu... que eu toque...
O inspector compreendeu-a imediatamente.
- Importava-se, Miss Pebmarsh? No  exigir-lhe demasiado? Percebo pouco destes assuntos, mas
suponho que os seus dedos lhe diro mais exactamente o aspecto de uma pessoa do que qualquer 
descrio.
- Sem dvida. Confesso que a ideia no  muito
agradvel, mas estou disposta a faz-lo, se pensa que o
poder ajudar.
- Obrigado. Se me deixar conduzi-la...
Levou-a atrs do sof, pediu-lhe que se ajoelhasse
e depois, suavemente, aproximou-lhe as mos do morto. Ela parecia muito calma e no denunciava 
qualquer
emoo. Os seus dedos percorreram o cabelo, as orelhas - demoraram-se um momento atrs da orelha 
esquerda -, a linha do nariz, da boca e do queixo. Depois abanou a cabea e levantou-se.
- Fao uma ideia clara do seu aspecto, mas tenho
a certeza de que no  ningum que conhea ou haja
visto.
O perito das impresses digitais, que arrumara a
sua maleta e sara da sala, apareceu  porta e anunciou, a apontar o cadver:
- Vm busc-lo. Podem lev-lo?
- Podem. Miss Pebmarsh, venha sentar-se aqui,
sim?
Instalou-a numa cadeira, a um canto, enquanto
dois homens entravam e removiam, com rapidez e eficincia, o corpo do falecido Mr. Curry. Hardcastle
acompanhou-o  cancela e depois voltou  sala e sentou-se perto de Miss Pebmarsh.
- Este caso  muito estranho, Miss Pebmarsh.
Preciso de passar em revista, consigo, os pontos principais, para ter a certeza de que percebi tudo bem.
Corrija-me, se me enganar. A senhora no esperava
nenhuma visita, no fez consultas acerca de qualquer
espcie de seguros e no recebeu nenhuma carta a 

30

inform-la de que receberia, hoje, a visita de um representante de uma companhia de seguros. Est certo?
- Est.
- No precisava dos servios de uma estenodactilgrafa e no telefonou ao Gabinete Cavendish nem
pediu que lhe mandassem algum s trs horas.
- Continua a estar certo.
- Quando saiu de casa, cerca da uma e meia, nesta sala s havia dois relgios, o de cuco e o de p.
Mais nenhum.
Miss Pebmarsh ia a responder imediatamente, mas
hesitou um momento.
- Para responder com toda a verdade, no posso
jurar, a esse respeito. Em virtude de me encontrar
privada da viso, no notaria a ausncia de qualquer
objecto, nem a presena de quaisquer outros que
no costumassem estar nesta sala. S tenho a certeza
do que estava nesta sala quando limpei o p, de manh cedo. Nessa altura, estava tudo no seu lugar.
Geralmente sou eu que limpo esta sala, pois as mulheres-a-dias so um bocado descuidadas com os 
ornamentos.
- De manh saiu de casa?
- Sa. Como de costume, s dez horas fui ao Instituto Aaronberg, onde dou aulas at ao meio-dia e um
quarto. Regressei a casa cerca do meio-dia e quarenta
e cinco, preparei uns ovos mexidos e uma chvena de
ch, na cozinha, e voltei a sair, como j disse, cerca da
uma e meia. A propsito, almocei na cozinha e no
vim a esta sala.
- Portanto, embora possa afirmar que s dez
horas da manh no estavam relgios a mais nesta
sala, admite que os podiam c ter posto durante a
manh.
- A esse respeito, talvez seja conveniente interrogar a minha mulher-a-dias, Mistress Curtin. Costuma
vir por volta das dez horas e partir cerca do meio-dia.
Mora na Dipper Street, dezassete.

31

- Obrigado, Miss Pebmarsh. Restam-nos, agora,
os factos que vou enumerar e acerca dos quais gostaria
que me apresentasse algumas sugestes ou ideias que
porventura lhe ocorram. A certa altura do dia de hoje,
foram introduzidos nesta casa quatro relgios; todos
esses relgios estavam parados s quatro horas e treze
minutos. Esta hora sugere-lhe alguma coisa?
- Quatro horas e treze minutos... No, nada.
- Passemos agora dos relgios para o morto. Parece improvvel que a sua mulher-a-dias o recebesse e
deixasse c ficar  espera, a no ser que a senhora lhe
dissesse que o esperava. Mas a esse respeito interrog-la-emos a ela. Ele veio presumivelmente para falar
consigo acerca de qualquer coisa, quer pessoal, quer
de negcios. Entre a uma e meia e as duas e quarenta
e cinco foi apunhalado e morto. Se ele veio por ter
sido chamado, a senhora afirma nada saber acerca
disso.  provvel que ele estivesse relacionado com
seguros, mas a esse respeito, a senhora tambm no
nos pode ajudar. Como a porta estava apenas no fecho, ele podia ter entrado e ficado  sua espera. Mas
porqu?
- Parece-me tudo muito estpido - declarou a
cega, impacientemente. - O senhor pensa, ento, que
esse... esse Curry trouxe os relgios?
- No encontrmos nenhuma embalagem e ele dificilmente poderia trazer quatro relgios nas algibeiras. 
Pense bem, Miss Pebmarsh. No lhe acode ao esprito nada que se possa relacionar com relgios ou, se
no com relgios, digamos, por exemplo, com tempo?
Quatro horas e treze minutos?.
Millicent Pebmarsh abanou "a cabea.
- Tenho estado a dizer para comigo que se trata
de obra de um louco ou que algum se enganou na casa, mas nem mesmo isso explica o que se passou. 
No,
inspector, no o posso ajudar.
Um jovem polcia chegou  porta e Hardcastle foi
ter com ele e acompanhou-o at  cancela, onde se demoraram alguns minutos a conversar.

32

- Agora pode levar a pequena a casa - disse-lhe,
por fim. - Mora na Palmerston Road, catorze.
Retrocedeu e entrou na casa de jantar. Pela porta
aberta, viu Miss Pebmarsh a fazer qualquer coisa, no
lava-loua.
- Preciso de levar os relgios, Miss Pebmarsh.
Deixar-lhe-ei um recibo.
- Pode lev-los  vontade, inspector. No me pertencem...
Hardcastle virou-se para Sheila Webb e informou-a:
- Pode ir para casa, Miss Webb. O carro da Polcia lev-la-.
A jovem e Colin levantaram-se ao mesmo tempo.
- Acompanhe-a ao carro, sim, Colin? - pediu
Hardcastle, ao mesmo tempo que chegava uma cadeira
para a mesa e se sentava a passar um recibo.
Colin e Sheila saram. No carreiro, Sheila parou,
de sbito:
- As minhas luvas! Deixei-as...
- Vou busc-las.
- No... Sei exactamente onde as pus. No me
importo de l voltar, agora... agora que o levaram.
Retrocedeu a correr e voltou um ou dois minutos
depois.
- Peo desculpa de ter sido to pateta... antes.
- Qualquer pessoa procederia do mesmo modo.
Hardcastle alcanou-os, quando Sheila entrava no
automvel, deixou o carro arrancar e disse ao jovem
polcia:
- Quero os relgios da sala acondicionados com
cuidado. Todos menos o relgio de cuco, da parede, e
o relgio de p.
Deu mais algumas instrues e depois voltou-se
para o amigo:
- Vou a uns lados. Quer vir?
- Porque no? - respondeu Colin.

33

4

NARRATIVA DE COLIN LAMB

- Aonde vamos? - perguntei a Dick Hardcastle.
- Gabinete de Secretariado Cavendish - respondeu, mas a dirigir-se ao motorista. - Fica na Palace Street, 
perto do Esplanade,  direita.
- Sim, inspector.
O carro arrancou. Entretanto, juntara-se uma pequena multido de mirones, cheia de curiosidade.
O gato amarelo continuava empoleirado no pilar da cancela da Diana Lodge, ao lado do nmero 19. Agora j 
no lavava o focinho. Estava sentado muito direito,
a abanar um pouco a cauda e a olhar por cima da cabea
dos curiosos, com o absoluto desdm pela espcie humana que  prerrogativa especial de gatos e 
camelos.
- Primeiro o Gabinete de Secretariado e depois a mulher-a-dias - acrescentou Hardcastle, a olhar para
o relgio. - O tempo urge; j passa das quatro.Fez uma pausa prolongada, antes de perguntar:Uma 
pequena muito atraente, no acha?
- Muito - concordei.
- Mas contou uma histria extraordinria e, por isso, quanto mais cedo a confirmarmos, melhor.
- No pensa que ela...
- Interessam-me sempre as pessoas que encontram cadveres - interrompeu-me o inspector.
- Mas a pequena estava meio louca de medo! Se a ouvisse gritar...
Lanou-me um dos seus olhares irnicos e repetiu que ela era muito atraente.
- A propsito, Colin, que andava voc a fazer em Wilbraham Crescent? A admirar a nobre arquitectura 
vitoriana? Ou tinha algum objectivo?
- Tinha um objectivo. Procurava o nmero sessenta e um e no o conseguia encontrar. Possivelmente no 
existe...

34

- Existe, sim. Suponho que a numerao vai at
oitenta e oito.
- Mas quando cheguei ao vinte e oito, Wilbraham Crescent acabou-se!
-  um pormenor que intriga sempre as pessoas que no so daqui. Se tivesse virado  direita, pela Albany 
Road, e depois novamente  direita, encontrar-se-ia na outra metade de Wilbraham Crescent. As casas 
foram construdas aos pares, mas traseiras com traseiras, com os jardins de permeio.
- Ah, compreendo! Como aqueles largos e jardins
de Londres, no ? Onslow Square... ou Cadogan.
Comeamos a descer um lado de um largo e ele transforma-se, de sbito, numa praa ou num jardim. s 
vezes at os motoristas de txis ficam s aranhas. Mas
o que interessa  que o nmero sessenta e um existe.
Faz alguma ideia de quem l mora?
- No sessenta e um? Deixe ver... Sim, deve ser Bland, o construtor civil.
- Ora bolas! - resmunguei. -  pena. 
- No lhe interessa um construtor?
- No, no me interessa um construtor para nada. A no ser... Talvez se tenha instalado c recentemente?
- Creio que o Bland nasceu aqui. , pelo menos, homem destes stios, estabelecido h anos.
- Decepcionante.
-  um pssimo construtor, por sinal, utiliza materiais muito fracos. Constri aquele tipo de casas que 
parecem mais ou menos bem at l vivermos. Depois
comea tudo a cair ou a funcionar mal.  esperto, mas
arrisca-se e algum dia quina.
- No vale a pena tentar-me, Dick. O homem que procuro deve, quase com certeza, ser a rectido
personificada.
- Bland herdou uma quantidade de dinheiro h cerca de um ano... ou melhor, quem herdou foi a mulher. Ela 
 canadiana, veio para c durante a guerra e

35

conheceu Bland. A famlia no queria que ela casasse com ele e p-la mais ou menos  margem, depois 
do
casamento. O ano passado, porm, faleceu um tio-av
cujo filho morrera num desastre de aviao. Devido s
baixas provocadas pela guerra e a outras circunstncias, verificou-se que Mistress Bland era a nica 
pessoa que restava da famlia e por isso o dinheiro foi para ela. Creio que Bland escapou da falncia por um
triz.
- Parece muito bem informado acerca de Mister Bland.
- Bem, o servio de impostos est sempre interessado quando um homem enriquece  da noite para o dia. 
Desconfia se no ter havido tramia nas declaraes, se o tipo no ter posto uns dinheiros de parte, e 
manda investigar. Desta vez investigou-se e estava tudo em ordem.
- Alis, no estou interessado num homem que enriqueceu de sbito. No  isso que procuro.
- No? Mas j lhe tem aparecido, no tem?
Acenei afirmativamente.
- Esta histria  complicada - expliquei, evasivo. - Jantamos juntos, como estava combinado, ou temos de 
mudar de planos, em virtude do que sucedeu?
- No, o combinado mantm-se. Neste momento, a primeira coisa a fazer  pr a engrenagem em 
funcionamento. Precisamos de descobrir tudo quanto seja
possvel acerca de Mister Curry.  muito provvel
que, quando soubermos quem era e o que fazia, tenhamos uma ideia mais ou menos aproximada de quem 
o desejava afastar do caminho. - Olhou pela janela e informou: - Chegmos.
O Gabinete de Secretariado e Dactilografia estava situado na principal rua comercial, pomposamente 
denominada Palace Street. Tratava-se, como muitos outros estabelecimentos daquela artria, de uma casa 
vitoriana, adaptada s necessidades actuais.  direita, 

36

uma casa semelhante ostentava uma tabuleta a anunciar: "Edwin Glen, fotgrafo artstico. Especializado 
em fotografias de crianas, de casamentos, etc." Como
a provar a afirmao, a montra estava cheia de ampliaes de fotografias de crianas de todos os tamanhos 
e
idades, de bebs e adolescentes de 16 anos. A inteno
era, provavelmente, tentar as mams enlevadas. Viam-se tambm algumas fotografias de noivos: jovens 
tmidos e moas sorridentes. Do outro lado do Gabinete Cavendish ficavam os escritrios de uma antiga e 
antiquada firma de comerciantes de carvo. A seguir, as
casas antigas tinham sido deitadas abaixo e dado lugar a um cintilante edifcio de trs andares, em cuja 
tabuleta se lia o ttulo imponente de "Caf-Restaurante
Oriente".
Hardcastle e eu subimos os quatro degraus, transpusemos a porta da rua e, obedientes ao letreiro de uma 
porta da direita, que dizia "Faa Favor de Entrar", entrmos. Encontrmo-nos num aposento de boas 
dimenses, onde trs jovens estavam sentadas a escrever  mquina. Duas delas continuaram a martelar 
as teclas, sem ligar importncia nenhuma  nossa chegada, e a terceira, instalada numa mesa que tinha 
um telefone e ficava defronte da porta, levantou a cabea e olhou-nos, de modo interrogador. Parecia estar
a chupar uma guloseima qualquer, que empurrou para um dos lados da boca.
- Em que lhes posso ser til? - perguntou, em
tom levemente adenoidal.
- Miss Martindale? - inquiriu Hardcastle.
- Creio que, neste momento, est a telefonar...
Ao mesmo tempo ouviu-se um clique e a jovem levantou o auscultador do telefone,  mexeu numa cavilha e 
anunciou:
- Esto aqui dois cavalheiros que desejam falar
consigo, Miss Martindale... - Olhou para ns e perguntou: - Como se chamam, por favor?
- Hardcastle.

37

- Mister Hardcastle, Miss Martindale. - Reps
o auscultador no descanso e levantou-se. - Por aqui, se fazem favor. - Conduziu-nos a uma porta que tinha 
o nome de "Miss Martindale" numa chapa de metal, abriu-a, chegou-se para um lado para passarmos e 
fechou-a.
Miss Martindale estava sentada a uma grande secretria. Era uma mulher de aspecto eficiente, cerca de 
cinquenta anos, cabelo ruivo-claro e olhar vivo.
Olhou de um para o outro e perguntou:
- Mister Hardcastle?
Dick tirou um dos seus cartes oficiais e estendeu-lho, enquanto eu tentava passar despercebido e me 
sentava numa cadeira de espaldar direito, junto da
porta.
As sobrancelhas arruivadas de Miss Martindale arquearam-se, numa expresso de  surpresa e certo 
desagrado.
- Detective-inspector Hardcastle? Em que lhe posso ser til?
- Vim pedir-lhe uma pequena informao, Miss
Martindale, e creio que ma poder dar.
Pelo tom da sua voz, deduzi que Dick ia usar de rodeios e recorrer ao seu encanto. Pessoalmente, duvidei 
que Miss Martindale fosse vulnervel ao encanto.
Pertencia quele tipo que os Franceses qualificam sagazmente de femme formidable.
Entretanto, fui observando o ambiente. Nas paredes, por cima da secretria de Miss Martindale, estavam 
diversas fotografias autografadas. Reconheci numa delas Mrs. Ariadne Oliver, uma escritora policial que 
conhecia superficialmente e que escrevera a um canto da fotografia, em letras firmes e grandes: Com
considerao, Ariadne Oliver. Noutra, de um escritor
de suspense morto havia cerca de dezasseis anos, lia-se: Com gratido, Garry Gregson. Miriam Hogg, 
especialista em romances amorosos, autografara a sua fotografia com um Sempre sua, Miriam, e o gnero 
literrio

38

que explorava o sexo tambm l tinha o seu representante, um homenzinho careca e tmido, que escrevera, 
em letras miudinhas: Com a gratido de Armand Levine. Havia certas constantes naqueles trofus: os 
homens, na sua maioria, seguravam cachimbos... e vestiam casacos de tweed, e as mulheres tinham um 
ar
muito srio e uma tendncia para parecerem afogadas em peles.
Enquanto eu me servia dos olhos, Hardcastle interrogava:
- Creio que tem ao seu servio uma jovem chamada Sheila Webb?
- Tenho. Mas, neste momento, ela no est. Pelo menos...
Premiu um boto e falou com o escritrio contguo:
- Edna, a Sheila j voltou?
- Ainda no, Miss Martindale.
- Foi fazer um trabalho, ao princpio da tardeexplicou a directora. - Calculei que j tivesse acabado... mas  
provvel que tenha seguido para o Curlew
Hotel, onde tinha outro trabalho marcado para as cinco horas.
- Compreendo. Sabe-me dizer alguma coisa acerca de Miss Sheila Webb?
- Receio no lhe saber dizer muito... Ela est c... deixe ver... sim, creio que  nossa empregada h cerca 
de um ano. O seu trabalho tem sido satisfatrio.
- Sabe onde trabalhava antes de vir para c?
- Acho que poderei procurar, se tem interesse especial nessa informao, inspector Hardcastle. As 
referncias dela esto arquivadas. Que me lembre, assim
de repente, esteve empregada em Londres e os patres deram muito boas informaes a seu respeito. 
Creio, embora no tenha a certeza, que se tratava de uma firma de agentes de propriedades.
- E a senhora diz que ela  boa empregada?
-  competente - respondeu Miss Martindale, que no devia ser pessoa para grandes elogios.

39

- Mas no de primeira categoria?
- No, isso no. Estenografa a uma velocidade regular e  razoavelmente instruda. Como dactilgrafa,  
cuidadosa e certa.
- Conhece-a pessoalmente, alm de como empregada?
- No. Suponho que vive com uma tia. - Miss
Martindale hesitou um momento. - Posso saber porque me faz todas estas perguntas, inspector 
Hardcastle? A pequena meteu-se nalgm sarilho?
- Suponho que no, Miss Martindale. Conhece uma tal Miss Millicent Pebmarsh?
- Pebmarsh... - repetiu a directora, com as sobrancelhas arruivadas franzidas. - Onde... Ah, j me lembro! 
Foi Miss Pebmarsh que chamou Sheila, esta
tarde. O encontro era para as trs horas.
- Como foi marcada a entrevista?
- Pelo telefone. Miss Pebmarsh telefonou e disse que precisava dos servios de uma estenodactilgrafa e 
se lhe podia mandar Miss Webb.
- Ela pediu, especificamente, Sheila Weeb?
- Pediu.
- A que horas foi feito o telefonema?
Miss Martindale pensou um momento, antes de responder:
- O telefonema foi feito directamente para mim...
o que significa que foi na hora do almoo. Suponho que faltariam uns dez minutos para as duas. Antes das 
duas foi, com certeza. Espere, lembro-me de que tomei nota na minha agenda... C est: uma hora e 
quarenta e nove minutos, precisamente.
- Foi a prpria Miss Pebmarsh que lhe falou?
Miss Martindale pareceu um pouco surpreendida.
- Presumo que sim.
- No lhe reconheceu a voz? No a conhece pessoalmente?
- No, no a conheo. Disse que era Miss Millicent Pebmarsh e indicou-me o seu nome e a sua morada,

40

em Wilbraham Crescent. Depois, como j disse, pediu que lhe mandasse Sheila Webb s trs horas, se 
estivesse livre.
Pensei que Miss Martindale daria uma excelente testemunha, pois as suas declaraes eram claras e 
firmes.
- E se fizesse o favor de me dizer acerca de que vem tudo isto? - perguntou, com certa impacincia.
- Sabe, Miss Martindale, Miss Pebmarsh nega ter feito semelhante telefonema.
- Deveras? Mas  extraordinrio!
- Pelo seu lado, a senhora declara que o telefonema foi feito, mas no pode afirmar que tenha sido Miss 
Pebmarsh quem telefonou.
- Claro que no posso afirmar, pois no conheo a criatura. No entanto, no compreendo porque faria 
algum tal coisa... Tratou-se de alguma partida?
- Foi muito mais do que isso. Miss Pebmarsh, ou quem quer que telefonou em nome dela, explicou por que 
motivo desejava especificamente Miss Sheila
Webb?
- Creio que disse que Sheila Webb j trabalhara para ela, antes.
- E isso  verdade?
- Sheila declarou-me no se lembrar de ter feito qualquer trabalho para Miss Pebmarsh... mas isso no quer 
dizer nada. As pequenas saem tantas vezes, trabalham para tanta gente e em stios to diferentes, que
 natural no se lembrarem, passados alguns meses.
Alis, Sheila no foi muito peremptria a esse respeito. Disse apenas no se lembrar de l ter ido. Mas, 
inspector, mesmo que se tenha tratado de uma partida, no compreendo o seu interesse...
- J lhe explico. Quando Miss Webb chegou a Wilbraham Crescent, dezanove, entrou na habitao e 
dirigiu-se para a sala. Disse-me que tinham sido essas
as instrues que recebera.  verdade?
- , sim. Miss Pebmarsh disse que talvez chegasse 

41

um bocadinho atrasada e que, nesse caso, Sheila podia entrar e esperar.
- Quando Miss Webb entrou na sala, encontrou um homem morto, cado no cho.
Miss Martindale fitou o inspector e, por momentos, pareceu incapaz de falar.
- Disse um homem morto, inspector?
- Um homem assassinado. Apunhalado.
- Oh, meu Deus, a pequena deve ter sofrido um grande abalo!
- O nome de Curry diz-lhe alguma coisa, Miss Martindale? Mister R. H. Curry?
- No, suponho que no.
- Mister Curry, da Metropolis and Provincial Insurance Company?
A directora continuou a abanar a cabea.
- Compreende o meu dilema, Miss Martindale: a senhora diz que Miss Pebmarsh lhe telefonou e pediu que 
mandasse Sheila Webb a sua casa, s trs horas;
Miss Pebmarsh nega ter feito semelhante telefonema. Sheila Webb obedeceu s instrues que lhe deram 
e quando chegou encontrou um homem morto.
O inspector aguardou, mas Miss Martindale olhou-o inexpressivamente.
- Tudo isso me parece estranho e inacreditvellimitou-se a declarar, desaprovadora.
Dick Hardcastle suspirou e levantou-se.
- Tem uma bela casa - elogiou, delicadamente.J est estabelecida h algum tempo, no est?
- H quinze anos. Temos tido sorte. Comeamos modestamente, mas fomo-nos expandindo e agora quase 
no chegamos para as encomendas. Tenho oito
empregadas e elas nunca param.
- Vejo que se dedicam muito a trabalho literrioobservou Hardcastle, a olhar  para as fotografias da parede.
- Sim, ao princpio especializei-me em trabalhar para escritores. Fui secretria do famoso ficcionista 

42

Garry Gregson, durante muitos anos... e, por sinal, foi graas a um legado dele que fundei o Gabinete. 
Conhecia muitos escritores e eles recomendaram-me. Os
conhecimentos especializados que adquirira junto de Mister Gregson foram-me muito teis e agora estou 
apta a prestar um servio importante, no captulo de
datas, citaes, pormenores jurdicos, procedimento
policial, certas propriedades de venenos, coisas assim... Nomes estrangeiros, moradas e nomes de 
restaurantes, quando os autores situam os seus romances
em pases estrangeiros... Noutros tempos, o pblico no ligava muita importncia  exactido, mas hoje 
em dia os leitores no deixam escapar nenhuma oportunidade de escrever aos autores sempre que 
encontram qualquer falha.
- Estou certo de que tem motivos para se sentir contente - declarou Hardcastle, muito delicado.
Encaminhou-se para a porta e eu abri-lha.
No escritrio, as trs raparigas preparavam-se para sair e j tinham tapado as mquinas de escrever. Edna,
a recepcionista, estava de p, com um ar muito triste, a segurar numa das mos um sapato e na outra um 
salto alto e fino.
- S os comprei h um ms - lamentava-se.E foram caros! A culpa foi daquele  maldito ralo da esquina, 
junto da pastelaria. O salto prendeu-se l e soltou-se.  no pude continuar a andar, tive de descalar os 
dois sapatos e voltar para o escritrio, com dois bolos para me servirem de almoo. Palavra que no sei 
como hei-de chegar  paragem do autocarro e de seguir para casa!
Nesse momento Edna deu pela nossa presena e apressou-se a esconder o sapato, ao mesmo tempo que 
lanava a Miss Martindale um olhar apreensivo. A directora, que calava sapatos prticos, de meio-salto, 
no devia apreciar saltos daqueles.
- Obrigado, Miss Martindale - agradeceu Hardcastle. - Lamento ter-lhe roubado tanto tempo. Se se lembrar 
de alguma coisa...

43

- Com certeza - cortou a mulher, com certa brusquido.
Quando entrmos no automvel, observei:
- Afinal, apesar das suas suspeitas, a histria de Sheila Webb  verdadeira.
- Est bem, est bem, ganhou!

5

- Me! - gritou Ernie Curtin e desistiu momentaneamente de movimentar um pequeno brinquedo metlico 
pelo vidro da janela acima e abaixo, ao mesmo tempo que emitia um "zumeee" que pretendia reproduzir o 
silvo de uma astronave a caminho de Vnus... - Que lhe parece, me?
Mrs. Curtin, uma mulher de rosto severo que estava ocupada a lavar a loua, no respondeu.
- Me, parou um carro da Polcia defronte da nossa casa!
- No digas mais mentiras, Ernie! - advertiu Mrs. Curtin, enquanto punha as chvenas e pires a escorrer. - 
No te esqueas do que te disse a esse respeito.
- No esqueo! - garantiu Ernie, virtuosamente. -  mesmo um carro da Polcia e  esto a sair dois homens.
Mrs. Curtin virou-se, ameaadora, para o rebento.
- Que fizeste tu agora? Alguma vergonha, no?
- Claro que no! No fiz nada.
- Tudo por andares com aquele Alf e o seu bando. Bandos, imaginem! Tanto eu como o teu pai j te 
dissemos que um bando no  uma coisa respeitvel.
D sempre sarilho! Primeiro  o tribunal de menores e, mais cedo ou mais tarde, a casa da correco. No 
consentirei semelhante coisa, ouviste?

44

- Dirigem-se para a porta da rua - anunciou Ernie.
Mrs. Curtin afastou-se do lava-loua e juntou-se ao filho,  janela.
Nesse momento bateram  porta e Mrs. Curtin limpou as mos a uma rodilha e apressou-se a ir abrir, ao 
corredor. Olhou, entre desconfiada e provocadora,
para os dois homens parados no limiar.
- Mrs. Curtin? - perguntou delicadamente o mais alto.
- Exactamente.
- D-me licena que entre um momento? Sou o detective-inspector Hardcastle.
Mrs. Curtin recuou, contrariada, abriu a porta e
fez sinal ao inspector para entrar. Era uma saleta muito arrumada e limpa, que dava a impresso de ser 
pouco usada, o que era verdade.
Curioso, Ernie aproximou-se, vindo da cozinha, e esgueirou-se para dentro da sala.
- Seu filho? - perguntou o inspector.
- Sim - respondeu a mulher, e acrescentou, agressiva: -  bom rapaz, diga o senhor o que disser!
- Estou certo de que  - concordou Hardcastle, delicadamente, e o rosto de Mrs. Curtin tornou-se menos 
desafiador. - Desejo fazer-lhe algumas perguntas
acerca de Wilbraham Crescent, dezanove. Sei que trabalha l...
- Nunca disse que no trabalhava - replicou a mulher, incapaz, apesar de tudo, de vencer a agressividade 
inicial.
- Trabalha para Miss Millicent Pebmarsh...
- Sim, trabalho para Miss Pebmarsh. Uma senhora muito simptica. 
- Cega...
- Sim, coitadinha. Mas nem parece!  extraordinria a maneira como estende a mo para as coisas e anda 
por todo o lado! Sai de casa, atravessa ruas...
No se atrapalha, como certas pessoas que conheo.

45

- A senhora trabalha l de manh?
- Trabalho. Entro entre as nove e meia e as dez horas e saio ao meio-dia ou quando acabo o servio.De 
sbito perguntou, vivamente: - No veio dizer
que roubaram alguma coisa, pois no?
- Pelo contrrio - respondeu o inspector, a pensar nos quatro relgios.
Mrs. Curtin olhou-o sem compreender e indagou:
- Que se passa?
- Esta tarde, foi encontrado um homem morto na sala da casa de Wilbraham Crescent, dezanove.
Mrs. Curtin arregalou os olhos. Ernie encolheu-se todo, num xtase, abriu a boca para exclamar "Oh!", 
achou melhor no chamar a ateno para a sua pessoa
e fechou outra vez a boca.
- Morto? - perguntou a mulher, incrdula, e acrescentou, com maior incredulidade ainda: - Na sala?
- Sim. Fora apunhalado.
- Quer dizer que foi... assassnio?
- Sim, foi assassnio.
- Quem o assassinou?
- Lamento, mas ainda no sabemos. Pensamos que talvez a senhora nos pudesse ajudar.
- No sei nada de assassnios! - afirmou Mrs. Curtin, categrica.
- Evidentemente. Mas surgiram alguns pormenores que talvez nos possa esclarecer. Por exemplo, esta 
manh foi l algum homem?
- Que me lembre, no. Hoje no foi. Que espcie de homem era ele?
- Idoso, talvez dos seus sessenta anos, respeitavelmente vestido de escuro...  provvel que se 
apresentasse como agente de seguros.
- No o deixaria entrar. No deixaria entrar agentes de seguros nem vendedores  de aspiradores ou de 
edies da Enciclopdia Britnica. Nada desse gnero. Miss Pebmarsh no compra nada  porta e eu 
tambm no. 

46

- O nome do indivduo, segundo um carto que trazia com ele, era Mister Curry. Alguma vez ouviu esse 
nome?
- Curry?... - Mrs. Curtin abanou a cabea.Soa-me a mdianol... - acrescentou, desconfiada.
- Oh, no, no era indiano!
- Quem o encontrou? Miss Pebmarsh?
- Uma jovem estenodactilgrafa. Foi l a casa devido a um mal-entendido,  convencida de que Miss 
Pebmarsh a chamara, para lhe fazer um trabalho.
Miss Pebmarsh regressou quase ao mesmo tempo.
Mrs. Curtin soltou um suspiro fundo e exclamou:
- Que complicao! Que complicao!
-  possvel que tenhamos de lhe pedir que veja o cadver, a fim de nos dizer se alguma vez o viu em 
Wilbraham Crescent ou se ele l foi a casa. Miss Pebmarsh tem a certeza de que nunca foi... Agora 
desejava que me esclarecesse alguns pormenores. Lembra-se, assim de repente, quantos relgios h na 
sala?
Mrs. Curtin nem precisou de pensar:
- H o relgio grande, ao canto, e o relgio de cuco, na parede. Sai um,passarinho por uma portinhola e diz 
cu, cu! cu, cu! As vezes prega-me cada  susto! - Apressou-se a acrescentar: - No toquei em nenhum, 
nunca lhes mexo. Miss Pebmarsh gosta de ser ela a dar-lhes corda.
- No aconteceu nada aos relgios - tranquilizou-a o inspector. - Tem a certeza  de que esses dois eram os 
nicos relgios que estavam na sala, esta
manh?
- Pois tenho! No podiam l estar outros.
- No estavam l, por exemplo, um pequeno relgio quadrado, de prata, ou um  relgio dourado? Um relgio 
de porcelana, com flores, ou um relgio com
um estojo de cabedal e o nome de "Rosemary" gravado a um canto?

' Curry significa caril, em ingls. Da a associao de ideias da mulher.
(N. da T. )

47

- Claro que no!
- Teria reparado neles se l estivessem?
- Com certeza que teria.
- Qualquer destes quatro relgios marcava uma hora e tal a mais do que o relgio grande e o de cuco.
- Deviam ser estrangeiros. Eu e o meu marido fomos, uma vez, numa excurso,  Sua e  Itlia e l
era uma hora mais tarde. Deve ser qualquer coisa relacionada com o Mercado Comum. Eu no quero nada 
com o Mercado Comum e o meu homem tambm no;
a Inglaterra serve-me muito bem.
O inspector Hardcastle no se deixou arrastar para o campo poltico e perguntou:
- Sabe-me dizer que horas eram, ao certo, quando saiu de casa de Miss Pebmarsh, esta manh?
- Mais ou menos meio-dia e um quarto.
- Miss Pebmarsh estava em casa?
- No, ainda no regressara. Geralmente regressa entre o meio-dia e o meio-dia e meia hora, mas varia.
- A que horas sara ela?
- Antes de eu chegar. Entro s dez.
- Obrigado, Mistress Curtin.
- Isso dos relgios parece estranho. Talvez Miss
Pebmarsh tenha ido a alguns saldos... No eram antigos? Pelo menos  o que me parecem, pelo modo 
como os descreveu.
- Miss Pebmarsh costuma ir a saldos?
- H uns quatro meses comprou uma carpete em muito bom estado, num saldo. Muito barata, segundo me 
disse. Tambm comprou uns cortinados de
veludo. Foi preciso cort-los um bocadinho, mas pareciam novos.
- Mas ela no costuma comprar bricabraque, coisas assim como quadros, porcelanas?...
- Que eu saiba, no. Mas nos saldos nunca se sabe, no ? Quero dizer, deixamo-nos arrastar pela 
tentao. Quando chegamos a casa, perguntamo-nos:
"Mas, afinal, para que quero isto?" Uma vez, comprei

48

seis boies de compota, que eu prpria podia ter feito mais barata. Outra, foram chvenas e pires, que 
compraria mais baratos no mercado das quartas-feiras...
Abanou a cabea, tristemente, e o inspector compreendeu que, de momento, no conseguiria saber mais 
nada e despediu-se. Ernie soltou, ento, a frase
que se esforara por conter:
- Assassnio! Ena!
Momentaneamente, a conquista do espao exterior deu lugar, no seu esprito, a um assunto actual e 
emocionante.
- Miss Pebmarsh no o podia ter morto, pois no? - sugeriu, ansioso.
- No digas tolices! - ralhou a me, e murmurou, ao acudir-lhe um pensamento: - Pergunto a mim mesma 
se lhe deveria ter dito...
- Se lhe deveria ter dito o qu, me?
- No tens nada com isso. No foi nada de importncia, de resto...

6

NARRATIVA DE COLIN LAMB

Depois de nos deliciarmos com dois bons bifes mal passados, regados com cerveja de barril, Dick 
Hardcastle soltou um suspiro de agradvel saciedade, afirmou que se sentia melhor e exclamou:
- Ao diabo com os agentes de seguros assassinados, com os relgios de fantasia e com as raparigas a 
gritar! Fale-me de si, Colin. Julgava que j no tinha
nada a fazer por estas bandas e ei-lo a vaguear pelas
ruas secundrias de Crowdean! Garanto-lhe que em
Crowdean no h futuro para um bilogo martimo.
- No troce da biologia martima, Dick, pois trata-se 

49

de uma matria muito til. A sua simples meno enfada tanto as pessoas, elas tm tanto medo de que 
falemos do assunto, que nunca temos oportunidade de explicar de que se trata.
- Assim, no corre o risco de se denunciar, hem?
- Esquece-se de que sou bilogo martimo - observei, friamente. - Formei-me em Cantabrgia. A 
classificao no foi muito elevada, mas formei-me.  um
trabalho muito interessante e, um dia, voltarei a dedicar-me a ele.
- Claro que sei em que tem andado a trabalhar, e felicito-o. O julgamento do Larkin  no prximo ms, no 
?
- .
-  espantoso como ele conseguiu passar informaes durante tanto tempo! Seria de supor que algum 
desconfiasse...
- Mas ningum desconfiou. Quando se mete na cabea de uma pessoa que determinado indivduo  um tipo 
excelente, no lhe passa pelo esprito que ele
possa no o ser.
- Deve ter procedido com muita inteligncia.
- Francamente, no creio. Estou convencido de que ele procedeu como lhe mandaram proceder. Tinha 
acesso a documentos muito importantes, saa com eles,
fotografavam-nos, devolviam-lhos e ele repunha-os no
seu lugar, no mesmo dia. Boa organizao, apenas. Ele
tinha o hbito de almoar em lugares diferentes, todos os dias, e ns cremos que pendurava o sobretudo 
onde havia sempre outro exactamente igual ao seu, embora
o homem que o usava no fosse todos os dias o mesmo. Os sobretudos eram  trocados, mas o homem 
que os trocava nunca falava com Larkin nem este com ele.
Gostaramos de saber muito mais coisas acerca da mecnica do caso... Era tudo muito bem planeado, 
com uma sincronizao perfeita, por algum que tinha miolos.
-  por isso que continua nas imediaes da Estao Naval de Portlebury?

50

- . Conhecemos o papel da Estao e o papel de Londres, sabemos quando e onde Larkin recebia, e 
como. Mas h uma lacuna, entre uma coisa e outra
existe uma obra-prima de organizao. Era acerca dessa parte que gostaramos de saber mais alguma 
coisa, pois  a que esto os miolos. Algures, existe um bom
quartel-general onde se fazem planos excelentes que deixam uma pista que se torna confusa no uma vez, 
mas provavelmente sete ou oito vezes.
- Porque procedia o Larkin desse modo? - perguntou Hardcastle, curioso. - Por idealismo poltico? Para 
lisonjear o seu ego? Ou por simples dinheiro?
- Ele no tem nada de idealista. Creio que lhe interessava apenas o dinheiro.
- No o podiam ter descoberto mais cedo, por esse motivo? Quero dizer, ele gastava o dinheiro, no 
gastava? No o juntava.
- Oh, no, ele desbaratava-o! Na realidade, desconfimos dele mais cedo do que dizemos.
Hardcastle acenou com a cabea, compreensivo.
- Estou a perceber. Descobriram o jogo e depois serviram-se dele durante uns tempos. Foi isso?
- Mais ou menos. O tipo transmitira valiosas informaes, antes de descobrirmos o que se passava, e por 
isso deixmo-lo transmitir mais algumas, aparentemente valiosas, tambm. No Servio a que perteno 
temos de nos resignar e de parecer idiotas, de vez em quando.
- No creio que gostasse do seu trabalho, Colinobservou Hardcastle, pensativo.
- No  to emocionante como as pessoas julgam. Na realidade, a maioria das vezes  muitssimo 
enfadonho. Mas h mais alguma coisa, para alm disso. Hoje
em dia, temos a sensao de que nada  realmente secreto. Ns sabemos os segredos deles e eles 
sabem os nossos... os nossos agentes so muitas vezes agentes deles, tambm, e os agentes deles 
nossos agentes... No
fim, descobrir quem anda a atraioar quem transforma-se 

51

quase num pesadelo. s vezes, penso que todos
sabem os segredos uns dos outros e participam numa espcie de conspirao para fingir que no sabem.
- Compreendo o que quer dizer... - Dick fitou-me, cheio de curiosidade, e acrescentou: - Percebo por que 
motivo ainda permanece nas imediaes de
Portlebury, mas Crowdean fica a mais de dezasseis
quilmetros de distncia!
- O que na realidade procuro so crescentes. 
- Crescentes? - repetiu o inspector, intrigado.
- Sim. Ou, ento, luas. Luas novas, quartos crescentes, etc. Comecei a investigar em Portlebury, onde h 
um bar chamado Quarto Crescente, e perdi muito
tempo. Parecia ideal... Seguiram-se A Lua e as Estrelas, A Lua Nascente, O Alegre Crescente, A Cruz e o 
Crescente, este numa terreola chamada Seamede. Nada feito. Desisti das luas e concentrei-me nos 
crescentes propriamente ditos. H vrios em Portlebury: Crescente de Lansbury, Crescente de Aldridge, 
Crescente de Livermead, Crescente de Vitria...
Reparei na cara espantada de Dick e desatei a rir.
- No faa essa cara de espanto, homem! Eu tinha algo tangvel em que me basear.
Puxei da carteira, tirei uma folha de papel e estendi-lha. Tratava-se de uma simples folha de papel de carta 
de um hotel, na qual algum fizera um desenho
tosco. Hotel Pmrin9ton &rners Strero
I.ondra 1N. z

52

- Um tipo chamado Hanbury tinha isso na carteira. Hanbury trabalhou muito no  Laso Larkin e era bom... 
muito bom. Foi atropelado em Londres, por
um automvel que no parou. Ningum viu o nmero. No sei o que isso significa, mas  qualquer coisa 
que Hanbury desenhou ou copiou, por julgar que era
importante. Alguma ideia que teve? Algo que vira ou ouvira? Fosse o que fosse, estava relacionado com a 
Lua ou o crescente, o nmero sessenta e um e a inicial
M. Substitu-o, depois da sua morte. Ainda no sei o que procuro, mas tenho a certeza de que existe 
alguma coisa para encontrar. No sei o que significa o sessenta e uzn nem o M. Tenho estado a trabalhar 
numa rea
que tem Portlebury como centro, parti da para o exterior. Trs semanas de trabalho intensivo e intil. 
Crowdean fica no meu caminho e  por isso que estou
c. Para ser franco, nunca tive muitas esperanas em
Crowdean, onde s h um crescente: Wilbraham Crescent. Tencionava passear por Wilbraham Crescent e 
ver o que pensava do nmero sessenta e um, antes de
lhe perguntar se sabia alguma coisa que me pudesse
ajudar. Era o que estava a fazer esta tarde, mas sem conseguir encontrar o nmero que me interessava.
- Como j lhe disse, no sessenta e um mora um construtor civil.
- E no  isso que procuro. Tm algum estrangeiro ao seu servio?
-  possvel. Hoje em dia, muita gente tem criadas estrangeiras. Se tiverem alguma, ela estar registada. 
Amanh averiguarei isso.
- Obrigado, Dick.
- Amanh efectuarei investigaes de rotina nas duas casas que ladeiam o nmero dezanove, para saber 
se viram algum entrar, etc. Talvez investigue tambm
nas que ficam directamente atrs do nmero dezanove, cujos jardins so  contguos. Tenho at a 
impresso de que o nmero sessenta e um fica atrs do dezanove. Se quiser ir comigo, posso-o levar.

53

Aceitei a oferta sem hesitar.
- Serei o seu "sargento Lamb" e tomarei apontamentos em estenografia.
Ficou combinado que me encontraria na esquadra da Polcia s nove e meia da manh seguinte.
Cheguei pontualmente e encontrei o meu amigo a ferver de raiva.
Quando despediu um subordinado cabisbaixo, perguntei, com todas as cautelas, o que sucedera.
Ao princpio, Hardcastle pareceu incapaz de falar. Depois explodiu:
- Os malditos relgios!
- Outra vez os relgios? Que sucedeu agora?
- Um deles desapareceu.
- Desapareceu? Qual?
- O de viagem, com estojo de cabedal e o nome de "Rosemary" gravado a um canto.
Soltei um assobio.
- Mas isso parece muito estranho! Como aconteceu?
- Os grandssimos idiotas... - Dick, que era um homem muito honesto, hesitou um momento e admitiu: - 
Suponho que tambm o sou. Um homem tem
de pr todos os pontos nos , seno corre tudo mal.
Bem, os relgios estavam na sala, ontem, e eu pedi a Miss Pebmarsh que os examinasse com os dedos, 
a fim de saber se lhe eram familiares. No eram. Depois
chegaram para remover o cadver...
- E ento?
- Acompanhei-os at  cancela, para dirigir as operaes, e depois regressei  moradia e falei com Miss 
Pebmarsh, que estava na cozinha. Disse-lhe que
teria de trazer os relgios e lhe daria um recibo.
- Lembro-me perfeitamente, pois ouvi-o. 
- Depois disse  pequena que a levaria a casa num dos nossos carros e voc acompanhou-a ao automvel, 
a meu pedido.
- Exactamente.

54

- Passei o recibo a Miss Pebmarsh, embora ela dissesse que no era preciso, pois os relgios no lhe 
pertenciam, e fui ter consigo. Disse ao Edwards que
queria os relgios da sala cuidadosamente acondicionados e trazidos para c. Todos, excepto, claro, o de 
p e o de cuco. E foi a que fiz asneira. Devia ter dito, especificamente, os quatro relgios. Edwards diz que 
foi logo  sala e cumpriu as minhas ordens, mas teima que s l estavam trs relgios, alm dos dois que 
no eram para trazer.
- No houve muito tempo para agir - observei.Parece...
- Miss Pebmarsh podia ter pegado no relgio, assim que eu sa da sala, e ido para a cozinha com ele.
- Claro. Mas porqu?
- Precisamos de saber tantas coisas! Mais algum teria a mesma possibilidade? Teria sido a pequena?
- No creio. Eu... - calei-me, de repente, ao recordar uma coisa.
- Afinal, podia ter sido ela! - exclamou Hardcastle, perante a minha hesitao. - Continue. Quando foi?
- Saramos e dirigamo-nos para o carro da Polcia - expliquei, muito triste. - Ela lembrou-se de que se 
esquecera das luvas e eu disse-lhe: "Vou busc-las." Mas ela redarguiu: "No... Sei exactamente onde as 
pus. No me importo de l voltar, agora... agora
que o levaram." E voltou para trs, a correr. S se demorou um minuto...
- Quando regressou, trazia as luvas caladas ou na mo?
Hesitei.
- Sim... creio que as trazia...
-  evidente que no as trazia, pois se trouxesse voc no hesitaria.
- Provavelmente meteu-as na mala.
- O mal  que voc se deixou prender pela moa - resmungou Hardcastle, acusadoramente.

55

- No seja idiota! - protestei, com veemncia.Via-a ontem  tarde pela primeira vez, e no se tratou de uma 
apresentao nada romntica.
- No estou muito de acordo com isso. No  todos os dias que caem nos braos de homens novos como 
voc pequenas a gritar por socorro, no bom estilo
vitoriano. Um tipo sente-se um heri e um defensor galante do sexo fraco... Mas tem de deixar de a 
defender, meu amigo. Nada nos garante que ela no esteja
metida at ao pescoo no assassnio.
- Pretende dizer que aquela criatura cravou uma faca num homem, a escondeu to bem que nenhum dos 
seus ces foi capaz de a encontrar e depois saiu de
casa e improvisou aquela cena de gritos, quando me caiu nos braos?
- Ficaria surpreendido se soubesse o que tenho visto, durante a minha vida.
- No se lembra de que a minha vida tambm tem estado cheia de belas espias de todas as 
nacionalidades? Espias com estatsticas vitais to impressionantes que fariam o mais esperto detective 
particular americano esquecer-se da eterna garrafa de usque na gaveta da secretria. Estou imunizado 
contra todos os
encantos femininos.
- Toda a gente acaba por ter o seu Waterloo. Depende tudo do tipo... e Sheila Webb parece ser o seu tipo.
- Seja como for, no compreendo porque est to empenhado em lhe atribuir as culpas.
Hardcastle suspirou.
- No lhe estou a atribuir culpas nenhumas, mas preciso de comear por qualquer lado. O corpo foi 
encontrado na casa de Miss Pebmarsh e esse facto envolve automaticamente a cega no assunto. O corpo 
foi
encontrado por Miss Webb... e eu no preciso de lhe dizer que, muito frequentemente, a primeira pessoa a 
encontrar um cadver foi a ltima a ver o indivduo vivo. Portanto, enquanto no descobrirmos novos factos,

56

no podemos ignorar o papel destas duas mulheres.
- Quando entrei na sala, pouco depois das trs horas, o indivduo morrera havia pelo menos meia hora. Ou 
mais, provavelmente. Que me diz a isto?
- Sheila Webb foi almoar da uma e meia s duas e meia.
Fitei-o, desesperado, e perguntei:
- Que descobriu acerca de Curry?
- Nada! - replicou o inspector, com inesperado azedume.
- Nada? Que quer dizer?
- Quero dizer que no existe, que no h semelhante pessoa.
- Que diz a Metropolis Insurance Company?
- No diz nada, porque tambm no existe. A Metropolis and Provincial Insurante  ompany no existe. 
Quanto a Mister Curry, da Denvers Street, no existe nenhum Mister Curry, nem nenhuma Denvers Street, 
nem
nenhum nnero sete ou qualquer outro.
- Interessante! Quer dizer que o tipo mandou imprimir alguns cartes falsos, com um nome falso e a 
meno de uma companhia de seguros falsa?
- Assim parece.
- E qual seria a grande ideia?
Hardcastle encolheu os ombros.
- Por enquanto, s podemos conjecturar. Talvez ele cobrasse prmios falsos, para no destoar do resto... 
Ou talvez fosse uma maneira de se introduzir na
casa das pessoas e praticar qualquer vigarice. Tanto
podia ser um vigarista como um aldrabo, um gatuno de bagatelas como um investigador particular... No 
sabemos.
- Mas descobriro?
- Oh, sim, acabaremos por descobrir! Recolhemos as suas impresses digitais, para sabermos se tem 
cadastro de qualquer espcie. Se tiver, ser um grande
passo em frente. Se no tiver, ser mais difcil.

57

- Um investigador particular... - murmurei, pensativo. - Agrada-me essa hiptese. Apresenta... 
possibilidades.
- Possibilidades  tudo quanto temos, at agora.
- Quando  o inqurito?
- Depois de amanh. Ser puramente formal e haver um adiamento.
- Qual foi o relatrio mdico?
- Apunhalado com um instrumento aguado. Qualquer coisa do gnero de uma faca de vegetais.
- Isso a bem dizer iliba Miss Pebmarsh, no lhe parece? Seria muito difcil a uma cega apunhalar um 
homem. Suponho que ela  realmente cega?
- Sim,  realmente cega. Investigmos isso. Disse a verdade. Foi professora de matemtica numa escola 
do Norte, perdeu a vista h cerca de dezasseis anos,
aprendeu braille, etc., e, finalmente, arranjou emprego no Instituto Aaronberg.
- No ter qualquer tara?
- A mania dos relgios e dos agentes de seguros?
- , de facto, tudo muito fantstico. - No pude deixar de acrescentar, com certo entusiasmo: - Como
Ariadne Oliver nos seus piores momentos, ou o defunto Garry Gregson no auge da sua forma...
- Divirta-se  vontade! No  o desgraado do detective-inspector a quem compete investigar o caso! No 
tem de prestar contas a um superintendente nem
a um chefe de Polcia e a todos os outros!
- Anime-se! Talvez a vizinhana nos diga alguma coisa til.
- Duvido - resmungou Hardcastle, pessimista.Se o tipo tivesse sido apunhalado no jardim da frente e dois 
mascarados o levassem para dentro de casa, ningum teria visto nada. Por azar, no estamos numa 
aldeia. Wilbraham Crescent  uma artria residencial burguesa. A uma hora, as mulheres-a-dias, que 
poderiam ver alguma coisa, deixam o trabalho e regressam a sua casa. Nem sequer se v ningum a 
empurrar um carrinho de beb na rua!

58

- No h nenhum doente idoso, que passe o dia junto da janela?
- Isso era o que nos convinha, mas no  a realidade.
- E a respeito das casas nmeros dezoito e vinte?
- No nmero dezoito moram Mister Waterhouse, gerente da firma de solicitadores Gainsford & Swettenham, 
e a sua irm, que se entretm a geri-lo a ele nas
horas vagas... Quanto ao nmero vinte, s sei que mora l uma mulher que tem cerca de duas dezenas de 
gatos. No gosto de gatos...
Disse-lhe que a vida de polcia era muito dura e pusemo-nos a caminho.

Mr. Waterhouse, que se encontrava, hesitante, no degrau da casa nmero 18 de Wilbraham Crescent, 
olhou nervosamente para trs, para a irm.
- Tens a certeza de que ficas bem? - perguntou.
Miss Waterhouse replicou, indignada:
- Confesso que no compreendo o que queres dizer, James!
Mr. Waterhouse mostrou um ar contrito. Tinha de se mostrar contrito com tanta frequncia que tal 
expresso se tornara, praticamente, constante.
- Bem, minha querida, se pensarmos no que sucedeu ontem, aqui ao lado...
Mr. Waterhouse preparava-se para seguir para o escritrio onde trabalhava. Era um homem grisalho e 
imaculado, de ombros ligeiramente curvados e rosto
mais cinzento do que rosado, embora sem aspecto doentio.
Miss Waterhouse era uma mulher alta e angulosa, pouco dada a contra-sensos e sem tolerncia nenhuma 
pelos contra-sensos dos outros.

59

- O facto de, ontem, terem assassinado algum aqui ao lado ser razo para me assassinarem, hoje, a 
mim?
- Bem, Edith, depende muito da pessoa que cometeu o assassnio, no achas?
- Pensas, ento, que anda algum por Wilbraham Crescent, a escolher uma vtima em cada casa? 
Francamente, James, isso  quase blasfemo!
- Blasfemo, Edith? - perguntou Mr. Waterhouse, muito surpreendido, pois jamais lhe ocorreria que o seu 
comentrio merecesse tal comparao.
- Reminiscente da Pscoa dos Judeus,  qual, deixa-me que te lembre, a Bblia se referel.
- Creio que a comparao  um bocadinho descabida, Edith...
- Sempre queria ver algum vir aqui e tentar matar-me! - exclamou Miss  aterhouse, muito decidida.
O irmo pensou que, de facto, seria muito pouco
provvel. Ele prprio, se quisesse escolher uma vtima, jamais escolheria a irm. Se algum se lembrasse 
de tal cometimento, acabaria provavelmente, por ser
posto xo com um atiador ou a tranca da porta, e entregue  Polcia sujo de sangue e humilhado.
- S queria dizer que... - murmurou, com um ar mais contrito do que nunca - ... enfim, que andam por a 
pessoas muito indesejveis.
- Pouco sabemos, ainda, acerca do que sucedeu. Por enquanto, s h boatos. Mistress Head contou 
alguns extraordinrios, esta manh...
- Acredito, acredito...
Mr. Waterhouse olhou para o relgio. No tinha vontade nenhuma de ouvir repetir os boatos contados

' A Pscoa dos Judeus comemora a passagem do mar Vermelho e, tambm - e da a aluso acima -, a 
passagem do anjo exterminador, que matou todos os primognitos dos Egpcios, na noite da partida dos 
Judeus, e poupou as casas dos Israelitas, assinaladas pelo sangue do cordeiro.
(N. de T.)

60

pela sua tagarela mulher-a-dias. A irm apressava-se sempre a reduzir s devidas propores esses 
disparatados voos da imaginao, mas, no entanto, gostava de
os ouvir...
- J h quem diga que a vtima era o tesoureiro ou um administrador do Instituto Aaronberg, e que veio 
interrogar Miss Pebmarsh, em virtude de haver
qualquer coisa errada nas contas.
- E Miss Pebmarsh assassinou-o? - perguntou Mr. Waterhouse, surpreendido. - Uma cega? Certamente...
- Passou-lhe um bocado de arame pelo pescoo e estrangulou-o. Ele estava desprevenido, compreendes?
Qualquer pessoa estaria, na presena de um cego...
Claro que eu no acredito - apressou-se a afirmar.Estou certa de que Miss Pebmarsh  uma senhora de 
excelente carcter. Posso no estar de acordo com ela a certos respeitos, mas isso no significa que a 
considere
criminosa. Considero apenas que tem opinies intolerantes e extravagantes. No fim de contas, h outras 
coisas alm da instruo. Todos esses estranhos liceus
que Hoje constroem, praticamente de vidro... At parecem estufas para pepinos ou tomates! Tenho a 
certeza de que so prejudiciais para as crianas, nos meses
de Vero. Mistress Head, por exemplo, disse-me que a sua Susan no gosta das novas salas de aula: as 
janelas so tantas que a tentao de olhar constantemente para a rua no lhe permite prestar ateno s 
lies.
- Meu Deus, vou chegar muito atrasado! - exclamou Mr. Waterhouse, a olhar de novo para o relgio. - At 
logo, minha querida. Tem cuidado. Talvez
seja melhor manter a corrente na porta...
Miss Waterhouse soltou um rosnido e fechou a porta. No entanto, antes de subir para o andar de cima, 
parou um instante, pensativa, e depois foi ao saco
de golfe buscar um niblickl, que colocou estrategicamente,

 **Taco de golfe com uma cabea grande, redonda e pesada, prprio para tirar bolas dos obstculos 
constitudos por depresses arenosas. (N. da T.)

61

junto da porta principal. Sorriu, satisfeita. Claro que James s dissera  tolices, mas no perdia nada em 
estar prevenida. Na sua opinio, a maneira como,
hoje em dia, davam alta aos doentes mentais e os incitavam a levar uma vida normal, era um perigo para as 
pessoas inocentes.
Miss Waterhouse estava no seu quarto quando Mrs. Head subiu a escada, numa grande agitao.
Mrs. Head era baixinha, rolia e muito semelhante a uma bola de borracha, e deliciava-se praticamente 
com tudo quanto sucedia.
- Dois cavalheiros desejam falar-lhe - anunciou, toda eufrica. - Bem, no so realmente cavalheiros... So 
polcias.
Estendeu um carto, que Miss Waterhouse leu.
- Detective-inspector Hardcastle... Mandou-os entrar para a sala?
- No. Levei-os para a casa de jantar. J tinha levantado a mesa do pequeno-almoo e pensei que seria um 
lugar mais adequado, atendendo a que no passam
de polcias.
Miss Waterhouse no compreendeu bem o raciocnio da empregada, mas limitou-se a responder-lhe:
- Deso j.
- Naturalmente querem interrog-la acerca de Miss Pebmarsh, perguntar-lhe se notou algo estranho no seu 
comportamento... Parece que, s vezes, estas
manias surgem de repente, sem ningum dar por isso. Mas h sempre qualquer coisa, uma maneira 
especial de falar... Dizem, tambm, que se percebe pelos
olhos... mas no caso de uma cega no deve ser assim.
Miss Waterhouse desceu a escada e entrou na sala de jantar com uma certa e agradvel curiosidade, 
disfarada pelo seu habitual ar de beligerncia.
- Detective-inspector Hardcastle?
- Bons dias, Miss Waterhouse.
Hardcastle levantara-se. Acompanhava-o um homem novo, alto e moreno, que Miss  aterhouse no

62

se deu ao trabalho de cumprimentar, embora o inspector lho apresentasse como o "sargento Lamb".
- Espero no ter vindo muito cedo e suponho que sabe de que se trata, pois deve ter ouvido contar o que 
sucedeu na casa ao lado, ontem  tarde.
- Um assassnio na casa do vizinho do lado no costuma passar despercebido - redarguiu Miss 
Waterhouse. - At tive de correr com um ou dois reprteres, que  me vieram perguntar se vira alguma coisa.
- Correu com eles?
- Naturalmente.
- Fez muito bem. Tentam infiltrar-se em toda a parte, mas eu estou certo de que a senhora  muito capaz 
de fazer frente a situaes dessas.
Miss Waterhouse dignou-se demonstar uma leve reaco de prazer ao cumprimento.
- Espero que no leve a mal se lhe fizermos o mesmo gnero de perguntas - prosseguiu o inspector.Se viu 
alguma coisa de susceptvel de nos interessar, creia que ficaremos muito gratos se nos informar. Suponho 
que estava aqui, em  sua casa, quando cometeram o crime?
- No sei quando foi cometido o crime.
- Calculamos que foi entre a uma e meia e as duas e meia da tarde.
- Nesse caso, estava, com certeza.
- E o seu irmo?
- No vem almoar a casa. Mas afinal, quem assassinaram? No esclarecem esse ponto, na breve notcia 
publicada no jornal desta manh.
- Ainda no sabemos quem era.
- Um desconhecido?
- Assim parece.
- No quer dizer que era, tambm, um desconhecido para Miss Pebmarsh?
- Miss Pebmarsh garantiu-nos que no esperava a visita do indivduo e que no fazia ideia nenhuma de 
quem se tratava.

63

- Ela no pode ter a certeza a esse respeito, em virtude de no ver.
- Descrevemos-lhe com a maior mincia.
- De que gnero de homem se tratava?
Hardcastle tirou uma fotografia de um sobrescrito e mostrou-lha.
- Aqui o tem. Faz alguma ideia de quem poder ser?
- No. No... Tenho a certeza de que nunca o vi. Meu Deus, parece um homem respeitvel!
- Tinha, de facto, um aspecto muito respeitvelconcordou o inspector. - Parecia  um advogado, ou um 
homem de negcios...
- Tem razo. A fotografia no impressiona nada, ele parece que est apenas a dormir.
Hardcastle no lhe explicou que das vrias fotografias tiradas ao cadver escolhera aquela precisamente 
por ser a menos perturbadora.
- A morte, s vezes, traduz-se em paz. No creio que este homem esperasse morrer quando morreu.
- Que diz Miss Pebmarsh acerca do assunto?
- No sabe que dizer.
- Extraordinrio!
- Pode-nos ajudar de alguma maneira, Miss Waterhouse? Tente recordar o dia de  ontem. Lembra-se de ter 
olhado pela janela, ou de ter ido ao jardim entre, digamos, o meio-dia e meia hora e as trs horas?
Miss Waterhouse pensou, uns momentos.
- Sim, estive no jardim... Deixe-me ver... deve ter sido antes da uma hora. Quando vim para dentro faltavam 
uns dez minutos para a uma, lavei as mos e
sentei-me a almoar.
- Viu Miss Pebmarsh entrar ou sair de casa?
- Creio que ela entrou... Ouvi a cancela ranger depois do meio-dia e meia hora.
- No falou com ela?
- Oh, no! Levantei apenas a cabea, ao ouvir a cancela ranger. Costuma regressar mais ou menos

64

quela hora, quando acaba as suas aulas. Ensina crianas deficientes, como provavelmente j sabe.
- Segundo declarou, Miss Pebmarsh voltou a sair, cerca da uma e meia. Pode confirm-lo?
- Bem, no posso dizer a hora certa, mas lembro-me de ela passar pela cancela.
- Perdo, Miss Waterhouse, disse "passar pela
cancela"...
- Com certeza. Estava na sala, que d para a rua, ao passo que a casa de jantar, onde estamos agora, d 
para o quintal das traseiras, como pode verificar. Levei o caf para a sala, depois de almoar, e sentei-me 
numa
cadeira, junto da janela, a beb-lo e a dar uma vista de
olhos pelo Times. Creio que foi ao virar uma pgina que reparei em Miss Pebmarsh, que ia a passar pela 
cancela da frente. H alguma coisa de extraordinrio nisso, inspector?
- No, no h nada de extraordinrio - respondeu Hardcastle, a sorrir. - Consta-me, no entanto, que Miss 
Pebmarsh saiu para fazer umas compras e ir
aos Correios, e estava convencido de que o caminho mais curto para as lojas e para os Correios era o 
oposto.
- Depende das lojas a que se v. Claro que h lojas mais perto desse lado e um posto dos Correios na 
Albany Road...
- Talvez Miss Pebmarsh costume passar pela sua cancela mais ou menos a essa hora?
- No sei, francamente, a que horas Miss Pebmarsh costuma passar nem em que direco vai, pois no 
tenho o hbito de espiar os meus vizinhos, inspector. Sou uma mulher atarefada e tenho muito com que me 
entreter. Certas pessoas que conheo passam o tempo todo a espreitar pela janela e a ver quem passa e
quem vai visitar este ou aquele. Considero isso um hbito de doentes ou de quem no tem mais que fazer 
do que bisbilhotar a vida dos vizinhos e mexericar.
Miss Waterhouse falou em tom to acerbo que o inspector teve a certeza de que ela se referia a algum em 
especial.

65

- Tem razo - declarou. - Tem toda a razo. Visto Miss Pebmarsh ter passado pela sua cancela, talvez 
tivesse ido telefonar, no? A cabina pblica fica
para esse lado...
- Sim, fica defronte do nmero quinze.
- A pergunta importante que tenho de lhe fazer, Miss Waterhouse,  esta: viu chegar o homem em questo, 
o homem misterioso, conforme os jornais matutinos lhe chamam?
Miss Waterhouse abanou a cabea, sem hesitar:
- No, no o vi chegar a ele nem a outro visitante.
- Que esteve a fazer entre a uma e meia e as trs horas?
- Passei cerca de meia hora a fazer as palavras cruzadas do Times, pelo menos at onde fui capaz... e 
depois fui para a cozinha lavar a loua do almoo. Deixe ver... Escrevi duas cartas, passei uns cheques 
para pagamento de umas contas e a seguir fui l acima escolher umas coisas que precisava de mandar 
para a  tinturaria. Creio que foi da janela do meu quarto que reparei ter-se passado  qualquer coisa na casa 
do lado. Ouvi gritar e, naturalmente, fui  janela. Estavam um homem novo e uma pequena  cancela. Ele 
parecia estar a abra-la.
O "sargento Lamb" mudou de posio, mas Miss Waterhouse no estava a olhar para ele e era evidente 
que no fazia a mnima ideia de que ele fora o "homem novo" em questo.
- S vi a nuca do homem, que parecia estar a dizer qualquer coisa  jovem. Por fim sentou-a junto do pilar 
da cancela, o que me pareceu muito estranho,
meteu pelo carreiro e entrou na casa ao lado.
- A senhora no dera por Miss Pebmarsh ter regressado a casa pouco antes?
- No. Creio que s espreitei pela janela quando ouvi gritar. No entanto, confesso que no liguei muita 
importncia. Os jovens esto sempre a fazer coisas to 

66

extraordinrias, a gritar, a empurrarem-se, a rir..., que
no me passou pela cabea que tivesse acontecido algo srio. S quando chegaram carros da Polcia 
compreendi que devia ter sucedido qualquer coisa fora do vulgar.
- Que fez, ento?
- Sa de casa, naturalmente. Parei nos degraus e depois dei a volta e fui ao quintal das traseiras. Estava 
intrigada, mas no vi nada de especial. Quando voltei, juntara-se uma pequena multido e uma pessoa 
disse-me que tinha havido um assassnio. Pareceu-me muito extraordinrio! - exclamou, em tom de grande 
desaprovao.
- No se lembra de mais nada?
- Infelizmente, no.
- Ultimamente algum lhe escreveu a oferecer um seguro, ou algum a visitou ou lhe sugeriu uma visita?
- No, no aconteceu nada desse gnero. Tanto James como eu estamos seguros pela Mutual Help 
Assurance Society. Claro que esto sempre a chegar circulares e anncios diversos, mas no me lembro 
de ter recebido nada desse gnero, ultimamente.
- Nem cartas assinadas com o nome de Curry?
- Curry? No, tenho a certeza de que no.
- O nome de Curry no lhe diz nada, em sentido nenhum?
- No. Deveria dizer?
- No, creio que no - respondeu Hardcastle, a sorrir. - Trata-se apenas do nome que o homem 
assassinado usava.
- Mas no era o seu verdadeiro nome?
- Temos razes para supor que no.
- Uma espcie de vigarista, no?
- No o poderemos afirmar enquanto no tivermos provas disso.
- Claro, claro. Precisam de ser cuidadosos, bem sei. No acontece o mesmo com certas pessoas daqui,

67

que dizem tudo quanto lhes vem  cabea. At me admira que no estejam sempre a ser acusadas de 
calnias.
- Difamao - corrigiu o "sargento Lamb", que falava pela primeira vez.
Miss Waterhouse olhou-o, surpreendida, como se s ento tivesse conscincia de que ele era uma 
entidade independente e no, apenas, um apndice necessrio do inspector Hardcastle.
- Lamento no o poder ajudar - disse a mulher ao inspector.
- Tambm eu. Uma pessoa com a sua inteligncia e o seu poder de observao seria uma testemunha 
muito til.
- Gostava de ter visto alguma coisa! - confessou Miss Waterhouse, e por momentos o tom da sua voz 
pareceu triste como o de uma rapariguinha.
- E o seu irmo, Mister James Waterhouse?
- James no sabe de nada - afirmou a interpelada, com desdm. - Nunca sabe coisa nenhuma. Alm disso, 
estava na firma Gainsford & Swettenhams, na
High Street. No, o James no o poderia ajudar. Como j disse, no vem a casa almoar.
- Onde costuma almoar?
- Geralmente come sanduches e bebe caf nas Trs Penas, uma casa muito asseada e respeitvel, 
especializada em almoos rpidos.
- Muito obrigado, Miss Waterhouse. No lhe roubaremos mais tempo.
O inspector levantou-se e dirigiu-se para o vestbulo, seguido por Miss  Waterhouse e pelo "sargento 
Lamb". Este pegou no taco de golfe, que estava ao p
da porta, e comentou, enquanto o sopesava:
- Belo taco, com muito peso na cabea. Vejo que est preparada para qualquer eventualidade...
Miss Waterhouse pareceu um bocadinho atrapalhada e declarou:

68

- No sei francamente, como foi a parar.
Arrancou-lho da mo e meteu-o no saco.
- Era uma precauo muito sensata - observou Hardcastle.
Miss Waterhouse abriu a porta e os dois homens saram.
- Bem, no conseguimos muito dela, apesar de voc lhe dar uma graxa danada - murmurou Colin Lamb, a 
suspirar. -  esse o seu mtodo invarivel?
- s vezes d bons resultados, com pessoas como
ela. Os duros reagem sempre  lisonja.
- Sim, ela ronronou como um gato a que dessem um pires de leite... Infelizmente, no revelou nada de 
interesse.
- No?
Colin olhou-o, atento, e perguntou:
- Em que est a pensar?
- Num pormenor muito pequeno e possivelmente sem importncia. Miss Pebmarsh saiu para ir aos Correios 
e s compras e virou para a esquerda, em vez de
virar para a direita... e o telefonema, segundo declarou Miss Martindale, foi feito cerca das duas menos dez.
- Continua a pensar que, apesar da sua negao, ela telefonou? Foi muito positiva...
- Pois foi, foi muito positiva - concordou o inspector, inexpressivamente.
- Mas, se foi ela que telefonou, porqu? 
- Oh, so tudo porqus! - resmungou Hardcastle, impaciente. - Porqu? Porqu toda esta histria?
Se Miss Pebmarsh fez o telefonema, para que precisava da pequena? Se foi outra pessoa que telefonou, 
para que quis envolver Miss Pebmarsh no assunto?
Ainda no sabemos nada. Se a Martindale conhecesse Miss Pebmarsh pessoalmente, saberia se fora a 
voz dela ou no ou, pelo menos, se era parecida... Enfim, no conseguimos muito no nmero dezoito. 
Vejamos se temos mais sorte no nmero vinte.

69

Alm do nmero 20, a morada tinha um nome: Diana Lodge. A cancela tinha arames no interior, para 
impedir a entrada de intrusos, e havia loureiros mal
aparados, que dificultavam igualmente a passagem.
- Se jamais houve uma casa que merecesse o nome de Loureiros, foi esta - observou Colin Lamb.Por que 
diabo se chamar Diana Lodge?
Olhou  sua volta, com interesse. Diana Lodge no primava pelo asseio nem tinha canteiros de flores. 
Imperavam os arbustos densos e mal tratados e um cheiro forte a amonaco... A casa parecia em muito 
mau
estado, precisava de reparaes, o que contrastava com
a porta da frente, recentemente pintada de um azul muito forte, que realava ainda mais o abandono a que 
tinham sido votados a habitao e o jardim. Em vez de campainha elctrica havia uma espcie de 
manpulo,
visivelmente destinado a ser puxado. O inspector puxou-o e ouviu-se um tilintar abafado e distante.
Passados momentos, ouviram sons no interior. Sons curiosos, alis. Uma espcie de lengalenga, meio 
cantada, meio falada.
- Que demnio... - comeou Hardcastle.
 medida que a pessoa se aproximava da porta, as palavras tornavam-se mais inteligveis.
- No querida, queridinha. Ali, meu amor. Cuidado com o rabinho, X-X-Mimi, Cleo... Clepatra... Ai os 
mauzes!
Fecharam-se portas e, finalmente, a da frente abriu-se. Diante dos dois homens apareceu uma senhora de 
vestido de veludo verde-musgo muito coado, com o cabelo branco, esfarripado, subido num penteado que 
estivera em moda uns trinta anos atrs.
Usava  roda do pescoo uma gola de pele cor de laranja.
- Mistress Hemming? - perguntou o inspector, duvidoso.

70

- Sim, sou Mistress Hemming... Devagarinho, Raio de Sol, devagarinho...
S ento o inspector compreendeu que a gola de pele era, na realidade... um gato. Mas no era o nico. 
Apareceram outros trs, no vestbulo, dois deles a
miar. No tardaram a ocupar o seu lugar  roda das
saias da dona, enquanto olhavam para os visitantes.
Ao mesmo tempo, um cheiro forte, a gatos, atormentou as narinas dos dois homens.
- Sou o detective-inspector Hardcastle...
- Suponho que me vem visitar por causa daquele homem antiptico da Liga Protectora dos Animais. Que 
vergonha! Escrevi uma carta a fazer queixa dele.
Dizer que os meus gatos viviam de maneira prejudicial  sua sade e felicidade! Eu vivo para os meus 
bichanos, inspector, eles so a minha nica alegria, o meu nico prazer na vida! Fao tudo por eles! A no, 
XX-Mimi!
Mas X-X-Mimi no quis saber da mo estendida da dona e saltou para a mesinha do vestbulo, a lavar o 
focinho e a observar os desconhecidos.
- Entrem - convidou Mrs. Hemming. - Oh, no, para a, no! Esquecera-me...
Abriu uma porta,  esquerda. A atmosfera ainda era mais penetrante...
- Entrem, meus lindos, entrem...
No aposento, espalhados por cadeiras e mesas, encontravam-se vrios pentes e  escovas, com plos de 
gato. Viam-se diversas almofadas desbotadas e sujas e,
pelo menos, mais seis bichanos.
- Vivo para os meus queridos - afirmou Mrs. Hemming. - Eles compreendem todas as minhas palavras.
O inspector Hardcastle entrou, corajosamente. Por pouca sorte, era uma daquelas pessoas alrgicas aos 
gatos e, como acontece em tais circunstncias, os bichanos dirigiram-se logo para ele. Um saltou-lhe para

71

os joelhos e outro roou-se-lhe afectuosamente pelas calas. Mas o inspector Hardcastle, que era um 
homem valente, cerrou os lbios e resignou-se.
- Desejava fazer-lhe, algumas perguntas acerca...
- Pergunte o que quiser - interrompeu-o a velhota. - No tenho nada que  esconder. Posso mostrar-lhes a 
comida dos gatos e as suas caminhas, cinco
no meu quarto e sete aqui... S lhes dou o peixe mais fresco que existe, cozinhado por mim prpria.
- O assunto no tem nada a ver com os gatosesclareceu Hardcastle, em voz mais  forte. - Vim por causa 
do infeliz acontecimento da casa ao lado. Provavelmente j ouviu falar...
- Da casa ao lado? Refere-se ao co de Mister Josaiah?
- No. Refiro-me ao nmero dezanove, onde ontem foi encontrado um homem  assassinado.
- Sim? - perguntou Mrs. Hemming, mas apenas por delicadeza; os seus olhos no se afastavam da gataria.
- Permite que lhe pergunte se ontem  tarde esteve em casa? Entre a uma e meia e  as trs e meia?
- Estive, sim. Geralmente fao as compras de manh cedo, para ter tempo de preparar o almoo dos meus 
amorzinhos e de os escovar e arranjar.
- No notou nenhuma actividade aqui ao lado? Carros da Polcia, ambulncia?...
- Bem, no estive  janela da frente. Estive no quintal das traseiras, porque a Arabela desaparecera. E uma 
gatinha nova e trepara para uma das rvores, e
eu receava que no fosse capaz de descer. Experimentei tent-la com um prato de peixe, mas ela estava 
assustada, coitadinha! Acabei por desistir e voltar para
dentro. Imaginem que, mal entrei, desceu da rvore e entrou atrs de mim! At custa a acreditar! - Olhou de 
um homem para o outro, como se avaliasse a sua
credulidade.

72

- No me custa nada a acreditar - afirmou Colin, incapaz de continuar calado  mais tempo.
- Como? - perguntou Mrs. Hemming, a fit-lo um pouco assustada.
- Gosto muito de gatos e tenho estudado a sua natureza. O que a senhora disse ilustra perfeitamente o 
padro do comportamento dos gatos e as regras que
para si prprios estabeleceram. Pelo mesmo motivo, os seus gatos esto todos reunidos  volta do meu 
amigo, que no gosta, francamente, de bichanos, e no me ligam importncia nenhuma a mim, nem ligaro 
por muito que os afague.
Se Mrs. Hemming pensou que Colin no estava a falar como um sargento da Polcia, o seu rosto no o 
denunciou. Limitou-se a murmurar, vagamente:
- Eles sabem sempre, os amorzinhos, no sabem?
Um belo gato persa cinzento apoiou duas patas nos joelhos do inspector Hardcastle, fitou-o extasiado de 
prazer e cravou as garras, como se Hardcastle fosse uma almofada de espetar alfmetes. Incapaz de 
suportar aquele tormento durante mais tempo, o inspector levantou-se.
- Posso ver o seu quintal das traseiras, minha senhora? 
Colin sorriu.
- Oh, com certeza! Tudo quanto quiser.
Mrs. Hemming levantou-se e o gato cor de laranja saltou-lhe do pescoo e ela substituiu-o, distraidamente, 
pelo persa cinzento. Saiu da sala, seguida pelos
dois homens.
- J nos vramos - disse Colin ao gato alaranjado. - E tu s uma beleza, no s? - perguntou a outro persa 
cinzento, que estava em cima de uma mesa,
ao lado de um candeeiro chins, a dar ao rabo. Colin
fez-lhe ccegas atrs das orelhas e ele condescendeu em ronronar.

73

- Faam o favor d e fechar a porta, quando sarem - pediu Mrs. Hemming, do  vestbulo. - Hoje est vento e 
eu no quero que os meus lindos se constipem.  Alm disso, h aqueles horrveis rapazes... No  seguro 
deixar os queridinhos andar  solta no quintal.
Encaminhou-se para o fundo do vestbulo e abriu uma porta lateral.
- A que rapazes horrveis se referiu? - perguntou Hardcastle.
- Aos dois filhos de Mistress Ramsay. Moram na parte sul do crescente e as traseiras dos nossos quintais 
so mais ou menos contguas. So dois jovens rufies! Tm uma fisga... ou tinham. Insisti para que lha 
confiscassem, mas tenho as minhas dvidas... Fazem emboscadas, escondem-se, no Vero atiram 
maas...
- Vergonhoso - sentenciou Colin.
O quintal era como o jardim, mas pior. Tinha alguma relva que crescia em inteira  liberdade, arbustos 
virgens de tesoura e amontoados, quase pegados uns
aos outros, e mais loureiros. Na opinio de Colin, estavam ali a perder tempo. Atravs daquela slida 
barreira de loureiros, rvores e arbustos no se podia  ver nada do quintal de Miss Pebmarsh. Diana Lodge 
era
uma casa absolutamente isolada. Do ponto de vista dos seus habitantes, era como se no tivesse vizinhos.
- Falou do nmero dezanove, no foi? - perguntou Mrs. Hemming, parada,  hesitante, no meio do quintal. - 
Julgava que s l vivia uma pessoa, uma
mulher cega...
- O homem assassinado no morava l em casaexplicou o inspector.
- Ah, compreendo! - exclamou a velhota, distraidamente. - Foi l para ser  assassinado. Que estranho!
"Eis uma excelentssima definio", pensou Colin para consigo.

74

9

Meteram-se no automvel, percorreram Wilbraham Crescent, viraram  direita, subiram a Albany Road, 
viraram de novo  direita e encontraram-se na
continuao de Wilbraham Crescent.
- , na realidade, simples - comentou Hardcastle.
- Depois de se saber - admitiu Colin.
- O sessenta e um d para as traseiras da casa de Mistress Hemming, mas como uma esquina toca no 
dezanove, podemos tentar. Voc ter, assim, oportunidade de ver o seu Mister Bland. A propsito, ele no 
tem nenhuma empregada estrangeira.
- L se vai uma bonita teoria.
O carro parou e os dois homens apearam-se.
- Bonito jardim, sim senhor! - elogiou Colin.
Tratava-se, de facto, de um modelo de perfeio suburbana, embora em pequena escala. Havia canteiros de 
gernios, com bordaduras de loblias, grandes
begnias carnudas e uma abundncia de ornamentos de jardim: rs, cogumelos, gnomos cmicos e elfos.
- Estou certo de que Mister Bland deve ser um homem muito simptico e muito digno - comentou Colin, a 
fingir um calafrio. - No teria estas horrveis
ideias se o no fosse. - E acrescentou, quando Hardcastle tocou  campainha: - Espera que ele esteja em 
casa a esta hora?
- Telefonei-lhe a perguntar se podamos vir.
Nesse instante, chegou um carro pequeno e elegante, que entrou na garagem, a  qual era, sem dvida, 
uma adio recente  moradia. Mr. Josaiah Bland
apeou-se, bateu com a porta e foi ao encontro dos dois visitantes. Era um homem de estatura mediana, 
cabea calva e olhos azuis muito pequenos. Tinha um ar
muito cordial.
- Inspector Hardcastle? Faam favor de entrar.
Conduziu-os  sala, que evidenciava vrias provas 

75

de prosperidade. Candeeiros caros e muito cheios de adornos; uma escrivaninha Imprio; um jogo de 
ornamentos coruscantemente dourados, na prateleira da chamin; um armrio marchetado, e uma floreira 
ornamental, cheia de flores, na janela. As poltronas eram modernas e ricamente estofadas.
- Sentem-se - convidou, cordial, Mr. Bland.Um cigarro? Ou no podem fumar quando esto de servio?
- No, obrigado - redarguiu Hardcastle.
- Suponho que tambm no bebem? Bem, talvez seja melhor para todos. De que se trata? Daquela histria 
do nmero dezanove, creio? As esquinas dos nossos quintais tocam-se, mas no vemos muito do quintal 
desse nmero, a no ser das janelas do andar de cima. Extraordinrio acontecimento, pelo menos a julgar 
pelo que li no jornal da manh. Fiquei encantado quando me telefonou, pois assim teria ensejo de falar com 
algum que estava dentro do assunto. No faz
ideia dos boatos que correm por a! A minha mulher ficou muito nervosa, ao saber que andava um 
assassino  solta.  um perigo darem alta a todos esses chalados
dos manicmios, como fazem hoje em dia. Mandam-nos para casa condicionalmente, ou l como lhe 
chamam, depois os tipos fazem qualquer asneira e apanham-nos
outra vez... Mas voltando aos boatos. Ficariam surpreendidos se ouvissem o que disseram a nossa mulher-
a-dias, o leiteiro, o rapaz dos jornais... Uns dizem
que o estrangularam com um arame, outros que foi apunhalado, outros ainda que lhe deram uma pancada 
na cabea... O que  certo, segundo parece,  que a
vtima foi um homem, no foi? Quero dizer, no foi a velhota que liquidaram, pois no? Os jornais referem-se 
a um homem desconhecido.
Mr. Bland calou-se, finalmente.
Hardcastle sorriu e disse, em tom um pouco desdenhoso:
- Bem, quanto a ser um desconhecido, ele tinha na algibeira um carto com um endereo.

76

- Portanto, esse aspecto est resolvido - sentenciou Bland. - Palavra que no  sei como as pessoas 
conseguem inventar tantas coisas!
- J que estamos a falar da vtima, talvez no se importe de ver isto - disse Hardcastle, e mostrou 
novamente a fotografia tirada pela Polcia.
-  ele, hem? Parece um tipo absolutamente vulgar, no parece? Quero dizer, vulgar como o senhor e eu, 
por exemplo. Suponho que no devo perguntar se
havia algum motivo especial para o assassinarem?
- Ainda  cedo para falar nisso. O que me interessa saber, Mister Bland,  se alguma vez viu esse homem.
- No, tenho a certeza que no vi. Sou muito previsto, como se costuma dizer. Quando vejo uma cara, no 
a esqueo.
- Ele no lhe bateu  porta com qualquer inteno? Angariar seguros, vender aspiradores, mquinas de 
lavar, qualquer coisa desse gnero?
- No, estou certo que no.
- Talvez fosse melhor perguntarmos  sua mulher. No fim de contas, se ele  batesse  porta, seria a sua 
mulher que o atenderia.
- Sim, isso  verdade. No entanto, no sei... Valerie no est bem de sade e eu no gostaria de a 
perturbar. Enfim, sempre  uma fotografia tirada com ele morto, no ?
- , mas no tem nada de impressionante.
- No tem, realmente, trata-se de um bom trabalho. O tipo parece que est a  dormir.
- Estavas a falar de mim, Josaiah?
Uma porta de comunicao abriu-se e entrou na sala uma mulher de meia-idade. Hardcastle teve a certeza 
de que ela estivera a escutar  porta com toda a
ateno.
- Julguei que estivesses a descansar, minha querida. Minha mulher, o detective- inspector Hardcastle.
- Aquele horrvel assassnio - murmurou Mrs. Bland. - Arrepio-me toda, s de pensar...

77

Sentou-se no sof e soltou um suspirozinho.
- Levanta os ps, querida, para descansares melhor.
Mrs. Bland obedeceu. Era uma mulher de cabelo alourado e voz fraca e lamurienta. Parecia anmica e 
tinha todo o ar de uma doente crnica, que aceita a
sua invalidez com certa dose de prazer. O inspector teve a impresso de que ela lhe lembrava algum 
conhecido, mas no foi capaz de saber quem, por muito que
pensasse. "
A voz lamurienta prosseguiu:
- Como no sou muito saudvel, o meu marido tenta, naturalmente, evitar-me abalos e preocupaes.  Sou 
muito sensvel... Estavam a falar de uma fotografia do... do assassinado. Meu Deus, que horror! No sei se 
terei coragem para a ver...
"Mas ests mortinha por a ver", pensou Hardcastle, que redarguiu, com certa malcia:
- Nesse caso, talvez seja melhor no lhe pedir que a veja, Mistress Bland. Pensei apenas que nos poderia 
ajudar, se acaso o homem tivesse batido alguma vez  sua porta.
- Devo cumprir o meu dever, no devo? - perguntou Mrs. Bland, de mo estendida e com um leve sorriso 
corajoso.
- No compreendes que te transtornar, Val!
- No sejas pateta, Josaiah. Claro que devo ver a fotografia.
Observou-a com muito interesse e, na opinio do inspector, um bocadinho decepcionada.
- Parece... quero dizer, nem parece morto! No tem nada o ar de ter sido assassinado! Foi... no pode ter 
sido estrangulado, pois no?
- Foi apunhalado - esclareceu o inspector.
Mrs. Bland fechou os olhos e estremeceu.
- Meu Deus, que horror!
- Acha que o ter visto alguma vez, Mistress Bland?

78

- No - respondeu a interpelada, com evidente relutncia. - No, no. Era desses homens que andam de 
porta em porta, a vender coisas?
- Parece que era agente de seguros - respondeu Hardcastle, cauteloso.
- Compreendo. Tenho a certeza de que no nos bateu  porta nenhuma pessoa dessas. No te lembras de 
eu mencionar nada do gnero, pois no, Josaiah?
- No, no me lembro.
- Era algum parente ou conhecido de Miss Pebmarsh?
- No, Mistress Bland. Era um perfeito desconhecido para ela.
- Muito estranho.
- A senhora conhece Miss Pebmarsh?
- Oh, sim! Quero dizer, conhecemo-la como vizinha. s vezes pede conselhos ao meu marido, acerca do 
jardim.
-  um jardineiro muito entusiasta, suponho?perguntou o inspector.
- Nem por isso, nem por isso - respondeu Bland, modestamente. - Falta-me tempo, compreende? Claro que 
percebo do assunto, mas no tenho tempo, como disse. Vem a um tipo excelente, duas vezes por 
semana, para manter tudo limpo e em ordem.
Creio que nenhum jardim das imediaes leva a palma ao nosso, mas no sou um desses jardineiros 
fanticos como o meu vizinho.
- Mister Ramsay? - perguntou Hardcastle, um pouco surpreendido.
- No, no. O do sessenta e trs, Mister McNaughton. Esse s vive para o jardim. Passa l o dia inteiro e 
tem a mania do adubo composto. Por sinal  um grande
maador, quando comea a falar de adubo... Mas no
creio que tenha sido para falar destas coisas que o inspector nos visitou.
- No, de facto. Pensei apenas se algum c de casa, o senhor ou a sua esposa, por exemplo, teria estado 

79

no jardim, ontem. No fim de contas, como o senhor disse, as traseiras do seu jardim tocam na esquina do 
de Miss Pebmarsh, e talvez tivessem visto ou
ouvido algo interessante...
- Foi ao meio-dia, no foi? Quero dizer, quando se deu o crime?
- O espao de tempo importante vai da uma s trs horas da tarde.
- Nesse caso, no podamos ter visto nada. Estava em casa, com minha mulher, mas estvamos a 
almoar, e a nossa sala de jantar d para o lado da rua. No
podamos ver nada que se passasse no jardim.
- A que horas almoam?
- Cerca da uma hora. s vezes  uma e meia.
- E depois no foram ao jardim?
Bland abanou a cabea.
- A minha mulher vai sempre descansar l para cima, depois de almoar, e eu, se no tenho muito que 
fazer, tambm passo pelas brasas, ali naquela cadeira.
Calculo que sa de casa por volta... das duas e quarenta e cinco, talvez. Mas, infelizmente, no fui ao 
jardim.
- Pacincia - murmurou Hardcastle, a suspirar. - Temos de perguntar a toda a gente.
- Evidentemente. Lamento no ter podido ajudar mais.
- Tem uma bonita casa - elogiou o inspector.No se poupou a despesas, se me permite que o diga.
Bland riu-se, jovial.
- Oh, gostamos de coisas bonitas! Minha mulher tem muito gosto e, o ano passado, tivemos uma sorte 
inesperada: ela herdou algum dinheiro de um tio
que no via h vinte e cinco anos! Foi uma grande surpresa, claro, e garanto-lhe que fez muito jeito. 
Podemos viver melhor e estou a pensar em irmos num
desses cruzeiros, l mais para o fim do ano. Suponho que so muito instrutivos. Grcia e tudo o mais... 
Vo muitos professores, que fazem conferncias. No escondo

80

que sou um autodidacta, que devo a mim prprio o que sou e no tenho tido muito tempo para me instruir, 
mas essas coisas interessam-me. O tipo que
descobriu as runas de Tria era merceeiro, segundo me parece. Muito romntico. Confesso que gosto 
muito de ir ao estrangeiro, embora por enquanto s me tenha  sido possvel passar um ou outro fim-de-
semana na alegre Paris. Ando a pensar em vender tudo aqui e ir viver em Espanha, ou Portugal, ou at nas 
ndias
Ocidentais, como tantos outros. Os impostos so menores e tudo o mais. Mas a ideia no agrada  minha 
mulher.
- Gosto de viajar, mas no desejaria viver fora da Inglaterra - declarou Mrs. Bland. - Temos c todos os 
nossos amigos... a minha irm vive aqui e toda a
gente nos conhece. Se fssemos para o estrangeiro, seramos autnticos desconhecidos. Alm disso, 
temos um excelente mdico, que compreende o meu estado de sade. No gostaria de ter um mdico 
estrangeiro,
no teria confiana nele...
- Veremos - disse Mr. Bland, alegremente.Faremos o nosso cruzeiro... e talvez te apaixones por uma ilha 
grega.
Mrs. Bland fez uma cara de quem achava a possibilidade muito remota.
- Suponho que haver a bordo um mdico ingls decente? - perguntou, duvidosa.
- Oh, com certeza! - garantiu-lhe o marido.
Acompanhou Hardcastle e Colin  porta e repetiu lamentar no lhes poder ser mais til.
- Que pensa dele? - perguntou o inspector ao amigo, quando se encontraram ss.
- No o encarregaria de construir uma casa para mim... Mas no  um pequeno construtor civil aldrabo 
que procuro; o que me interessa  um homem dedicado a uma causa. Quanto ao seu assassino, tambm 
no se ajusta ao tipo. Se Bland desse arsnico  mulher ou a empurrasse para o Egeu a fim de herdar o 
seu dinheiro 

81

e casar com uma loura espampanante, seria outra ordem de ideias...
- Trataremos disso quando acontecer, temos de investigar este assassnio.

No nmero 62 de Wilbraham Crescent, Mrs. Ramsay dizia para consigo,  encorajadoramente: "S mais 
dois dias... S mais dois dias..."
Afastou uma madeixa de cabelo hmido da testa.
No mesmo instante, soou na cozinha um grande estrondo. Mrs. Ramsay sentiu-se muito pouco inclinada a 
ir ver o que se passava. Se ao menos pudesse fmgir
que no houvera estrondo nenhum... Ora, eram s mais dois dias! Atravessou o vestbulo, abriu a porta da 
cozinha e perguntou, em tom muito menos agressivo do que teria usado trs semanas antes:
- Que fizeram vocs agora?
- Desculpe, me - redarguiu Bill. - Estvamos a jogar bowling com estas latas e, no sei como, chocaram 
com o fundo do armrio da loua.
- Ns no atirmos de propsito - afirmou Ted, o mais novo.
- Bem, apanhem essas coisas, arrumem-nas no armrio, varram os cacos do que se partiu e deitem-nos na 
lata do lixo.
- Oh, me, agora no!
- Agora sim.
- Ento o Ted que trate disso.
- Pois, tenho de ser sempre eu! No apanharei nada se no apanhares tambm.
- Aposto que apanhas.
- Aposto que no apanho.
- Obrigo-te.
- Ai!
Os dois rapazes desataram  pancada, furiosamente, Ted chocou com a mesa da cozinha e uma taa de 
ovos estremeceu, perigosamente...
- Saiam da cozinha! - Mrs. Ramsay empurrou
os dois rapazes pela porta fora, fechou-a e comeou a
apanhar as latas e a varrer os cacos.
"Daqui a dois dias estaro de novo na escola!", pensou. "Que maravilhoso, que celestial pensamento para 
uma me!"
Recordou vagamente um comentrio cnico de uma jornalista qualquer: Para uma mulher, s h seis dias 
felizes no ano: os primeiros e os ltimos dias das frias.
"Nunca se disse nada to certo", pensou Mrs. Ramsay, enquanto varria os cacos de uma parte do seu 
melhor servio de jantar. Com que prazer, com que alegria, aguardara a vinda dos seus filhos, havia apenas 
cinco semanas! E agora? "Amanh", repetiu mentalmente, "amanh o Bill e o Ted voltaro para a escola.
At me custa a acreditar! Mal posso esperar!"
Como se sentira feliz quando os fora esperar  estao, havia cinco semanas! Que alegria lhe causara o 
modo tempestuoso e terno como eles tinham corrido
para ela, o alvoroo com que tinham percorrido a casa toda e o jardim! Um bolo especial, para o ch... E 
agora... Que desejava ela agora? Um dia de paz
completa! No ter de preparar refeies colossais, de andar sempre a arrumar o que eles desarrumavam...
Claro que gostava dos seus filhos. Eles eram excelentes rapazes, no lhe restavam dvidas nenhumas a 
esse respeito, e causavam-lhe orgulho. Mas tambm eram extenuantes. O seu apetite, a sua vitalidade, o 
barulho
que faziam...
Uma grande gritaria f-la virar a cabea, assustada.
No havia novidade, tinham ido apenas para o jardim.
Assim era melhor, no jardim tinham muito mais espao. Provavelmente, no entanto, aborreceriam a 
vizinhana. Oxal deixassem os gatos de Mrs. Hemming
em paz! No pelos gatos em si, a verdade acima de tudo, mas porque a cerca de arame que protegia o 
quintal 

83

de Mrs. Hemming lhes rasgaria os cales. Lanou um olhar rpido  farmcia porttil, que estava  mo.
Claro que no a preocupavam muito os acidentes naturais resultantes das brincadeiras de rapazes 
vigorosos... Na realidade, a primeira coisa que costumava dizer era: "No te disse centenas de vezes que 
no viesses a sangrar para a sala? Quando acontecer uma coisa destas, vai direito  cozinha, pois o 
sangue limpa-se bem do linleo."
Um grande grito, vindo do exterior, pareceu morrer a meio. Seguiu-se um silncio to profundo que Mrs. 
Ramsay sentiu uma ferroada de medo no corao.
Aquele silncio no era natural... Parou, hesitante, com a p cheia de cacos na mo. A porta da cozinha 
abriu-se e Bill estacou  entrada, com uma expresso extasiada, muito rara no seu rosto vivo de saudvel 
rapaz de onze
anos.
- Me, est aqui um detective-inspector e mais outro homem.
- Que deseja ele, querido? - perguntou Mrs. Ramsay, aliviada.
- Perguntou por si, mas creio que deve ser por causa do assassnio. Daquilo que se passou ontem em casa 
de Miss Pebmarsh, lembra-se?
- No compreendo por que motivo precisar de falar comigo...
A vida s era feita de complicaes, umas atrs das outras. Como havia de preparar as batatas para o 
guisado se um detective-inspector se lembrava de a visitar a hora to imprpria?
- Bem, parece-me melhor ir ver o que se passa - resignou-se, a suspirar.
Deitou os cacos na lata do lixo, lavou as mos, endireitou maquinalmente o cabelo e seguiu Bill, que dizia, 
impaciente:
- Despache-se, me!
Mrs. Ramsay entrou na sala, seguida de perto por Bill, e encontrou l dois homens, de p. Ted, o mais 
novo dos filhos, observava-os de olhos muito abertos.

84

- Mistress Ramsay?
- Bons dias.
- Espero que os seus homenzinhos lhe tenham dito que sou o detective-inspector  Hardcastle.
- Vem a uma hora muito m, muito m - protestou Mrs. Ramsay. - Tenho tanto que fazer esta manh! 
Demorar muito tempo?
- Quase nenhum - tranquilizou-a o inspector.Podemo-nos sentar?
- Claro, faam favor.
Mrs. Ramsay sentou-se numa cadeira de espaldar direito e olhou-os cheia de impacincia. Desconfiava que 
no ia levar to pouco tempo como isso...
- Vocs no precisam de ficar - disse Hardcastle, a sorrir.
- No nos vamos embora - afirmou Bill.
- No nos vamos embora - repetiu Ted.
- Queremos ouvir tudo.
- Claro, tudo.
- Havia muito sangue? - quis saber Bill.
- Era um ladro? - perguntou Ted.
- Calem-se, meninos - ordenou Mrs. Ramsay.No ouviram Mister... Mister Hardcastle dizer que no os 
queria aqui?
- No samos - afirmou Bill. - Queremos ouvir tudo.
Hardcastle foi abrir a porta, olhou para os rapazes e disse:
- Saiam.
Foi uma palavra apenas, dita calmamente, mas com autoridade. Os midos levantaram-se, sem tugir nem 
mugir, e saram a arrastar os ps.
"Que maravilha!", pensou Mrs. Ramsay, encantada. "Porque no consigo eu ser assim?", Era a me deles, 
claro... Sabia, pelo que ouvia dizer, que as crianas, quando saam, se portavam de modo muito diferente 
do adoptado em casa. As mes 
que tinham sempre de suportar o pior. Mas talvez fosse 

85

prefervel assim. Seria pior, muito pior, se, em casa, fossem sossegados e corteses e, fora de casa, se 
portassem como verdadeiros rufies e causassem m impresso. Lembrou-se do que pretendiam dela 
quando o inspector voltou a sentar-se.
- Se veio por causa do que se passou no nmero dezanove, creio que no lhe posso dizer nada, inspector - 
declarou nervosamente. - No sei nada, nem
sequer conheo as pessoas que l moram.
- Mora l apenas Miss Pebmarsh, uma senhora cega que trabalha no Instituto Aaronberg.
- Ah! No conheo praticamente ningum do outro lado do crescente.
- Esteve em casa, ontem, entre o meio-dia e meia e as trs horas?
- Estive, sim. Tinha de adiantar o jantar e tudo o mais... No entanto, sa antes das trs horas. Levei os 
pequenos ao cinema.
O inspector tirou a fotografia da algibeira e estendeu-lha.
- Agradecia que me dissesse se alguma vez viu este homem.
Mrs. Ramsay observou a fotografia com um bocadinho mais de interesse.
- Creio que no. No entanto, no garanto que me lembrasse, se o tivesse visto.
- Ele nunca lhe bateu  porta, a tentar angariar seguros ou vender qualquer coisa?
Mrs. Ramsay abanou a cabea, com maior segurana.
- No, disso tenho a certeza.
- Supomos que o seu nome  Curry, Mister R. Curry.
O inspector olhou-a interrogadoramente, mas Mrs. Ramsay voltou a abanar a cabea.
- Sinto muito, mas praticamente no tenho tempo para reparar em nada, durante as frias.
-  sempre um perodo muito atarefado, no ?

86

Tem ali dois mocetes, cheios de vitalidade... s vezes, at, de excessiva vitalidade, suponho?
Mrs. Ramsay sorriu pela primeira vez.
- Sim, s vezes tornam-se um bocadinho cansativos... Mas so bons rapazes.
- Evidentemente. Devem ser muito inteligentes... Se no se importar, conversarei um bocadinho com eles, 
antes de partir. As crianas reparam em coisas
que passam despercebidas s outras pessoas.
- No vejo como possam ter reparado nalguma coisa. As casas no ficam ao lado uma da outra...
- Mas as traseiras dos jardins do uma para a outra.
-  verdade, embora haja muito espao a separ-las.
- Conhece Mistress Hemming, do nmero vinte?
- Bem, de certo modo, conheo. Por causa dos gatos e de outras pequenas coisas.
- Gosta de gatos?
- Oh, no, no se trata disso! Geralmente h queixas...
- Compreendo, queixas... Acerca de qu?
Mrs. Ramsay corou.
- Quando as pessoas tm gatos naquela quantidade catorze, nem menos!, perdem por completo a cabea 
acerca deles.  tudo uma grande tolice. Gosto de
gatos e ns prprios at tivemos um gato, um tigre que era excelente caador de  ratos. Mas a maneira 
como aquela mulher procede, meu Deus! Cozinha peixe
especial, no deixa os pobres bichanos sair para levarem a sua vida... Claro que os animais esto sempre 
a tentar fugir... eu faria o mesmo, se fosse um dos gatos dela! Os meus filhos so bons rapazes, incapazes 
de
atormentar um gato seja em que sentido for... Os gatos sabem muito bem olhar por eles, so animais 
inteligentes... desde que os tratem como deve ser,  evidentemente.
- Tem toda a razo. Deve ter muito trabalho para 

87

manter os seus filhos bem alimentados e distrados, durante as frias. Quando voltam eles para a escola?
- Depois de amanh.
- Desejo que possa descansar, ento.
- Tenciono preguiar o mais que puder!
O outro homem, que tomara notas, em silncio, quase a assustou, ao dizer inesperadamente:
- Devia arranjar uma daquelas raparigas estrangeiras. Creio que lhes chamam aup air... Do uma ajuda, em 
troca de lhes ensinarem ingls.
- Talvez ainda experimente qualquer coisa desse gnero... embora tenha a impresso de que deve ser difcil 
aturar pessoas estrangeiras. O meu marido ri-se de mim, mas  natural. No tenho viajado tanto pelo 
estrangeiro como ele.
- Ele agora est ausente, no est? - perguntou Hardcastle.
- Est. Teve de ir  Sucia, no princpio de Agosto.  engenheiro de construes. Foi uma pena ter de partir 
logo no princpio das frias, pois tem muita pacincia com os pequenos. Gosta mais de brincar com 
comboios elctricos do que eles! s vezes, as linhas e as estaes enchem o vestbulo e chegam a entrar 
pelas outras casas! - Abanou a cabea e acrescentou, indulgente: - Os homens so to crianas!
- Quando espera que ele volte, Mistress Ramsay?
- Nunca sei - respondeu, a suspirar. - Assim ainda  mais difcil. - Colin reparou na tremura da sua voz e 
olhou-a com ateno.
- No lhe roubamos mais tempo, Mistress Ramsay - disse Hardcastle, ao mesmo tempo que se levantava. - 
Talvez os seus pequenos no se importem de nos mostrar o jardim...
Bill e Ted, que esperavam no vestbulo, no deixaram escapar a oportunidade.
- No  um jardim muito grande... - disse Bill, como quem se desculpa.

88

Notava-se que tinham feito alguns esforos para manter o jardim de Wilbraham Crescent, 62, num estado 
razovel. A um dos lados havia uma bordadura
de dlias e margaridas e, a seguir, um pequeno relvado, a precisar de tesoura. Os caminhos precisavam de 
ser mondados e viam-se avies, astronaves e outros
testemunhos da cincia moderna espalhados por toda a parte e num estado um pouco lamentvel. Ao 
fundo do jardim havia uma macieira, carregada de tentadoras
mas vermelhas, e ao lado uma pereira. 
- Foi ali - disse Ted, a apontar para o espao entre a macieira e a pereira, atravs do qual se viam 
perfeitamente as traseiras da casa de Miss Pebmarsh.Aquele  o nmero dezanove, onde cometeram o 
assassnio.
- Vem bem a casa, hem? - perguntou o inspector. - Suponho que ainda a devem ver melhor das janelas do 
primeiro andar.
- Pois vemos - concordou Bill. - Se ontem l tivssemos estado, talvez vssemos alguma coisa, mas no 
estivemos.
- Fomos ao cinema - explicou Ted.
- Encontraram impresses digitais? - perguntou Bill.
- Encontrmos, mas no ajudaram muito. Ontem estiveram no jardim?
- Sim, de vez em quando... Olhe, estivemos toda a manh. Mas no ouvimos nem vimos nada.
- Se c tivssemos estado de tarde - acrescentou Ted, pesaroso -, talvez ouvssemos gritos...
- Conhecem, de vista, Miss Pebmarsh, a senhora que l mora?
Os rapazes entreolharam-se e acenaram afirmativamente.
-  cega, mas anda muito bem pelo jardimdisse Ted. - No precisa de andar com uma bengala nem nada 
dessas coisas. Uma vez, devolveu-nos uma
bola que caiu l. Foi muito simptica.

89

- Ontem no a viram?
Abanaram os dois a cabea e Bill explicou:
- Nunca a vimos de manh, porque sai todos os dias. Geralmente vem para o jardim depois do ch.
Colin observava uma mangueira que estava ligada a uma torneira, dentro de casa, e ia ter a um canto, perto 
da pereira.
- Nunca me constou que as pereiras necessitassem de ser regadas - comentou.
- Hum... - murmurou Bill, um bocadinho em baraado.
- Por outro lado - prosseguiu Colin -, se trepassem a esta rvore... - olhou para os rapazes e sorriu, de 
sbito - ... poderiam ver um belo esguicho de
gua a banhar um gato, no poderiam?
Os dois midos comearam a raspar o saibro, com os ps, e olharam para todos os lados menos para 
Colin.
-  o que vocs fazem, no ? - perguntou.
- Bem, no os aleija... - murmurou Bill, e acrescentou, com um ar muito virtuoso: - No  como uma fisga.
- Creio que, em certa altura, se serviram de uma fisga...
- Mal e porcamente, pois nunca conseguamos acertar em nada - desabafou Ted.
- Seja como for, divertem-se com a mangueira e, por isso, Mistress Hemming queixa-se.
- Ela est sempre a queixar-se - resmungou Bill.
- Alguma vez transpuseram a vedao?
- Nunca passmos aqui pelo arame - apressou -se a responder Ted, desprevenido.
- Mas s vezes entram no jardim dela, no entram? Como o conseguem?
- Bem, podemos passar pela cerca que d para o jardim de Miss Pebmarsh... e depois, mais abaixo,  
direita, entrar no jardim de Mistress Hemming. O arame tem um buraco.

90

- No te sabes calar, idiota? - perguntou Bill.
- Desconfio que tm andado a procurar pistas, desde que souberam do assassnio... - insinuou Hardcastle.
Os rapazes entreolharam-se.
- Aposto que, quando regressaram do cinema e souberam o que acontecera, passaram pela cerca para o 
jardim do nmero dezanove e se divertiram  grande, a procurar...
- Bem... - Bill calou-se, cauteloso.
- No me admiraria se tivessem encontrado alguma coisa que nos escapou a ns - acrescentou o 
inspector, muito srio. - Se encontraram alguma coisa,
ficaria muito agradecido se ma mostrassem.
Bill decidiu-se:
- Vai busc-las.
Ted partiu, a correr.
- No temos nada de especial... - confessou Bill. - S... fimgimos.
Olhou ansiosamente para Hardcastle, que declarou:
- Compreendo muito bem. A maior parte do trabalho policial tambm  assim. Temos muitas decepes.
Bill pareceu aliviado.
Ted voltou, tambm a correr, e entregou um leno sujo e atado, cujo contedo tilintava. Hardcastle desatou-
o, com um mido de cada lado, e estudou os achados...
Encontrou a asa de uma chvena, um fragmento de porcelana com um desenho de salgueiros, um sacho 
partido, um garfo ferrugento, uma moeda, uma mola
de roupa, um bocado de vidro colorido e metade de uma tesoura.
- Interessante coleco - comentou, gravemente.
Depois compadeceu-se das caras vidas dos midos e pegou no bocado de vidro.
- Levo isto. Talvez se relacione com qualquer
coisa.

91

Colin pegou na moeda e examinou-a.
- No  inglesa - disse Ted.
- Pois no, no  inglesa. - Colin olhou inspector e acrescentou: - Talvez seja melhor tambm.
- No digam uma palavra a ningum, a este respeito - recomendou Hardcastle, em tom cofidente.

- Ramsay... - murmurou Colin, pensativo.
- Que tem ele de especial?
- Agrada-me, apenas. Parte para o estrangeiro, de um momento para o outro... A mulher diz que  
engenheiro de construes, mas parece no saber mais nada a seu respeito.
-  uma mulher simptica.
- Pois ... e pouco feliz.
- Cansada, apenas. Os midos so cansativos.
- H mais do que isso, suponho.
- O tipo de pessoa que procura no estaria, com certeza, sobrecarregado com mulher e dois filhoslembrou 
Hardcastle, cptico.
- Nunca se sabe. Ficaria surpreendido se soubesse o que alguns tipos inventam, como disfarce. Uma viva 
sem recursos e com dois filhos podia muito bem
estar disposta a fazer um acordo...
- No me deu a impresso de ser uma mulher dessas - resmungou Hardcastle, muito puritano.
- No me referia a viver em pecado, meu caro. Queria somente dizer que ela aceitaria ser Mistress Ramsay, 
a fim de lhe proporcionar um passado. Naturalmente ele ter-lhe-ia impingido uma histria convincente: tinha 
um trabalho de espionagem para o nosso lado, tudo muito patritico...
Hardcastle abanou a cabea.
- Vocs vivem num mundo estranho, Colin.
- Pois vivemos. Creio que, um dia, terei de o abandonar... A certa altura comeamos a esquecer como so 
as coisas e as pessoas. Metade daquela gente
trabalha para os dois lados e, no fim, nem sabe de que lado est, na realidade. Perde-se a noo dos 
valores...
Bem, mas continuemos a trabalhar.
- Parece-me melhor tentarmos tambm os McNaughton - decidiu Hardcastle, parado junto da cancela do 
63. - Uma parte do jardim deles toca no do dezanove, como o dos Bland.
- Que sabe acerca dos McNaughton?
- Pouco. Vieram para c h cerca de um ano e so idosos. Creio que ele  professor reformado e se 
entretm a trabalhar no jardim.
O jardim da frente tinha roseiras e um canteiro de aafro outonal, debaixo das janelas.
Uma jovem alegre, de bata florida, abriu-lhes a porta e perguntou:
- Que desejam?
- A empregada estrangeira, finalmente! - murmurou Hardcastle, e mostrou o seu carto.
- Polcia! - exclamou a jovem e recuou alguns passos, a olhar para o inspector como se ele fosse um 
demnio em pessoa.
- Mistress McNaughton? - perguntou Hardcastle.
- Mistress McNaughton mora aqui.
A rapariga levou-os para a sala, que dava para o jardim das traseiras e estava deserta.
- Deve estar l em cima - murmurou a empregada, j sem alegria, enquanto ia ao vestbulo e chamava: - 
Mistress McNaughton... Mistress McNaughton...

93

- Que se passa, Gretel? - perguntou uma voz que a distncia abafava.
-  a Polcia... Dois polcias. Levei-os para a sala.
Ouviu-se um rudo de passos, no andar de cima, e as palavras:
- Meu Deus, que mais teremos?
Soaram passos na escada e, passados instantes, Mrs. McNaughton entrou na sala, com um ar 
preocupado. Hardcastle no tardaria a notar que Mrs. McNaughton apresentava quase sempre esse ar de 
preocupao.
- Meu Deus, meu Deus... - repetiu. - Inspector... ah, sim, Hardcastle. Porque nos veio visitar? No sabemos 
nada do assunto. Suponho que se trata
do assassnio... No  por causa da licena do televisor, pois no?
Hardcastle tranquilizou-a a esse respeito.
- Parece tudo to extraordinrio! - exclamou a dona da casa, mais animada. - E logo por volta do meio-dia! 
Uma hora muito esquisita para entrar na residncia alheia, pois as pessoas costumam estar em casa para 
o almoo... Mas, nos tempos que correm, os jornais andam cheios de coisas horrorosas desse gnero, que 
acontecem em pleno dia. Uns amigos nossos saram para almoar fora, chegou uma camioneta de 
mudanas, os homens arrombaram a porta e levaram a
moblia toda! A rua inteira assistiu, mas, naturalmente, no pensou que fosse um roubo. Ontem tive a 
impresso de ouvir algum gritar, mas o meu marido,
Angus, disse que deviam ser aqueles insuportveis pequenos de Mistress Ramsay. Correm pelo jardim a 
fazer rudos como astronaves, foguetes, bombas atmicas... s vezes metem medo.
Hardcastle voltou a mostrar a fotografia:
- Alguma vez viu este homem, Mistress McNaughton?
A mulher observou-a, com avidez.
- Tenho quase a certeza de que vi. Sim, sim, tenho

94

praticamente a certeza. Ora deixe ver onde foi... Ter sido o homem que veio perguntar se queria comprar 
uma enciclopdia nova, em catorze volumes? Ou
o que veio com um novo modelo de aspirador? Despachei-o, mas ele foi atormentar o meu marido, no jardim 
da frente. Angus estava a plantar uns bolbos e no queria que o interrompessem, mas o homem comeou a 
explicar as coisas que o aparelho fazia, como limpava cortinados, degraus, almofadas, etc. Contou a
histria toda, toda! No fim, Angus levantou a cabea e
perguntou: "Serve para plantar bolbos?" No pude conter o riso, pois o homem ficou aparvalhado e foi-se 
logo embora.
- E parece-lhe que esse homem era o desta fotografia?
- No, creio que no. Agora me lembro que era muito mais novo. No entanto, tenho a impresso de j ter 
visto esta cara... Sim, quanto mais olho para a fotografia, mais me conveno de que esse homem veio c 
tentar vender-me qualquer coisa.
- Angariar seguros, talvez?
- No, seguros no. Isso  o meu marido que atende. Temos todos os seguros devidos. Mas quanto mais 
olho para a fotografia...
Hardcastle no se mostrou muito entusiasmado. A sua experincia permitia-lhe colocar Mrs. McNaughton 
na categoria de pessoas desejosas de terem visto algum relacionado com um assassnio. Quanto mais 
olhasse para a fotografia, mais se convenceria de que se lembrava de algum parecido.
Suspirou, desanimado, mas a interlocutora prosseguiu:
- Creio que conduzia uma furgoneta, mas no me consigo lembrar quando foi. Uma furgoneta de padeiro, 
suponho.
- No o viu ontem, pois no, Mistress McNaughton?
O rosto da mulher entristeceu um pouco e ela afastou 

95

da testa o cabelo grisalho, ondulado e um pouco rebelde.
- No, ontem no o vi. Pelo menos... pelo menos creio que no. - Animou-se um bocadinho e acrescentou: 
- Talvez o meu marido se lembre!
- Ele est em casa?
- Est l fora, no jardim. - Apontou para a janela e o inspector viu um homem idoso a empurrar um carrinho 
de mo.
- Vamos at l falar com ele.
Mrs. McNaughton levou-os ao jardim por uma porta lateral. O marido estava todo suado.
- Estes senhores so da Polcia, Angus - anunciou a mulher, ofegante. - Vieram por causa do assassnio 
verificado em casa de Miss Pebmarsh e trazem
uma fotografia da vtima. Sabes, tenho a impresso de j o ter visto em qualquer lado... No ser o que veio 
c a semana passada, perguntar se tnhamos antiguidades para vender?
- Deixe-me ver - pediu Mr. McNaughton ao inspector. - Mas segure o senhor na fotografia, pois eu tenho as 
mos todas sujas de terra.
Lanou-lhe um olhar breve e afirmou:
- Nunca o vi na minha vida.
- Disseram-me que gostava muito de jardinagem - observou Hardcastle.
- Quem? No foi, com certeza, Mistress Ramsay?
- No. Foi Mister Bland.
- Bland no sabe o que  jardinagem - rosnou o velho. - S sabe fazer canteiros. Plantar begnias e 
gernios e bordaduras de loblias. No  a isso que eu
chamo jardinagem. Lembra-me um jardim pblico... Interessa-se por arbustos, inspector? Claro que a 
poca do ano no  apropriada, mas tenho aqui um ou dois
arbustos que o surpreendero. Dizem que s se do no Devon e na Cornualha...
- Infelizmente, no posso dizer que perceba de jardinagem...

96

McNaughton olhou-o, como um artista olha para uma pessoa que diz no perceber nada de arte, mas saber 
do que gosta.
- Trouxe-me c um assunto muito menos agradvel - prosseguiu o inspector.
- Sem dvida, essa histria de ontem. Eu estava no jardim, quando aconteceu.
- Sim?
- Quero dizer, estava aqui quando a pequena desatou aos gritos.
- Que fez?
- Bem... no fiz nada - confessou Mr. McNaughton, um pouco envergonhado. - Pensei que fossem aqueles 
malditos fedelhos dos Ramsay, que passam a
vida a gritar como danados.
- Mas os gritos no vinham da mesma direco...
- Isso teria algum significado se os tratantes no sassem do seu jardim, mas eles saem, passam pelas 
vedaes dos outros... Perseguem os estupores dos gatos de Mistress Hemming por todo o lado. O mal  
no terem ningum com mo firme para os dominar. A me  fraca como gua... Quando no h um 
homem em casa, as crianas tornam-se indisciplinadas...
- Consta-me que Mister Ramsay passa muito tempo no estrangeiro.
- Sim, ouvi dizer que  engenheiro - concordou o velho, vagamente. - Est sempre a ausentar-se. Parece 
que constri represas... ou oleodutos, ou l o que
. No sei ao certo. H um ms, teve de partir de repente para a Sucia. A me dos pequenos ficou cheia 
de trabalho, coitada. Cozinhar, fazer a lida da casa,
mais isto e mais aquilo... Claro, eles apanharam-se  solta e parecem dois demnios. No so maus 
pequenos, note, mas precisam de disciplina.
- O senhor no viu nada? S ouviu os gritos? A propsito, quando foi isso?
- No fao ideia. Tiro sempre o relgio, quando venho c para fora. Outro dia molhei-o, com a mangueira, 

97

e depois foi um sarilho para o consertar.Voltou-se para a mulher e perguntou-lhe: - Que horas eram, minha 
querida? Tu tambm ouviste, no ouviste?
- Talvez fossem umas duas e meia... Pelo menos foi meia hora depois de acabarmos de almoar.
- A que horas almoam?
-  uma e meia... se estamos em mar de sorte - respondeu Mr. McNaughton. - A nossa empregada 
dinamarquesa no tem noo nenhuma do tempo.
- E depois do almoo, costuma dormir uma sesta?
- s vezes. Ontem no dormi; queria acabar o que estava a fazer. Precisava de arrancar umas coisas, para 
pr no monte de adubo composto...
-  uma coisa maravilhosa, o adubo composto - sentenciou Hardcastle.
- No h nada que se lhe compare! - concordou o velhote, entusiasmado. - No imagina a quantidade de 
pessoas que tenho convertido! Usavam aqueles adubos qumicos, que so um verdadeiro suicdio! Venha 
c, eu mostro-lhe.
Puxou o inspector por um brao e, ao mesmo tempo que empurrava o carrinho de mo, levou-o junto da 
cerca que separava o seu jardim do do nmero dezanove.
O monte de adubo composto l estava em toda a sua glria, no meio de uma moita  de lilases. Mr. 
McNaughton meteu o carro num pequeno barraco, onde tinha diversas ferramentas bem arrumadas.
- Tem tudo muito ordenado - elogiou o inspector.
- Devemos cuidar bem das nossas ferramentas.
Hardcastle olhou pensativamente para o nmero 19. Do outro lado da cerca havia uma prgola de roseiras, 
que seguia at um dos lados da casa.
- No viu ningum no jardim do nmero dezanove, nem a espreitar pela janela, ou qualquer coisa desse 
gnero, enquanto esteve a trabalhar no adubo?
- No vi absolutamente nada. Lamento no o poder ajudar, inspector.

98

- Sabes, Angus, tenho a impresso de que vi um vulto, no jardim do dezanove...
- No creio que tenhas visto, minha queridaafirmou o marido, com firmeza. - Eu  tambm no vi.
- Aquela mulher seria capaz de dizer que viu tudo! - resmungou Hardcastle,  quando voltaram para o 
automvel.
- No acredita que ela tenha reconhecido a fotografia?
- Duvido muito. S quer pensar que viu o tipo. Conheo bem de mais, por meu mal, este gnero de 
testemunhas. Quando insisti, no foi capaz de dar
meia para a caixa, pois no?
- No.
- Claro que pode ter viajado defronte dele num autocarro ou coisa parecida. At a, admito. Mas, se quer a 
minha opinio franca, no passa tudo de fantasia, do que ela desejava que fosse. E voc, que pensa?
- O mesmo.
- No obtivemos grandes resultados. - Hardcastle suspirou. - H, evidentemente, pormenores que se 
afiguram esquisitos... Por exemplo, parece quase
impossvel que Mistress Hemming, apesar da sua obsesso pelos gatos, saiba to pouco acerca da 
vizinha, Miss Pebmarsh, como diz. Igualmente me pareceu estranho que ela se mostrasse to vaga e to 
desinteressada pelo assassnio.
- Ela  uma mulher vaga.
- Ausente - resmungou o inspector. - Quando se encontra uma mulher assim, podem haver incndios, 
roubos e assassnios  sua volta sem elas darem
por isso.
- Est muito protegida com todas aquelas cercas de arame e os arbustos vitorianos no deixam ver grande 
coisa.
Chegaram  esquadra. Hardcastle sorriu ao amigo e disse-lhe:
- Bem, sargento Lamb, por hoje dispenso-o do servio.

99

- No h mais visitas a fazer?
- De momento, no. Talvez faa outra, mais tarde, mas no o levarei.
- Bem, obrigado pela boleia da manh. Pode mandar dactilografar estes apontamentos que tomei? - 
Estendeu a agenda ao inspector e perguntou: - O inqurito sempre  depois de amanh, como disse? A 
que horas?
- s onze.
- Voltarei a tempo.
- Vai-se embora?
- Tenho de ir a Londres amanh, apresentar o meu relatrio.
- Calculo a quem.
- No devia calcular.
- D saudades minhas ao velhote - pediu Hardcastle, a rir.
- Talvez v, tambm, consultar um especialista.
- Um especialista? De qu? H alguma coisa que no funciona bem?
- A cabea: estupidez pura e simples. No me referia a especialistas mdicos e, sim, a um especialista da 
sua profisso.
- Scotland Yard?
- No. Um detective particular, amigo do meu pai e meu. Esta sua fantstica histria ser um pratinho para 
ele! Adorar e sentir-se- mais animado... e eu tenho a impresso de que ele precisa de que o animem.
- Como se chama?
- Hercule Poirot.
- J tenho ouvido falar dele, mas pensava que morrera.
- No morreu, mas tenho a impresso de que se sente entediado, o que  pior do que estar morto.
Hardcastle olhou-o, com curiosidade, e comentou:
- Voc  um tipo esquisito, Colin. Arranja amigos to estranhos!
- Incluindo voc - respondeu Colin, a sorrir.

100

12

Depois de se despedir de Colin, o inspector Hardcastle olhou para a morada escrita na sua agenda e 
acenou com a cabea. Guardou a agenda e comeou a  despachar os vrios assuntos rotineiros que se 
tinham acumulado.
Foi um dia muito atarefado para ele. Mandou vir caf e sanduches e recebeu relatrios do sargento Cray: 
no surgira nenhuma pista relevante. Ningum
reconhecera a fotografia de Mr. Curry na estao de caminhos-de-ferro nem na dos autocarros, e os 
relatrios do laboratrio tambm no ajudavam nada. O fato fora feito por um bom alfaiate, mas a etiqueta 
com o seu nome tinha sido tirada. Desejo de anonimato da parte de Mr. Curry? Ou da parte do seu 
assassino?
Foram enviados pormenores acerca dos seus dentes a diversos lados e talvez se encontrassem a as 
melhores pistas. Era uma coisa que demorava um bocadinho,
mas costumava dar resultado. A no ser, claro, que Mr. Curry fosse estrangeiro... O inspector Hardcastle 
encarou tal possibilidade. Talvez o morto fosse francs... No entanto, o seu vesturio no tinha nada de 
francs. Por enquanto, tambm no tinham encontrado marcas de lavandaria.
Hardcastle no estava, porm, impaciente. A identificao costumava ser uma tarefa demorada, mas no fim 
aparecia sempre algum que resolvia o problema.
Uma lavandaria, um dentista, um mdico, uma pessoa de famlia, geralmente a mulher ou a me, ou uma 
senhoria. A fotografia do morto seria distribuda pelas esquadras e publicada nos jornais. Mais cedo ou 
mais tarde, conhecer-se-ia a verdadeira identidade de Mr. Curry.
Entretanto, era preciso trabalhar, e no apenas no caso Curry. Hardcastle trabalhou sem descanso at s 

101

cinco e meia. A essa hora olhou para o relgio e achou que chegara o momento de fazer a visita que tinha 
em mente.
O sargento Cray informara-o de que Sheila Webb recomeara a trabalhar no  gabinete Cavendish e s cinco 
horas iria ao Curlew Hotel estenografar uns apontamentos do professor Purdy. O mais provvel seria no se 
despachar antes das seis horas.
Como se chamava a tia da pequena?... Lawton, Mrs. Lawton. A morada era Palmerston Road, 14. Em vez 
de pedir um carro da Polcia, Hardcastle preferiu
percorrer a p a curta distncia.
Palmerston Road era uma rua sombria que, como se costuma dizer, conhecera melhores dias. Hardcastle 
notou que as casas tinham sido quase todas convertidas em apartamentos. Quando o inspector dobrou a 
esquina, uma rapariga que caminhava na sua direco hesitou momentaneamente. Distrado, o inspector 
julgou que ela
lhe ia perguntar o caminho para qualquer lado, mas se era essa a sua inteno desistiu e passou por ele 
sem parar. Hardcastle perguntou a si mesmo por
que motivo lhe teria acudido ao esprito, inesperadamente, a ideia de sapatos. Sapatos... No, um sapato. 
A cara da jovem era-lhe, tambm, familiar...
Quem seria? Algum que vira ultimamente? Talvez ela o tivesse reconhecido, tambm, e hesitasse sem 
saber se lhe deveria falar.
Parou e olhou para trs. A rapariga ia a andar muito depressa. A dificuldade residia no facto de ela ter um 
daqueles rostos indistintos e difceis de reconhecer, a no ser que existisse alguma razo especial.
Olhos azuis, pele clara, boca ligeiramente aberta... Boca. Isso tambm lhe recordava qualquer coisa. 
Qualquer coisa que a vira fazer com a boca? Falar? Pintar os lbios? No. Sentiu-se um bocadinho irritado 
consigo prprio. Hardcastle gabava-se de ser previsto, de fixar

102

rostos. Costumava dizer que nunca esquecia uma cara que visse no banco dos rus ou no das 
testemunhas... Mas, no fim de contas, havia outros lugares para ver pessoas. No reconheceria, por 
exemplo, as inmeras criadas de restaurantes que o tinham servido. Nem as condutoras de autocarros... 
Afastou o assunto do pensamento.
Chegou ao nmero 14. A porta estava entreaberta e havia quatro botes de campainha, com os nomes dos 
respectivos inquilinos em baixo. Mrs. Lawton morava no rs-do-cho. Entrou na escada e tocou  
campainha da porta do lado esquerdo  do vestbulo. S passados momentos ouviu passos, dentro de casa.
Abriu-lhe, finalmente, a porta uma mulher alta, de cabelo escuro despenteado e avental. Estava um pouco 
ofegante. Do interior, sem dvida da cozinha, vinha
um cheiro acentuado a cebolas.
- Mistress Lawton?
- Sim - respondeu, desconfiada e um bocadinho aborrecida.
O inspector calculou que deveria ter cerca de quarenta e cinco anos e achou-lhe  um aspecto vagamente 
aciganado.
- Que deseja?
- Ficar-lhe-ia grato se me pudesse dispensar uns minutos.
- Para qu? Neste momento estou muito atarefada. - E perguntou, irritada: - No  reprter, pois no?
- Calculo que tenham sido muito incomodadas pelos reprteres - observou Hardcastle, em tom 
compreensivo.
- Se temos! Todo o dia a baterem  porta, a tocarem  campainha e a fazerem as perguntas mais estpidas 
que se possa imaginar!
- Concordo que  muito aborrecido e desejaria poder poupar-lhe todas essas maadas, Mistress Lawton. 
Sou o detective-inspector Hardcastle e estou  

103

encarregado de investigar o caso acerca do qual os reprteres a tm atormentado. Se pudssemos, 
teramos evitado esses contratempos, mas como sabe no podemos. A imprensa tem os seus direitos...
-  uma vergonha incomodarem particulares da maneira que incomodam, a pretexto de que precisam de 
notcias para dar ao pblico! Quanto a mim, a nica coisa que tenho notado nas notcias que publicam  
que so uma teia de mentiras, do princpio ao fim. So capazes de inventar tudo! Mas queira entrar.
A mulher desviou-se para o lado e o inspector entrou e fechou a porta. Mrs. Lawton baixou-se para apanhar 
umas cartas que tinham cado no tapete, mas,
delicadamente, Hardcastle adiantou-se-lhe e apanhou-as. Os seus olhos  ercorreram-nas durante meio 
segundo, enquanto as entregava, com os endereos  para cima.
- Obrigada. - Mrs. Lawton colocou-as em cima da mesa do vestbulo. - Entre para a sala, sim?  por essa 
porta. Tem de me dar licena por um momento,
pois parece-me que est qualquer coisa a ferver.
Mrs. Lawton correu para a cozinha e o inspector lanou um ltimo olhar deliberado s cartas. Uma estava 
dirigida a Mrs. Lawton e as outras duas a Miss
R. S. Webb. Entrou, ento, no aposento indicado. Era uma sala pequena e desarrumada, pobremente 
mobilada, mas aqui e ali tinha uma mancha de cor ou  algum objecto fora do vulgar. Uma bonita, e 
provavelmente cara, pea de vidro veneziano, de cores suaves e forma abstracta; duas almofadas de veludo 
de cores vivas; uma travessa de cermica estrangeira, com conchas...
Ou a tia ou a sobrinha tinham uma certa tendncia para a originalidade.
Mrs. Lawton voltou, um pouco mais ofegante do que anteriormente.
- Creio que podemos conversar, agora - declarou, embora em tom pouco  convincente.
- Peo desculpa de ter vindo a uma hora inconveniente,

104

mas encontrava-me perto e precisava de averiguar mais alguns pormenores acerca deste caso em que a 
sua sobrinha teve a pouca sorte de ser envolvida. Espero que ela j se tenha refeito do grande abalo que 
sofreu. ..
- Sim, Sheila chegou a casa num estado lastimoso. Mas esta manh j estava boa e voltou para o trabalho.
- Bem sei. Disseram-me, no entanto, que ela se encontrava com um cliente, em qualquer lado, e como no 
quis interferir no seu trabalho pensei que seria
melhor vir at c e falar-lhe na sua prpria casa. Mas, pelo que vejo, ainda no regressou, pois no?
- Provavelmente regressar tarde. Foi trabalhar para um tal professor Purdy e, segundo Sheila diz, ele  um 
homem que no tem a mnima noo do tempo.
Est sempre a dizer: "Como isto no levar mais do que dez minutos, parece-me melhor irmos at ao fim." 
Mas os dez minutos arrastam-se quase sempre e transformam-se em trs quartos de hora ou uma hora. No 
entanto,  uma pessoa muito simptica e correcta. Uma vez ou duas insistiu em que ela ficasse para jantar 
com ele e pareceu muito preocupado por a ter retido muito mais tempo do que supusera. H alguma coisa 
que eu lhe possa dizer, inspector? Sheila pode-se
demorar muito...
- No creio... Claro que, no outro dia, s tommos nota dos principais pormenores e eu nem sei se 
correctamente. - Consultou, de modo ostensivo, o livro de apontamentos. - Ora deixe ver. Miss Sheila 
Webb.  este o seu nome completo ou tem outro nome prprio? Como sabe, precisamos de todos estes 
pormenores muito certos, para as actas do inqurito.
- O inqurito  depois de amanh, no ? Ela recebeu uma convocao...
- Sim, mas escusa de se preocupar com isso. Ter apenas de explicar como encontrou o corpo.
- Ainda no sabem quem era o homem?

105

- No. Ainda  cedo para isso. Ele tinha um carto na algibeira e ns pensmos, ao princpio, que se 
tratasse de um agente de seguros. Parece, agora, mais
provvel que o carto lhe tenha sido dado por algum. Talvez ele prprio tencionasse fazer algum seguro.
- Compreendo - murmurou Mrs. Lawton, vagamente interessada.
- Vamos, ento, confirmar os nomes... Creio que escrevi Miss Sheila Webb ou Miss Sheila R. Webb, mas 
no me lembro a que se refere o "R".  Rosalie?
- Rosemary. O seu nome de baptismo  Rosemary Sheila, mas ela achou sempre o Rosemary piroso e diz 
chamar-se apenas Sheila.
- Compreendo.
Nada, no tom de voz de Hardcastle, demonstrava o seu contentamento por uma das suas suspeitas ter 
batido certo. Reparou tambm numa coisa: o nome de
Rosemary no impressionava nada Mrs. Lawton. Para ela, Rosemary era apenas um nome prprio que a 
sua sobrinha no usava.
- Agora j est certo - continuou o inspector, a sorrir. - Suponho que a sua sobrinha veio de Londres e 
trabalha no Gabinete Cavendish h cerca de dez
meses. Creio que no se lembra da data exacta?
- Sim, no me lembro. Sei que foi em Novembro passado, para o fim do ms...
- Muito bem, no tem importncia. Ela no morava consigo, aqui, antes de aceitar   emprego no Gabinete 
Cavendish?
- No. Residia em Londres.
- Tem a sua morada em Londres?
- Tenho-a a em qualquer lado... - Mrs. Lawton olhou  sua volta, com a expresso vaga das pessoas 
habitualmente desarrumadas. - Tenho uma memria
pssima. Era qualquer coisa como Allington Grove, para os lados de Fulham... Compartilhava um 
apartamento com duas outras pequenas. Os quartos para raparigas  so muito caros, em Londres.

106

- Lembra-se do nome da firma onde ela trabalhava?
- Lembro, sim. Hopgood & Trent. Eram agentes de propriedades na Fulham Road.
- Obrigado. Bem, tudo isto parece muito claro. Creio que Miss Webb  rf? 
- . - Mrs. Lawton mexeu-se, pouco  vontade, e olhou na direco da porta. - Importa-se que v de novo  
cozinha?
- Faa favor.
O inspector abriu a porta e ela saiu. Seria impresso sua, ou a ltima pergunta que fizera perturbara Mrs. 
Lawton? At ento respondera rapidamente,
sem hesitar... Pensou no assunto at Mrs. Lawton regressar.
- Desculpe, mas cozinhar tem que se lhe diga... Agora est tudo a andar bem. Deseja perguntar-me mais 
alguma coisa? A propsito, lembrei-me de que a
morada no era Allington Grove. Era Carrington Grove, dezassete.
- Obrigado. Creio que lhe estava a perguntar se Miss Webb era rf.
- , sim. Os pais morreram.
- H muito tempo?
- Quando ela era pequena.
Adivinhava-se no tom da sua voz uma espcie de desafio quase imperceptvel.
- Era filha de uma irm sua ou de um irmo?
- De uma irm.
- Qual era a profisso de Mister Webb?
Mrs. Lawton pensou um momento, a morder os lbios, e por fim respondeu:
- No sei.
- No sabe?
- Quero dizer, no me lembro. Foi h tanto tempo...
Hardcastle aguardou, pois sabia que ela voltaria a falar. No se enganou.

107

- Posso perguntar que tem tudo isto a ver com o caso? Quero dizer, que interessa quem eram os pais da 
minha sobrinha, o que fazia o pai dela, etc.?
- Suponho que, na realidade, uma coisa no tem nada a ver com a outra, do seu ponto de vista. Mas as 
circunstncias so muito invulgares, compreende?
- As circunstncias so muito invulgares? Que quer dizer?
- Temos motivos para crer que Miss Webb foi quela casa porque a requisitaram especificamente, pelo 
nome, ao Gabinete Cavendish. Parece, portanto,
que algum arranjou as coisas de propsito, para que ela l estivesse. Algum, talvez... enfim, com 
qualquer ressentimento contra ela.
- No acredito que algum possa ter qualquer ressentimento contra Sheila.  uma jia de rapariga, 
simptica e dada...
- Sim, tambm foi essa a impresso que me causou.
- No me agrada ouvir insinuar o contrrioafirmou Mrs. Lawton, com certa  agressividade.
- Decerto. - Hardcastle continuou a sorrir, apaziguador. - Mas deve compreender, Mistress Lawton, que tudo 
indica ter a sua sobrinha sido deliberadamente escolhida como vtima. Meteram-na de propsito em 
sarilhos, como dizem nos filmes. Algum arranjou maneira de ela entrar numa casa onde estava um morto, 
um morto que fora assassinado havia pouco tempo. Parece, pois, que se trata de um acto maldoso.
- Quer dizer... quer dizer que algum tentou dar a impresso de que foi Sheila que o matou? Oh, no, no 
posso acreditar!
- , de facto, difcil de acreditar - concordou o inspector. - Mas precisamos de esclarecer tudo, de ter a 
certeza. Haver, por exemplo, algum jovem, algum rapaz que se tenha apaixonado pela sua sobrinha e de 
quem ela no goste? Os rapazes novos fazem, s 

108

vezes, coisas muito cruis e vingativas, sobretudo se so desequilibrados.
- No creio que se trate de nada desse gneromurmurou Mrs. Lawton, de olhos semicerrados e testa 
franzida, a pensar. - Sheila tem-se dado com um ou dois rapazes, mas no  nada de srio.
- Talvez se tenha passado alguma coisa enquanto ela viveu em Londres - sugeriu o inspector. possvel que 
a senhora no esteja muito bem informada acerca dos amigos que ela l teve.
- Sim,  possvel... Mas a esse respeito ter de a interrogar a ela prpria, inspector Hardcastle. No entanto, 
nunca me constou que tivesse qualquer  aborrecimento dessa espcie.
- Tambm se poder tratar de alguma rapariga... No ser possvel que uma das jovens com quem ela 
compartilhou o apartamento a invejasse ou tivesse cimes dela?
- No me admiraria que existisse uma rapariga que desejasse pregar-lhe uma partida, mas certamente no 
iria ao ponto de envolver assassnio.
A observao era sensata e Hardcastle compreendeu que Mrs. Lawton no tinha nada de tola. Apressou-se 
a dizer:
- Sei que parece muito improvvel, mas a verdade  que todo este caso  incrvel.
- Deve ter sido algum doido...
- Mesmo na loucura h uma ideia definida a motivar as aces, qualquer coisa que lhes d origem. Foi por 
isso que lhe fiz perguntas acerca do pai e da me
de Sheila Webb. Ficaria surpreendida se soubesse como  frequente os motivos  terem razes no passado. 
Como os pais de Miss Webb morreram quando era pequena, ela no me saber, naturalmente, dizer nada 
acerca deles. Por isso recorri  senhora.
- Compreendo... sim, compreendo. Mas... bem...
O inspector notou que a perturbao e a incerteza tinham voltado  sua voz.

109

- Eles morreram ao mesmo tempo, num acidente ou em qualquer coisa desse gnero?
- No, no houve nenhum acidente.
- Morreram ambos de causas naturais?
- Eu... bem, sim... quero dizer, no sei, francamente.
- Penso que deve saber um pouco mais do que diz, Mistress Lawton. Eram divorciados, estavam 
separados?
- No, no eram divorciados.
- Ora vamos, Mistress Lawton! Deve saber de que morreu a sua irm.
- No compreendo que... quero dizer,  muito difcil...  muito melhor no remexer no passado...
Os seus olhos exprimiam uma perplexidade desesperada.
O inspector fitou-a, com ateno, e depois perguntou, docemente:
- Sheila Webb ser... uma filha ilegtima?
No rosto de Mrs. Lawton estampou-se, imediatamente, um misto de consternao e alvio.
- Ela no  minha filha.
-  filha ilegtima da sua irm?
- ... mas ignora-o. Nunca lho disse. Disse-lhe que os pais morreram novos e  por isso que... enfim, 
compreende.. .
- Compreendo, sim. E garanto-lhe que, a no ser que desse lado surja qualquer necessidade imperiosa de 
investigao, no interrogarei Miss Webb a tal respeito.
- No precisar de lhe dizer?
- S se tiver alguma importncia para a soluo do caso, o que, confesso, me parece improvvel. Mas 
preciso de tomar conhecimento de todos os factos que
a senhora sabe, embora prometendo-lhe que farei o possvel para que fique apenas entre ns o que me 
disser.
- No  uma coisa agradvel e eu confesso que fiquei

110

muito transtornada. A minha irm fora sempre a mais inteligente da famlia, era professora e muito 
respeitada. Enfim, a ltima pessoa que se julgaria capaz de...
- Isso acontece muitas vezes - interrompeu o inspector, com tacto. - Ela conheceu esse homem, esse 
Webb...
- Nunca sequer soube como ele se chamava - interveio Mrs. Lawton. - Nunca o conheci. Mas ela procurou-
me e disse-me o que sucedera, que esperava
um filho e que o homem no podia, ou no queria, nunca soube ao certo, casar com ela. Minha irm era 
ambiciosa e, se se descobrisse a verdade, teria de desistir do seu trabalho. Por isso, naturalmente, eu... eu
disse que estava disposta a ajudar.
- Onde est agora a sua irm, Mistress Lawton?
- No fao a mnima ideia - declarou, com nfase. - Absolutamente nenhuma ideia.
- Mas vive?
- Suponho que sim.
- No se mantiveram em contacto?
- Ela no quis. Achou melhor para a criana e para ela haver uma separao total. Tnhamos ambas um 
pequeno rendimento, que a nossa me nos deixara.
Ann passou a sua parte para o meu nome, para a manuteno da filha. Disse que continuaria a 
desempenhar a sua profisso, mas mudaria de escola. Suponho
que tinha um plano qualquer de substituir um professor no estrangeiro, durante um ano. Na Austrlia ou em 
qualquer outro lado.  tudo quanto sei, inspector
Hardcastle, e tudo quanto lhe posso dizer.
Hardcastle fitou-a, pensativo. Seria, realmente, tudo quanto ela sabia? Era difcil ter a certeza. O que era 
certo era no tencionar dizer-lhe mais nada. No
entanto, talvez no soubesse, de facto, mais do que dissera. As poucas referncias que fizera  irm 
tinham bastado para dar a impresso de que se tratava de uma personalidade imperiosa, severa e 
implacvel,

111

de uma mulher decidida a no permitir que um erro lhe estragasse a vida. Friamente, insensivelmente, 
providenciara para a manuteno e presumvel felicidade da filha, e a partir desse momento afastara-se de 
vez,
para recomear a vida sozinha. Era admissvel que sentisse assim em relao  filha. Mas e a irm? 
- Parece estranho que ela no tenha, ao menos, comunicado consigo por carta, que no tenha querido 
saber como se desenvolvia a filha...
- Se conhecesse Ann no se admiraria. Foi sempre muito firme nas suas decises. Alm disso, no 
ramos muito unidas. Eu era muito mais nova... doze
anos... Repito, nunca fomos muito unidas.
- Que pensou o seu marido da adopo?
- Eu era viva. Casei nova e o meu marido foi morto na guerra. Nessa altura, tinha uma pequena loja onde 
vendia doces.
- Onde foi isso? No foi aqui em Crowdean, pois no?
- No. Vivamos no Lincolnshire. Vim aqui passar umas frias, uma vez, e gostei tanto que trespassei a loja 
e mudei-me para c. Mais tarde, quando Sheila
entrou para a escola, empreguei-me na firma Roscoe & West, a grande loja de fanqueiro da terra. Ainda l 
trabalho. So pessoas muito simpticas.
- Muito obrigado pela sua franqueza, Mistress Lawton - agradeceu Hardcastle, enquanto se levantava.
- No dir nada a Sheila?
- S se for indispensvel, e s ser indispensvel se verificarmos que certas circunstncias do passado tm 
qualquer relao com este assassnio de Wilbraham Crescent, dezanove. Parece-me improvvel, como j 
lhe disse. - Tirou da algibeira a fotografia que j mostrara a tanta gente e estendeu-a a Mrs. Lawton.No faz 
nenhuma ideia de quem possa ser este homem?

112

- J me mostraram a fotografia - respondeu a mulher, mas pegou-lhe e observou-a com ateno.No, tenho 
a certeza de que nunca o vi. No creio que
seja destes lados, pois de contrrio talvez me lembrasse de o ter visto por a. Claro... - Olhou de novo, 
atentamente, antes de acrescentar, de modo inesperado: - Parece uma pessoa decente. Um cavalheiro, 
no acha?
Era uma expresso ligeiramente fora de moda, no mbito da experincia do inspector, mas no pareceu 
deslocada nos lbios de Mrs. Lawton. "Criada na provncia...", disse para consigo. "Ainda pensam assim."
Olhou por sua vez para a fotografia e verificou, surpreendido, que pessoalmente no pensara no morto 
dessa maneira. Seria um homem decente? Era singular, mas presumira exactamente o contrrio. 
Presumira-o inconscientemente, talvez, ou talvez influenciado pelo facto de o indivduo ter na algibeira um
carto com um nome e uma morada que tudo indicava serem falsos. Era possvel que a explicao que 
dera a Mrs. Lawton, pouco antes, fosse verdadeira, que o
carto pertencesse a algum falso agente de seguros e que este o tivesse dado ao morto... Isso tornaria 
tudo ainda mais complicado. Aborrecido, viu as horas.
- No a quero afastar por mais tempo dos seus cozinhados. Como a sua sobrinha ainda no chegou...
Mrs. Lawton olhou tambm para o relgio da chamin. "Graas a Deus s h um relgio nesta sala!", 
pensou o inspector.
- Sim, ela est atrasada... muito atrasada. Ainda bem que a Edna no esperou.
Ao ver a expresso um pouco intrigada do inspector, exglicou:
-  uma das pequenas do escritrio. Veio c, para conversar com a Sheila, mas depois de esperar um 
bocado disse que no se podia demorar mais e foi-se embora, pois tinha um encontro qualquer. 
Acrescentou que falaria com a minha sobrinha amanh ou qualquer outro dia.

113

Fez-se luz no esprito do inspector: a rapariga que se cruzara com ele na rua! J sabia por que motivo ela o 
fizera pensar em sapatos. Claro! Era a jovem que o
atendera, no Gabinete Cavendish, e que, quando ele saa, segurava um sapato com o salto partido e 
perguntava s colegas como havia de se arranjar para chegar a
casa. Lembrava-se agora de que era uma pequena banal, pouco atraente e que chupava uma guloseima 
qualquer, enquanto falava. Ela reconhecera-o, ao encontr-lo na rua, e hesitara, como se pretendesse falar-
lhe. Que lhe teria querido dizer? Pretenderia explicar-lhe porque visitara Sheila Webb ou pensaria que ele
esperava que lhe dissesse alguma coisa?
-  uma grande amiga da sua sobrinha?
- Nem por isso. Quero dizer, trabalham no mesmo escritrio, mas Edna  uma pequena enfadonha, pouco 
inteligente, e no so grandes amigas. Por sinal,
at me admirei de mostrar tanto interesse em falar com Sheila esta noite. Disse-me que se tratava de uma 
coisa que no compreendia e acerca da qual queria falar com a minha sobrinha.
- Mas no lhe explicou o que era?
- No. Disse que podia esperar e que no tinha importncia.
- Bem, vou andando.
- Admira-me a Sheila no ter telefonado... Geralmente telefona, quando est atrasada, tanto mais que, s 
vezes, o professor a convida para jantar. Enfim, deve chegar de um momento para o outro. As bichas para 
os autocarros so enormes, a esta hora, e o Curlew Hotel ainda fica longe. No deseja deixar nenhum 
recado para ela?
- Suponho que no...
Quando ia a sair, perguntou:
- J agora, diga-me uma coisa: quem escolheu os nomes prprios da sua sobrinha, Rosemary e Sheila? A 
sua irm ou a senhora?
- Sheila era o nome da nossa me. Rosemary foi 

114

escolha da minha irm. Confesso que me admirou. Trata-se de um nome romanesco e a minha irm no 
era nada romanesca nem sentimental.
- Bem, boas noites.
Quando chegou  rua, o inspector ia a pensar:
"Rosemary... hum... Ter escolhido Rosemary como recordao romntica e perfumada... ou por qualquer 
outro motivo diferente?"

13

NARRATIVA DE COLIN LAMB

Subi a Charing Cross Road e virei para o labirinto de ruas que abrem sinuosamente caminho entre a New 
Oxford Street e Covent Garden. Havia ali toda a sorte de estabelecimentos insuspeitos: lojas de 
antiguidades, um hospital de bonecas, uma loja de sapatilhas de ballet, charcutarias de especialidades 
estrangeiras, etc.
Resisti  tentao do hospital de bonecas, com os seus vrios pares de olhos de vidro azul e castanho, e 
cheguei, finalmente, ao meu destino: uma livrariazinha modesta, numa transversal que no ficava muito 
longe do Museu Britnico. No exterior, encontravam-se as habituais prateleiras de livros: romances antigos,
velhos livros de estudo, todo o gnero de leituras com etiquetas de 3 d., 6 d.,1 x., e at alguns 
"aristocratas" com as pginas quase todas e, ocasionalmente, as encadernaes intactas.
Esgueirei-me pela porta dentro. Tive mesmo de me esgueirar, pois a quantidade de livros, em equilbrio 
precrio, roubava cada vez mais espao. No interior,

' Rosemary significa alecrim, em ingls, mas tambm  tomado na acepo de "recordao". (N. da T.)

115

havia-os por toda a parte, como se crescessem e se multiplicassem num desenfreamento, sem a mo forte 
de algum a domin-los. O espao entre as estantes era to pequeno que s com grande dificuldade se
conseguia passar. Havia rimas de livros em todas as
prateleiras e em todas as mesas. Sentado num banco, a um canto, verdadeiramente emoldurado por livros, 
estava um velho de barrete e cara larga e inexpressiva
como um peixe embalsamado. Tinha o ar de quem desistira de uma luta desigual. Tentara dominar os 
livros, mas era evidente que os livros o tinham dominado a ele. Era uma espcie de rei Canuto do mundo 
dos livros, a retirar perante o avano da mar livreira... Se lhe ordenasse que parasse, seria com a certeza 
absoluta e desesperada de no ser obedecido. Tratava-se de
Mr. Soloman, proprietrio da loja. Quando me reconheceu, acenou com a cabea e o seu olhar de peixe 
suavizou-se um momento.
- Tem alguma coisa da minha especialidade?
- Ter de ir ver l acima, Mister Lamb. Continua interessado nas algas e coisas parecidas?
- Continuo.
- Bem, sabe onde esto. Biologia marinha, fsseis, Antrctica: segundo andar. Recebi uma encomenda 
nova, anteontem. Comecei a desembrulh-los, mas no acabei. Encontr-los- a um canto, l em cima.
Acenei com a cabea e continuei a esgueirar-me at ao fundo da loja, donde partia uma escada pequena, 
pouco segura e muito suja. O primeiro andar era reservado ao Oriente, a livros de arte e medicina e a
clssicos franceses. A sala tinha um canto muito interessante, separado por uma cortina e desconhecido 
do pblico em geral, mas acessvel aos peritos, onde se
encontravam os volumes chamados "estranhos" ou "curiosos". Segui o meu caminho para o segundo 
andar.
A se encontravam, muito inadequadamente separados por categorias, livros sobre arqueologia, histria 

116

natural e outras matrias respeitveis. Abri caminho por entre estudantes, coronis idosos e sacerdotes, 
contornei o ngulo de uma estante, passei por cima de vrios embrulhos de livros, que se encontravam no 
cho e tinham comeado a ser abertos, e vi o meu progresso impedido por dois estudantes de sexos 
opostos,
perdidos para o mundo num abrao muito apertado.
Balanavam-se de um lado para o outro, muito agarrados. "Com licena", pedi e, firmemente, afastei-os 
para o lado, levantei uma cortina que encobria uma
porta, tirei uma chave da algibeira, introduzi-a na fechadura e entrei. Encontrei-me, incongruentemente, 
numa espcie de vestbulo de paredes caiadas e limpas, das quais pendiam gravuras de gado escocs. 
Dirigi-me a uma porta que tinha uma aldrava reluzente, bati devagarinho e apareceu uma mulher idosa, de 
cabelo grisalho, culos de modelo muito antigo, saia preta e
uma camisola s riscas verdes, que no podia destoar mais do conjunto do que destoava.
-  voc? - murmurou, sem qualquer outra forma de cumprimento. - Ele perguntou por si, ontem. No estava 
satisfeito. - Abanou a cabea, como uma
velha ama a ralhar com uma criana decepcionante, e
acrescentou: - Tem de se esforar para obter melhores resultados.
- Deixe-se disso, ama.
- No me trate por ama!  preciso atrevimento! J lhe tenho dito...
- A culpa  sua. No deve falar comigo como se eu fosse um rapazinho.
- J era tempo de crescer, j...  melhor entrar e despachar-se. - Carregou num boto, levantou o 
auscultador do telefone e anunciou: - Mister Colin... Sim, vou mand-lo entrar. - Reps o auscultador e
acenou-me com a cabea.
Transpus uma porta do fundo da sala e entrei noutro aposento, to cheio de fumo de charuto que quase no 
se via nada. Quando os meus olhos, a arder, se 

117

habituaram ao ambiente, distingui as volumosas propores do meu chefe, recostado numa velha poltrona 
junto da qual se encontrava uma mesinha assente numa base giratria.
O coronel Beck tirou os culos, afastou a mesinha, em cima da qual estava um grosso volume, e olhou-me 
de modo desaprovador.
-  voc, finalmente?
- Sou, sim.
- Soube alguma coisa?
- No, senhor.
- Ah! Bem, Colin, assim no vale. Assim no vale, ouviu? Crescentes!
- Continuo a pensar o mesmo.
- Est bem, continua a pensar. Mas ns no podemos esperar eternamente, enquanto voc pensa.
- Admito que foi apenas um pressentimento...
- No h mal nenhum nisso.
O coronel Beck era um homem cheio de contradies.
- Os melhores trabalhos que fiz foram inspirados por pressentimentos, mas este seu pressentimento 
parece que no est a dar resultado. J acabou com os
bares?
- J. Como lhe disse, comecei por crescentes... quero dizer, casas em crescentes...
- Tambm no supus que se referisse a padarias especializadas em croissants... embora, afinal, no fosse 
nada de extraordinrio. Alguns desses estabelecimentos fazem ponto de honra em fabricar croissants 
franceses que no so nada franceses. Congelam-nos, como a tudo o mais, hoje em dia.  por isso que 
nada sabe, j, a nada.
Esperei que o velhote desenvolvesse o tpico, que era um dos seus favoritos, mas ele percebeu e dominou-
se.
- J percorreu tudo?
- Quase tudo. Ainda falta um bocadinho.
- Quer mais tempo, no ?
- , quero mais tempo. Mas, de momento, no estou interessado em mudar de terra. Houve uma espcie 
de coincidncia e pode, pode apenas, significar alguma coisa.
- No esteja com rodeios... Apresente-me factos.
- Local de investigao: Wilbraham Crescent.
- E falhou! Ou no?
- No tenho a certeza.
- Esclarea, rapaz, esclarea.
- A coincidncia reside no facto de terem assassinado um homem em Wilbraham Crescent.
- Quem foi assassinado?
- Ainda no se sabe. Tinha na algibeira um carto com um nome e uma morada, mas era falso.
- Hum...  sugestivo. Tem alguma relao com o resto?
- Se tem ainda no a encontrei, mas, mesmo assim...
- Bem sei, bem sei. Mesmo assim... Mas, afinal, que veio c fazer? Pedir autorizao para continuar a 
farejar em Wilbraham Crescent... onde quer que isso seja?
- Fica numa terra chamada Crowdean, a dezasseis quilmetros de Portlebury.
- Sim, sim, uma localidade muito boa. Mas para que est voc aqui? No costuma pedir autorizao, faz o 
que a sua cabea teimosa lhe dita, no ?
- Creio que ...
- Ento de que se trata?
- H umas pessoas que desejaria fossem investigadas.
O coronel Beck suspirou, puxou de novo a mesinha, tirou uma esferogrfica da algibeira e fitou-me.
- Ento?
- Uma casa chamada Diana Lodge, Wilbraham Crescent, vinte. Vive l uma mulher, uma tal Mistress 
Hemming, e uns dezoito gatos.

118 

- Diana? Hum... Deusa da Lua! Diana Lodge. Que faz essa Mistress Hemming?
- Nada. Vive absorvida nos seus gatos.
- Excelente disfarce - comentou o coronel.Podia ser, pelo menos. Mais nada?
- H, tambm, um homem chamado Ramsay, que mora em Wilbraham Crescent, sessenta e dois. Diz ser 
engenheiro de construes, no sei bem o que
seja... e viaja muito pelo estrangeiro.
- Esse agrada-me... agrada-me mesmo muito. Quer saber coisas acerca dele, no  verdade? Muito bem.
- Tem mulher, uma senhora simptica, e dois barulhentssimos rapazes.
- No me espanta. H precedentes. Lembra-se do Pendleton? Tambm tinha mulher e filhos. Uma mulher 
simptica e a mais estpida que jamais conheci. Nunca lhe passou pela cabea que o marido no fosse 
um pilar de respeitabilidade, um honrado negociante de livros orientais. Agora que penso no assunto,
o Pendleton tambm tinha uma mulher alem e duas filhas... assim como uma mulher sua, na Sua. 
Francamente, no sei o que elas representavam, se excessos ntimos, se camuflagem, apenas. Claro que 
ele diria que eram camuflagem... Mas, muito bem, voc quer saber coisas acerca de Mister Ramsay. Mais 
alguma coisa?
- No sei bem... H um casal no nmero sessenta e trs. Ele  professor reformado, chama-se 
McNaughton,  escocs e idoso. Passa o tempo a trabalhar no
jardim. No h motivo nenhum para desconfiar dele e da mulher, mas...
- Est bem, verificaremos. Pass-lo-emos pela mquina, para termos a certeza. A propsito, que  toda 
esta gente?
- So pessoas cujos jardins so contguos ou tocam no da casa onde se deu o assassnio.
- Parece. um jogo francs: Onde est o cadver do meu tio? No jardim do primo da minha tia... E a respeito 
do nmero dezanove?
- Mora l uma mulher cega, antiga professora. Presentemente trabalha num instituto para cegos e 
deficientes e est a ser investigada pela Polcia.
- Vive sozinha?
- Vive.
- E qual  a sua ideia a respeito das outras pessoas?
- A minha ideia  que se uma dessas pessoas cometesse um assassnio em qualquer dessas casas, seria 
fcil, embora arriscado, transferir o cadver para o
nmero dezanove, a uma hora apropriada. No passa de uma simples possibilidade, claro. J agora, 
gostaria de lhe mostrar... isto.
- Um haller checo. Onde o achou?
- No fui eu que o achei. Mas estava no jardim das traseiras do nmero dezanove.
- Interessante. Afinal, talvez essa sua persistente ideia fixa das luas e quartos crescentes tenha alguma 
razo de ser... H um bar chamado Quarto Crescente na rua a seguir a esta. Porque no vai l tentar a 
sorte?
- J l fui.
- Tem resposta para tudo, no tem? Quer um charuto?
- Obrigado, mas hoje no tenho tempo.
- Volta para Crowdean?
- Volto. H o inqurito.
- Ser adiado, apenas. Tem a certeza de que no anda atrs de nenhuma pequena, em Crowdean?
- Claro que tenho a certeza! - repliquei, secamente, e o coronel Beck desatou a rir.
- Tenha cuidado, meu filho! O sexo a empinar a sua hedionda cabea, como de costume... H quanto 
tempo a conhece?
- No h nenhuma... Quero dizer, foi uma rapariga que descobriu o cadver.
- Que fez ela, quando o descobriu?
- Gritou.
- Muito apropriado. Correu para si, chorou no seu ombro e contou-lhe tudo, no foi?

120

- No sei de que est a falar - redargui, friamente. - D uma vista de olhos a isto.
Estendi-lhe um jogo de fotografias.
- Quem ?
- O morto.
- Dez contra um em como essa rapariga que tanto lhe interessa o matou! Toda essa histria me parece 
muito suspeita...
- Como, se ainda no lha contei?
- No preciso que ma conte. V ao seu inqurito, meu rapaz, e tenha cuidado com essa pequena. Ela 
chama-se Diana, ou rtemis, ou qualquer coisa relacionada com luas ou crescentes?
- No.
- Bem, no se esquea de que pode haver sempre qualquer relao.

14

NARRATIVA DE COLIN LAMB

Havia muito tempo que no visitava Whitehaven Mansions. Alguns anos atrs, fora um prdio imponente, de 
apartamentos modernos. Agora erguiam-se de ambos os lados muitos outros ainda mais modernos e 
imponentes. Notei que, no interior, sofrera reparaes recentes e estava pintado de tons suaves de amarelo 
e verde.
Subi no elevador e toquei  campainha do nmero 203. Abriu a porta o impecvel George, cujo rosto se 
iluminou num sorriso de boas-vindas.
- Mister Colin! H quanto tempo no o vamos!
-  verdade. Como est, George?
- Estou bem de sade, felizmente, senhor.
- E ele? - perguntei, mais baixo.
George baixou tambm a voz, embora no fosse praticamente necessrio, pois desde o princpio da nossa 
conversa que falava em tom muito discreto.
- Creio que, s vezes, se sente um pouco deprimido.
Acenei com a cabea, compreensivamente.
George pegou no meu chapu e convidou:
- Por aqui, Mister Colin...
- Anuncie-me como Mister Colin Lamb, por favor.
- Muito bem. - Abriu uma porta e anunciou,
em voz clara: 
- Mister Colin Lamb deseja v-lo. Recuou, para me deixar passar, e eu entrei no aposento.
O meu amigo Hercule Poirot estava sentado na sua habitual poltrona quadrada, defronte da lareira. Reparei 
que um dos elementos do irradiador elctrico rectangular estava ligado. Setembro ainda ia no princpio e 
estava calor, mas Poirot era um dos primeiros homens a sentir o fresco do Outono e precaver-se contra ele. 
No cho, de ambos os lados da poltrona, estavam
diversos livros, bem empilhados, e havia mais livros na mesa,  sua esquerda. A sua direita encontrava-se 
uma chvena fumegante. Uma tisana, supus. Gostava
de tisanas e, s vezes, insistia comigo para que as tomasse, tambm. Tinham um gosto enjoativo e um 
cheiro forte.
- No se levante - pedi, mas Poirot j avanava para mim, de mos estendidas e sapatos de verniz a 
rebrilhar.
- Ah,  voc,  voc, meu amigo! O meu jovem amigo Colin! Mas porque disse que se chamava Lamb? 
Deixe-me pensar... H um provrbio qualquer, do
carneiro vestido com a pele do cordeiro... No, isso
 o que se costuma dizer das velhotas que querem passar por mais novas do que so. Claro que no se 

' Lamb, em ingls, significa cordeiro. (N. da T.)

122

aplica a si. Ah, j sei!  um lobo com pele de cordeiro, no ?
- No. Pensei apenas que, na minha profisso, o meu verdadeiro apelido podia ser prejudicial, podia ser 
facilmente relacionado com o do meu pai. Por isso
escolhi o de Lamb. Curto, simples, fcil de lembrar... e, digo-o sem modstia, de acordo com a minha 
personalidade.
- Oh, a esse respeito, no juraria! Como est o meu bom amigo e seu pai?
- O velhote est ptimo. Muito atarefado com as suas malvas-rosas... ou sero crisntemos? As estaes 
passam to depressa que nunca sei qual  a flor do
momento.
- Ele entretm-se, ento, com a horticultura?
- Parece que toda a gente opta por isso, no fim.
- Eu no! Uma vez dediquei-me s abboras, mas no voltei! Se uma pessoa deseja ter as flores mais 
bonitas, porque no vai a uma florista? Julguei que o
bom superintendente fosse escrever as suas memrias.
- Ele comeou, mas eram tantas as coisas que no podia contar que chegou  concluso de que o resto 
no valia a pena ser contado.
-  necessrio ser discreto...  uma pena, pois o seu pai podia contar algumas coisas muito interessantes. 
Admiro-o muito, sempre admirei. Achava os seus
mtodos muito interessantes, sabe? Era uma pessoa que avanava resolutamente em frente, que sabia 
utilizar o bvio como mais ningum... Preparava uma armadilha, a armadilha mais bvia possvel, e as 
pessoas que queria apanhar diziam: " muito evidente, no pode ser verdade..." E, zs, caam nela!
Ri-me.
- Bem, hoje no  moda os filhos admirarem os pais. Muitos sentam-se, enchem as canetas de veneno, 
recordam todas as coisas desagradveis e feias e escrevem tudo com grande satisfao. Mas eu, 
pessoalmente, tenho um enorme respeito pelo meu velhote. S desejo vir a ser to bom como ele foi... 
embora no tenha exactamente a mesma profisso.
- Mas a que tem est estritamente relacionada com a dele, embora voc tenha de trabalhar nos bastidores 
de modo diferente do dele. - Tossiu delicadamente. - Creio que o devo felicitar pelo seu recente e 
espectacular xito. O caso Larkin...
- J se sabe muito, mas eu gostaria de saber muito mais, para arredondar bem as contas... No foi, no 
entanto, para falar disso que vim.
- Claro que no, claro que no... - Poirot indicou-me uma cadeira e ofereceu-me uma tisana, que recusei 
imediatamente.
George entrou muito a propsito, com uma garrafa de usque, um copo e um sifo, que colocou junto de 
mim.
- E o senhor, que faz? - Olhei para os vrios livros que o cercavam e acrescentei: - Parece que se dedica a 
qualquer espcie de pesquisa...
- Pode chamar-lhe assim - admitiu Poirot, a suspirar. - Sim, talvez, em certo sentido, seja isso. 
Ultimamente tenho sentido uma grande necessidade
de um problema qualquer. Disse para comigo que no
interessava a natureza do problema, que podia ser como o do bom Sherlock Holmes: a que profundidade se 
enterrara a salsa na manteiga? O que importava era
que existisse um problema. Compreende, no so os msculos que preciso exercitar e, sim, as clulas 
cerebrais.
- Compreendo.  tudo uma questo de se manter em forma.
- Exactamente. - Poirot suspirou de novo.Mas, mon cher, os problemas no so fceis de encontrar.  
verdade que, na quinta-feira passada, se me
apresentou um: o indevido aparecimento de trs bocados de casca de laranja seca no receptculo dos 
chapus-de-chuva. Como tinham l ido parar? Como podiam l ter ido parar? Eu no como laranjas e o 
George 

124

jamais poria cascas de laranja no receptculo dos chapus-de-chuva. Tambm era pouco provvel que uma 
visita trouxesse trs bocados de casca de laranja seca. Um problema complicado!
- Resolveu-o?
- Resolvi. - Explicou, com mais melancolia do que orgulho: - No fim, nem sequer foi muito interessante. Um 
caso de substituio da habitual mulher-a-dias. A substituta trouxe com ela, em absoluta desobedincia s 
ordens dadas, um dos seus filhos. Embora no parea interessante, a verdade  que exigiu uma firme 
penetrao numa rede de mentiras, disfarces e tudo o mais. Digamos que foi satisfatrio, mas no 
importante.
- Decepcionante - sugeri.
- Enfin, eu sou modesto... Mas ningum precisa de utilizar um florete para cortar o cordel de um embrulho.
Abanei a cabea, com um ar muito solene, e Poirot prosseguiu:
- Ultimamente, tenho-me entretido a ler vrios mistrios da vida real, que nunca foram decifrados. Aplico-
lhes as minhas solues.
- Refere-se a casos como o do Bravo, de Adelaide Bartlett e todos os demais?
- Exactamente. Mas, em certo sentido, foi demasiado fcil. No restam quaisquer dvidas no meu esprito 
quanto a quem assassinou Charles Bravo. A dama de companhia talvez estivesse implicada, mas no foi, 
com certeza, a alma danada do caso. Temos, tambm, o caso daquela infeliz adolescente, Constance 
Kent. O verdadeiro motivo que a levou a estrangular o irmozinho, a quem sem dvida amava, constituiu 
sempre um quebra-cabeas. Mas deixou de o ser para
mim assim que li a histria. Quanto a Lizzie Borden, s desejaria poder fazer certas perguntas essenciais a 
vrias pessoas. Tenho mais ou menos a certeza de
quais seriam as respostas. Mas, infelizmente, essas pessoas j devem ter morrido todas.
Pensei para comigo, como j me sucedera tantas vezes, que a modstia no era o forte de Hercule 
Poirot...
- E que fiz a seguir? - Calculei que no devia ter tido muito com quem falar, nos ltimos tempos, e que 
estava a gostar de ouvir a sua prpria voz. - Da vida
real passei para a fico. Como v, tenho  minha esquerda e  minha direita vrios exemplos de fico 
policial. Tenho estado a trabalhar de trs para a frente... Olhe... - pegou no livro que pusera no brao da 
poltrona, quando eu entrara -. . meu caro Colin, aqui tem O Caso Leavenworth.
- Deve ter recuado muito... Creio que o meu pai disse ter lido este livro, quando era rapaz, e suponho que 
eu prprio tambm o li. Deve parecer muito fora
de moda, agora.
-  admirvel! Uma pessoa saboreia a sua atmosfera coeva, o seu melodrama estudado e deliberado, as 
deliciosas e exuberantes descries da beleza dourada
de Eleanor e da beleza prateada de Mary...
- Tenho de o reler! J no me lembro das passagens acerca de raparigas bonitas.
- H ainda aquela criada, Hannah, muito bem vista, e o assassino, que constitui um excelente estudo 
psicolgico.
Compreendi que me esperava um sermo e preparei-me para escutar.
- Temos, tambm, As Aventuras de Arsne Lupin. Quanta fantasia, quanta irrealidade e, contudo, quanto 
vigor, quanta vitalidade, quanta vida! So absurdas, mas tm panache! E humor, tambm.
Largou As Aventuras de Arsne Lupin e pegou noutro livro.
- O Mistrio do Quarto Amarelo... Este, ah, este  um verdadeiro clssico! Merece a minha aprovao do 
princpio ao fim. To lgico! Lembro-me de que algumas crticas o acusaram de desleal, meu caro Colin. 
No, no! Quase, talvez, mas quase, apenas. Tem a 

126

sua diferena. H verdade em todo ele, uma verdade porventura oculta pela cuidadosa e inteligente escolha 
das palavras... Tudo devia estar perfeitamente claro no momento supremo em que os homens se encontram 
no ngulo dos trs corredores. - Largou o livro, com reverncia. - Uma verdadeira obra-prima... e, suponho, 
quase esquecido, presentemente.
Poirot saltou por cima de cerca de vinte anos e comeou a falar de autores mais recentes.
- Tambm li algumas das primeiras obras de Mistress Ariadne Oliver. Ela  uma pessoa minha amiga, e 
suponho que sua, mas eu no aprovo inteiramente os
seus trabalhos. Os acontecimentos descritos so muito
improvveis, usa e abusa da coincidncia... e, em virtude de ser muito jovem quando comeou, cometeu a 
tolice de escolher um finlands para detective. Ora 
evidente que ela no sabe nada acerca dos Finlandeses nem da Finlndia, a no ser, talvez, as obras de 
Siblius. No entanto, possui uma mentalidade original,
por vezes apresenta dedues inteligentes, e nos ltimos anos aprendeu muito acerca de coisas que 
anteriormente desconhecia, como, por exemplo, o modo
de agir da Polcia. Agora tambm merece mais confiana no captulo das armas de fogo e, essa 
necessidade ainda se fazia sentir mais!, provavelmente arranjou
um amigo solicitador ou advogado que a esclareceu acerca de certos pormenores jurdicos.
Ps de parte Ariadne Oliver e pegou noutro livro.
- Mister Cyril Quain. Ah, Mister Quain  um mestre na arte do libi!
- Se a memria no me atraioa,  um escritor muito enfadonho.
-  verdade que no acontece nos seus livros nada muito emocionante... - admitiu Poirot. - H um cadver, 
evidentemente, e, de vez em quando, at
mais do que um... Mas o principal  sempre o libi, o horrio dos comboios, o trajecto dos autocarros, o 
traado das estradas. Confesso que aprecio este intrincado emprego do libi... e gosto de tentar apanhar 
Mister Cyril Quain em falta.
- E, provavelmente, consegue-o sempre.
Poirot foi sincero:
- Nem sempre. No, nem sempre... Claro que, ao fim de certo tempo, compreendemos que um livro dele  
quase igual a todos os outros... Os libis assemelham-se, embora no sejam exactamente os mesmos. 
Sabe, mon cher Colin, imagino Cyril Quain sentado na sua sala, a fumar cachimbo, como aparece nas 
fotografias, e rodeado pelo A. B. C., pelo Bradshaw continental, por brochuras das companhias de aviao, 
por horrios de todas as espcies... At por pautas dos
movimentos dos transatlnticos! Diga-se o que se disser, Colin, h ordem e mtodo em Mister Cyril Quain.
Largou o livro de Mr. Quain e pegou noutro.
- Agora temos aqui Mister Garry Gregson, um fecundssimo autor de romances policiais. Creio que 
escreveu pelo menos sessenta e quatro...  quase o oposto
perfeito de Mister Quain. Nos livros de Mister Quain acontecem poucas coisas; nos de Garry Gregson 
acontecem demasiadas e de modo implausvel e confuso. E  tudo muito colorido, melodrama bem 
explorado... Sangue, cadveres, pistas, emoes, amontoa-se tudo numa grande superabundncia,  tudo 
muito sinistro e
muito diferente da realidade. No  dos meus preferidos... Lembra um desses cocktails americanos do tipo 
mais obscuro, cujos ingredientes so muito suspeitos.
Poirot fez uma pausa, antes de reatar a preleco:
- Voltemo-nos agora para a Amrica. - Pegou num livro da pilha da esquerda. - Florence Elks. Aqui h 
ordem e mtodo, muito colorido, mas tambm muito acerto, alegria e vivacidade. Esta senhora tem talento, 
embora, como acontece a tantos escritores americanos, parea um pouco obcecada pela bebida.
Eu sou, como sabe, um connaisseur de vinho. Agrada-me sempre encontrar numa histria um clarete ou 
um 

128

borgonha, com a vintage e a data devidamente autenticadas. Mas a quantidade exacta de usque e Bourbon 
consumida em todas as pginas pelo detective de um
policial americano no me interessa nada. O facto de
ele beber um litro ou meio litro no me parece afectar de modo nenhum a aco da histria. Este motivo do 
lcool nos livros americanos assemelha-se muito ao
que a cabea do rei Carlos foi para o pobre Mister Dick, quando tentou escrever as suas memrias.  
impossvel afast-lo.
- E quanto  escola dos duros?
Poirot afastou a escola dos duros com um gesto de mo, como se afastasse um mosquito importuno.
- A violncia pelo amor da violncia? Desde quando  isso interessante? Vi muita violncia, nos meus 
primeiros tempos de oficial da Polcia. Mais vale
ler um livro de estudo de medicina! Tout de mme, dou  fico policial americana, no seu conjunto, uma 
nota muito elevada. Creio que  mais engenhosa, mais imaginativa do que a inglesa.  menos atmosfrica 
e menos sobrecarregada de ambiente do que a maioria da fico francesa. Veja Louisa O'Malley, por 
exemplo.Pegou noutro livro. - O seu estilo literrio  modelar e erudito, mas quantas emoes, quanta 
apreenso crescente desperta nos leitores! Aquelas manses de arenito de Nova Iorque... Enfin, eu nunca 
soube o
que era uma manso de arenito... Aqueles apartamentos luxuosos, aquele pretensiosismo aristocrata... e, 
no fundo, files insuspeitos de crime seguem os seus caminhos imprevistos. Podia acontecer assim... e 
acontece assim. Louisa O'Malley  uma boa escritora, muito boa, mesmo.
Suspirou, recostou-se na poltrona, abanou a cabea e bebeu o resto da tisana.
- E, depois, h sempre os antigos favoritos...Mais outro livro... - As Aventuras de Sherlock 
Holmesmurmurou, docemente, e acrescentou, cheio de reverncia: - Matre!
- Sherlock Holmes?
- Ah, non, non!  o autor, Sir Arthur Conan Doyle, que sado, e no Sherlock Holmes. Na realidade, estas 
histrias de Sherlock Holmes so muito artificiais, esto cheias de sofismas e so muito foradas. Mas a 
arte de escrever... ah, isso  absolutamente diferente! O prazer da linguagem, a criao, sobretudo, da
magnfica personagem que  o doutor Watson... Ah, isso foi, deveras, um triunfo!
Voltou a suspirar e a abanar a cabea, e murmurou, inspirado, sem dvida, por uma natural associao de 
ideias:
- H muito tempo que no tenho notcias do cher Hastings de quem me tem ouvido falar tantas vezes. Foi 
uma ideia to absurda ir-se enterrar na Amrica
do Sul, onde h constantes revolues!
- No  s na Amrica do Sul que tal acontece. Hoje em dia, h revolues em todo o mundo.
- No falemos da bomba - pediu Poirot. - Se tiver de ser, ser; mas no discutamos o assunto.
- Para ser franco, vim com a inteno de discutir algo muito diferente consigo.
- Ah! Vai-se casar? Estou encantado, mon cher encantado!
- Porque pensou em semelhante coisa? No se trata disso!
- Acontece... acontece todos os dias. 
- Talvez, mas no a mim - afirmei, com veemncia. - Na realidade, vim-lhe contar que se me deparou um 
interessante problema, no campo do assassnio.
- Deveras? Um interessante problema no campo do assassnio... e veio apresentar-mo. Porqu?
- Bem... - senti-me levemente embaraado.Pensei... pensei que gostaria.
Poirot fitou-me, pensativo, e acariciou suavemente o bigode.
- O dono  muitas vezes bondoso com o seu comurmurou, por fim. - Sai com ele, atira-lhe uma bola...

130

Mas o co tambm  capaz de ser bondoso com o
seu dono. Mata um coelho ou um rato e deposita-o aos
ps do dono. E que faz, nessas alturas? Agita a cauda.
No pude deixar de rir.
- Estou a agitar a cauda?
- Creio que est, meu amigo... sim, creio que est.
- Muito bem, e que diz o dono? Quer ver o rato do cozinho? Quer saber tudo a seu respeito?
- Naturalmente. Trata-se de um crime que, na sua opinio, me interessar?
- O que me preocupa  que no faz sentido.
- Impossvel. Tudo faz sentido. Tudo!
- Ento tente encontrar o disto. Eu no consigo. Alis, nem se trata de nada relacionado comigo. Vi-me 
metido no assunto casualmente. Pode, at, tornar-se
tudo muito simples, quando o morto for identificado.
- Est a falar sem ordem nem mtodo - observou Poirot, severamente. - Peo-lhe que me conte os factos. 
Disse que se tratou de um assassnio, no
disse?
- Sim, foi um assassnio. Ora escute...
Descrevi-lhe, em pormenor, o que se passara em Wilbraham Crescent, 19. Hercule Poirot recostou-se, 
fechou os olhos e tamborilou docemente no brao da
poltrona, enquanto eu falava. Quando acabei, deixou passar um longo momento, antes de perguntar:
- Sans blague?
- Oh, absolutamente!
- Espantoso! - repetiu, slaba por slaba, como se saboreasse a palavra: - Espan-to-so! - Depois continuou a 
tamborilar no brao da poltrona e a acenar devagarinho com a cabea.
- Ento? - acabei por perguntar, impaciente.Que tem a dizer?
- Mas que quer que eu diga?
- Quero que me d a soluo. O senhor deu-me sempre a entender que era perfeitamente possvel recostar-
se na cadeira, pensar no assunto e apresentar uma soluo, que era desnecessrio andar a interrogar
pessoas e a procurar pistas.
- Foi essa, sempre, a mnha opinio.
- Bem, prove-o. Apresentei-lhe os factos e agora quero uma resposta.
- Assim sem mais nem menos, hem? Mas  preciso saber muito mais coisas, mon ami. Estamos apenas 
no princpio dos factos, no  verdade?
- Continuo a querer que diga qualquer coisa.
- Compreendo. Uma coisa  certa: deve ser um crime muito simples:
- Simples?! - perguntei, estupefacto.
- Naturalmente.
- Deve ser simples, porqu?
- Porque parece muito complexo. Se tem de parecer, necessariamente, complexo, deve ser simples. 
Compreende?
- No juraria...
- O que me disse foi curioso - murmurou Poirot. - Creio... sim, h algo que me  familiar, nessa histria. 
Onde... quando... vi qualquer coisa?...
- A sua memria deve ser um vasto arquivo de crimes. Mas no se pode lembrar de todos, pois no?
- Infelizmente, no. Mas, de vez em quando, as minhas reminiscncias so teis. Lembro-me de que, em 
Lieja, um fabricante de sabes envenenou a mulher, a fin de casar com uma estengrafa loura. O crime 
formou, digamos, um padro. Mais tarde, muito mais tarde, esse padro voltou a apresentar-se e eu 
reconheci-o. Desta vez tratava-se do rapto de um pequins, mas o padro era o mesmo. Procurei o 
equivalente do fabricante de sabes e da estengrafa loura... e voil! Agora voltei a encontrar no que me 
contou a mesma sensao de reconhecimento.
- Relgios? - sugeri, esperanado. - Falsos agentes de seguros?
- No, no...

132

- Cegas?
- No, no, no. No me confunda.
- Decepcionou-me, Poirot. Pensei que me daria logo a resposta...
- Mas, meu amigo, por enquanto ainda me apresentou, apenas, um padro. H muito mais coisas a 
averiguar. Possivelmente o homem ser identificado,
pois a Polcia  excelente, nessas coisas. Tem os seus cadastros criminais, pode publicar a fotografia do 
indivduo, tem acesso  lista das pessoas desaparecidas, pode mandar examinar cientificamente o 
vesturio do
morto, etc., etc. Tem muitos outros mtodos ao seu
dispor. O homem ser, sem dvida, identificado.
- Portanto, de momento, no h nada a fazer.
 isso que pensa?
- H sempre qualquer coisa a fazer - afirmou Poirot, severamente.
- Como, por exemplo?
- Fale com os vizinhos - ordenou-me, de dedo enfaticamente esticado.
- J falei. Acompanhei Hardcastle, quando ele os interrogou. No sabem nada til.
- Ora, ora! Isso  o que voc pensa, mas eu garanto-lhe que no pode ser assim. Pergunta-lhes se viram 
algo suspeito, eles respondem que no e voc
pensa que est tudo dito. No  a isso que me refiro quando digo que fale com os vizinhos. Fale com eles e 
deixe-os falar consigo. Nas suas conversas encontrar
sempre uma pista, seja onde for. Podem falar dos seus jardins, ou das suas mascotes, um dos seus 
cabeleireiros, ou dos seus alfaiates, ou dos seus amigos, ou das comidas que apreciam... Mas h sempre 
uma palavra
que derrama luz. Disse-me que nessas conversas no houve nada de til, mas eu garanto-lhe que no  
possvel. Se as pudesse repetir por palavra.
- Praticamente, posso, pois estenografei o que se disse, de acordo com o meu papel de "sargento"... 
Mandei dactilografar tudo e trouxe-lhe uma cpia.
Aqui est.
- Ah, mas  um bom rapaz, um excelente rapaz! Procedeu muitssimo bem, muitssimo bem! "Je vous
remercie  infiniment. "
Senti-me deveras embaraado.
- Tem mais algumas sugestes a fazer?
- Tenho sempre sugestes. H a tal rapariga. Pode falar com ela. Visite-a. J so amigos, no so? No a 
apertou nos braos quando ela fugiu, aterrorizada,
da casa onde se deu o crime?
- A leitura de Garry Gregson afectou-o - resmunguei. - Adoptou o estilo melodramtico.
- Talvez tenha razo... Costumamos deixar-nos contagiar pelo estilo da obra que estamos a ler.
- Quanto  rapariga...
Poirot olhou-me interrogadoramente, quando me calei e pediu:
- Continue.
- No gostaria... no quero...
- Ah,  isso! No fundo, cr que ela est de qualquer modo implicada no caso.
- No creio nada! O facto de ela estar presente deveu-se a absoluta e pura coincidncia.
- No, mon ami, no foi pura coincidncia! Sabe muito bem que no foi, e at mo disse. Pediram-lhe pelo 
telefone que comparecesse, mencionaram especificamente o seu nome.
- Mas ela no sabe porqu...
- No pode ter a certeza de que ela no sabe porqu.  muito provvel que saiba e oculte o facto.
- No creio - redargui, obstinado.
- , at, possvel que voc descubra porqu, ao conversar com ela, mesmo que a pequena no tenha 
conscincia da verdade.
- No vejo muito bem como... quero dizer, mal a
conheo...
Poirot fechou de novo os olhos.
- H um momento, no decorrer da atraco entre duas pessoas de sexos opostos, em que essa afirmao 

134

 verdadeira. Suponho que se trata de uma jovem atraente?
- Bem... sim. Muito atraente.
- Falar com ela, visto j serem amigos, e arranjar um pretexto qualquer para voltar a visitar a cega e 
conversar com ela - ordenou-lhe Poirot. - V, tambm, a esse tal gabinete de dactilografia, talvez com a 
desculpa de querer um manuscrito dactilografado, e trave amizade com uma das outras jovens 
empregadas.
Depois de conversar com toda essa gente, visite-me de novo e conte-me tudo quanto lhe disseram.
- Tenha d!
- No  caso para ter d, pois voc vai gostar.
- Parece esquecer que tenho o meu prprio trabalho...
- Trabalhar melhor se se distrair um pouco.
Levantei-me, a rir.
- Bem, o senhor  o mdico! Tem mais alguns conselhos sensatos para me dar? Por exemplo, que pensa 
da estranha histria dos relgios?
Poirot recostou-se na cadeira, fechou os olhos e as palavras que pronunciou foram absolutamente 
inesperadas:
"Chegou o momento, disse a Morsa,
De falar de muitas coisas:
De sapatos... e barcos... e lacre...
E couves... e reis...
E porque ferve o mar...
E se os porcos tm asas."

Abriu os olhos e acenou com a cabea.
- Compreende? - perguntou-me. 
- Citao de "A Morsa e o Carpinteiro", Alice do Outro Lado do Espelho.
- Exactamente. Neste momento,  o melhor que posso fazer por si, mon cher. Medite no assunto.

136

15

Foi grande a afluncia de pblico ao inqurito.
Emocionada por ter havido um assassnio no seu seio, Crowdean compareceu com grandes esperanas de 
revelaes sensacionais. No entanto, os resultados no
poderiam ser menos negativos. Sheila Webb escusava de ter receado a provao que a esperava, pois em 
me nos de dois minutos estava despachada.
Tinham telefonado para o Gabinete Cavendish a mand-la apresentar-se em Wilbraham Crescent, 19;
ela apresentara-se e, de acordo com as instrues recebidas, entrara na sala. Encontrara o morto e fugira 
da casa a gritar, para pedir auxlio. No houve perguntas nem especulaes. Miss Martindale, tambm 
chamada
a prestar declaraes, despachou-se ainda mais depressa. Recebera um telefonema supostamente feito 
por Miss Pebmarsh, a pedir que mandasse uma estenodactilgrafa, de preferncia Miss Sheila Webb, a 
Wilbra ham Crescent, 19, e a dar determinadas instrues. Ela tomara nota da hora exacta do telefonema: 
13.49 h.
Miss Pebmarsh, chamada a seguir, negou terminantemente que, no dia em questo, tivesse telefonado ao 
Gabinete Cavendish a pedir que lhe enviassem uma
dactilgrafa.
As palavras do detective-inspector Hardcastle foram breves e desprovidas de qualquer emoo: depois de 
receber um telefonema, fora a Wilbraham Cres cent, 19, onde encontrara o cadver de um homem.
- Conseguiu identificar o morto? - perguntou-lhe o juiz de instruo.
- Ainda no, excelncia. Por esse motivo, solicito que este inqurito seja adiado.
- Muito bem.
Seguira-se o depoimento mdico. O Dr. Rigg, cirurgio da Polcia, identificou-se, apresentou as suas 
qualificaes e descreveu a sua chegada a Wilbraham
Crescent, 19, e o exame que fizera ao morto.

137

- Pode indicar aproximadamente a hora da morte, doutor?
- Examinei-o s trs e meia da tarde. Calculo que a morte se verificou entre a uma e meia e as duas e 
meia.
- No pode ser mais preciso?
- Prefiro no me arriscar.  primeira vista, a hora mais aproximada seriam as duas horas, ou talvez antes, 
mas h muitos factores que devem ser tomados
em considerao: idade, estado de sade, etc.
- Efectuou uma autpsia?
- Efectuei.
- Qual foi a causa da morte?
- O homem foi apunhalado com uma faca fina e afiada, algo do gnero, talvez, uma faca de cozinha 
francesa, de lmina cnica. A ponta da faca penetrou... - O mdico entrou em pormenores tcnicos, ao 
explicar a maneira exacta como a faca penetrara no corao.
- A morte ter sido instantnea?
- Deve ter ocorrido num espao de muito poucos minutos.
- Seria possvel o homem gritar ou debater-se?
- Nas circunstncias em que foi apunhalado, no.
- Importa-se de nos explicar o que quer dizer com essa frase?
- Examinei certos rgos e procedi a determinadas anlises.  meu parecer que, quando o mataram, se 
encontrava em estado de coma, devido  administrao de uma droga.
- Sabe-nos dizer de que droga se tratou?
- Sei. Hidrato de cloral.
- Sabe-nos dizer como foi administrada?
- Presumivelmente misturada com qualquer espcie de lcool. O efeito do hidrato de cloral  muito rpido.
- Creio que  conhecido em certos meios por "Michey Finn" - observou o juiz de instruo.
-  verdade. A vtima deve t-lo bebido sem suspeitar e, passados momentos, cambaleou e ficou 
inconsciente.
- E, na sua opinio, foi apunhalado enquanto estava inconsciente?
-  essa a minha convico. Isso explicaria a ausncia de indcios de luta e o aspecto sereno da vtima.
- Quanto tempo depois de ficar inconsciente o mataram?
- Mais uma vez, no posso ser exacto, pois isso depende, tambm, da idiossincrasia da vtima. No 
despertaria antes de meia hora e poderia permanecer inconsciente muito mais tempo.
- Obrigado, doutor Rigg. Tem alguma indicao quanto ao momento em que o morto comera pela ltima 
vez?
- Sei que no almoara. Havia pelo menos quatro horas que no ingeria alimentos slidos.
- Obrigado, doutor. Creio que no desejo mais nada.
O juiz de instruo olhou  roda da sala e anunciou:
- O inqurito fica adiado por quinze dias, at vin te oito de Setembro.
Concluda a audincia, as pessoas comearam a sair. Edna Brent, que estivera presente com a maioria 
das outras empregadas do Gabinete Cavendish, o qual
fechara durante a manh, hesitou, ao sair. Maureen West, uma das suas colegas, perguntou-lhe:
- Que dizes, Edna? Vamos almoar ao Bluebird? Temos muito tempo... Pelo menos tu tens.
- No tenho mais tempo do que tu - redargiu Edna, ofendida. - A Sandy Cat disse-me que apro veitasse o 
primeiro intervalo para almoar.  uma esganada! Eu a pensar que disporia de uma hora para fazer umas 
compras...
- No seria de esperar outra coisa dela. , de facto, uma esganada. Abrimos s duas e temos de estar 
todas presentes. Ests  espera de algum?

138

- Da Sheila, apenas. No a vi sair.
- Saiu mais cedo, depois de prestar declaraes - informou Maureen. - Saiu com um rapaz novo, mas no vi 
quem ele era. Vens ou no?
Edna continuou hesitante.
- Vai andando... Preciso de comprar umas coisas.
Maureen afastou-se com outra rapariga. Edna deixou-se ficar e, por fim, encheu-se de coragem e perguntou 
ao jovem polcia louro que se encontrava  entrada:
- Posso entrar outra vez e falar ao... ao que foi ao escritrio? Era um inspector qualquer coisa...
- Inspector Hardcastle?
- Exactamente. Prestou declaraes esta manh.
- Bem... - O polcia olhou para dentro e viu o inspector muito entretido a conversar com o juiz de instruo e 
o chefe de Polcia do condado. - Ele parece ocupado, neste momento. Se passar mais tarde pela esquadra, 
ou se me quiser dar algum recado para lhe transmitir...  alguma coisa importante?
- No, na realidade no  importante... Apenas... enfim, no compreendo como pode ser verdade o que ela 
disse, porque eu...
Virou as costas, de testa franzida, e meteu, perplexa, pela High Street. Esforava-se por raciocinar, coisa 
que nunca fora o seu forte. Quanto mais tentava recordar-se das coisas com clareza, maior era a confuso 
do
seu esprito.
A certa altura, murmurou, audivelmente:
- No podia ter sido assim... No podia ter sido como ela disse.
De sbito, como se acabasse de tomar uma deciso, passou da High Street para a Albany Road e seguiu 
na direco de Wilbraham Crescent.
Desde que os jornais tinham anunciado um assassnio em Wilbraham Crescent, 19, juntavam-se todos os 
dias grandes multides de curiosos, para verem a casa
fatdica. O fascnio que, em certas circunstncias, simples tijolos e argamassa exercem no esprito do 
pblico,  uma coisa deveras misteriosa. Nas primeiras vinte e quatro horas fora necessrio destacar para 
l um polcia, que mandava as pessoas dispersar, de modo autoritrio. Depois o interesse diminura, mas 
no cessara de todo. As furgonetas dos distribuidores de produtos ao domiclio afrouxaram um pouco a 
velocidade, ao passar; mulheres com carrinhos de beb paravam quatro ou cinco minutos no passeio 
fronteiro, de olhos
postos na imaculada residncia de Miss Pebmarsh;
mulheres carregadas de cestos de compras paravam, de olhar vido, e tagarelavam umas com as outras...
- Foi naquela casa... naquela ali...
- O corpo estava na sala... No, creio que a sala  a diviso da frente, do lado esquerdo...
- O merceeiro disse-me que foi na do lado direito.
- Talvez. Estive no nmero dez, e lembro-me perfeitamente de que a casa de jantar ficava do lado direito e a 
sala do esquerdo...
- Nem parece que a rapariga saiu a gritar desalmadamente...
- Dizem que ele entrou por uma janela das traseiras. Estava a meter as pratas num saco quando a pequena 
entrou e o encontrou...
- A dona da casa  cega, coitada... Por isso, claro, no sabia o que se estava a passar...
- Oh, mas ela no estava l nessa altura!
- Julguei que estava. Julguei que estava no primeiro andar e o ouviu... Oh, meu Deus, tenho de acabar de 
fazer as compras!
Ouviam-se a toda a hora conversas como estas, ou parecidas. Como que atradas por um magnate, 
chegavam a Wilbraham Crescent as pessoas mais inesperadas, que paravam, olhavam e seguiam o seu 
caminho, depois de satisfeita qualquer necessidade interior.
Foi a que, ainda intrigada, Edna Brent se encontrou, a acotovelar um pequeno grupo de cinco ou seis 

140

pessoas entregues ao passatempo favorito de olhar para "a casa do crime".
Sempre sugestionvel, Edna, olhou, tambm.
Fora, ento, ali! Bonitas cortinas nas janelas, um ar muito decente... e, contudo, tinham l assassinado um 
homem com uma faca de cozinha. Uma vulgar faca de cozinha... Quase toda a gente tinha uma faca de 
cozinha. ..
Fascinada pelo comportamento das pessoas que a cercavam, Edna olhou, tambm, e deixou de pensar... 
J quase esquecera o que a levara ali...
Estremeceu, ao ouvir uma voz falar-lhe ao ouvido, e virou a cabea, surpreendida, ao reconhecer a voz.

16

NARRATIVA DE COLIN LAMB

Notei quando Sheila Webb saiu tranquilamente do tribunal. Depusera muito bem, um bocadinho nervosa, 
mas sem exagero. Parecera, de facto, muito natural. Que diria Beck? "Excelente desempenho!" Parecia-
me ouvi-lo!
Ouvi, surpreendido, o fim do depoimento do Dr. Rigg, Dick Hardcastle no me dissera nada, mas devia 
sab-lo, e sa, atrs dela.
- Afinal no custou muito, pois no? - perguntei-lhe, quando a alcancei.
- No. Foi, at, fcil. O juiz de instruo foi muito simptico. - Hesitou, antes de perguntar:Que suceder, a 
seguir?
- O inqurito ser adiado, at se recolherem mais provas. Possivelmente durante quinze dias ou at 
identificarem o morto.
- Pensa que o identificaro?
- Oh, sim! No tenho dvidas nenhumas a esse respeito. 
- Hoje est frio - murmurou, com um pequeno calafrio.
Pessoalmente, parecia-me que estava, at, um pouco quente.
- Que diz a um almoo mais cedo do que o costume? - sugeri. - No tem de voltar para o escritrio, pois 
no?
- No. Est fechado at s duas horas.
- Ento venha da. Gosta de comida chinesa? H um restaurantezinho chins ao fim da rua...
Sheila hesitou.
- Preciso de fazer umas compras...
- Pode faz-las depois.
- No posso, pois algumas das lojas fecham da uma s duas.
- Nesse caso, encontra-se comigo mais tarde? Daqui a meia hora, est bem?
Respondeu que sim.
Fui at  beira-mar e sentei-me num abrigo. A brisa marinha batia-me em cheio, de frente.
Precisava de pensar.  sempre irritante verificar que outras pessoas sabem mais do que ns acerca de ns 
prprios, mas a verdade  que o velho Beck, Hercule Poirot e Dick Hardcastle tinham visto claramente o 
que me via, agora, forado a admitir.
Interessava-me por aquela rapariga, interessava-me como nunca me interessara por nenhuma.
No era a sua beleza. Ela era bonita de um modo especial, mas apenas bonita, mais nada. Tambm no 
era o seu sex appeal. J encontrara isso muitas vezes e
estava imunizado.
Tratava-se, somente, do seguinte: reconhecera, quase mal a conhecera, que era a minha pequena. E no 
sabia absolutamente nada a seu respeito!
Passavam poucos minutos das duas horas quando entrei na esquadra e perguntei por Dick. Encontrei-o 

142

sentado  secretria, s voltas com a papelada. Levantou a cabea e perguntou-me o que pensava do 
inqurito.
Respondi-lhe que me parecera muito decente e cavalheiresco.
- Temos muito jeito para estas coisas, no nosso pas - rematei.
- Que pensou do depoimento mdico?
- Uma surpresa. Porque no me tinha dito?
- Voc no estava c. Consultou o seu especialista?
- Consultei.
- Creio que me lembro vagamente dele. Uns grandes bigodes...
- Grandssimos. So o seu orgulho.
- Deve ser muito velho.
-  velho, mas no est gag.
- Que motivo o levou, na realidade, a visit-lo? Foi apenas por generosidade humana?
- Tem uma mentalidade muito desconfiada, de polcia, Dick. Foi principalmente por generosidade, mas 
confesso que tambm me inspirou uma certa dose
de curiosidade. Desejava ouvir o que tinha a dizer acerca do nosso caso. Sempre afirmou, com o que me 
pareceu um grande descaramento, ser fcil decifrar
qualquer mistrio criminal. Bastava recostar-se na cadeira, juntar simetricamente as pontas dos dedos, 
fechar os olhos e pensar. Quis p-lo  prova.
- E ento, ele recostou-se na cadeira, etc., etc.?
- Exactamente.
- E que disse? - inquiriu Dick, com certa curiosidade.
- Disse que devia ser um assassnio muito simples.
- Muito simples, meu Deus! - exclamou Hardcastle, indignado. - Simples porqu?
- Tanto quanto me foi dado compreender, porque se apresentava de modo to complexo.
- No percebo. - Dick abanou a cabea. - Parece uma daquelas coisas muito inteligentes que os jovens de 
Chelsea dizem, mas que eu no percebo. Mais
alguma coisa?
- Recomendou-me que falasse com os vizinhos e eu garanti-lhe que j se fizera isso.
- Os vizinhos so, agora, ainda mais importantes, em virtude do depoimento mdico.
- Isso significa presumir-se que o tipo foi drogado em qualquer outro lado e transferido para o nmero 
dezanove, a fim de ser assassinado? - As palavras recordaram-me um pormenor: - Tem graa, isto foi, mais 
ou menos, o que Mistress... a mulher dos gatos disse. Na altura pareceu-me uma observao muito 
interessante.
- Oh, aquela gataria! - exclamou Dick, com um calafrio de repugnncia. - A propsito, ontem encontrmos a 
arma.
- Sim? Onde?
- Na gataria. Presumivelmente o assassino atirou-a para l, depois do crime.
- No tinha impresses digitais, claro?
- Fora cuidadosamente limpa e podia pertencer a qualquer pessoa. Um bocadinho usada e afiada h pouco 
tempo.
- Podemos supor, ento, que ele foi drogado e depois levado para o nmero dezanove... num automvel? 
Ou como?
- Podia ter sido levado de uma das casas com jardim contguo.
- Seria um bocadinho arriscado, no seria?
- Exigiria audcia e bom conhecimento dos hbitos da vizinhana. Seria mais natural transportarem-no de 
carro.
- O que no deixaria, tambm, de ser arriscado. As pessoas reparariam num automvel.
- Ningum reparou. Admito, no entanto, que o assassino no podia adivinhar se reparariam ou no.

144

Qualquer transeunte poderia notar se, no dia em questo, estivesse um carro parado defronte do nmero 
dezanove...
- Pergunto a mim mesmo se notaria. Est toda a gente to habituada aos automveis! A no ser, 
evidentemente, que se tratasse de um carro luxuoso e fora do vulgar, o que  pouco provvel.
- Alm disso, foi na hora do almoo. J pensou, Colin, que Miss Millicent Pebmarsh volta  cena? Pareceu 
descabido que uma cega pudesse apunhalar um
homem saudvel, mas se ele estava drogado...
- Por outras palavras, ccse ele foi l para ser "morto", como a nossa Mistress Hemming disse, chegou sem 
qualquer suspeita, de acordo com uma entrevista
previamente marcada, aceitou um copo de xerez ou um cocktail... o "Michey Finn" fez efeito e Miss 
Pebmarsh deitou mos  obra. Depois lavou o copo da droga, arranjou o corpo muito bem, no cho, atirou a 
faca para o quintal da vizinha e saiu, como de costume.
- Telefonou, de caminho, ao Gabinete Cavendish...
- Mas para que faria semelhante coisa? E porque pediria, especialmente, Sheila Webb?
- Quem me dera saber! Ela sabe? Refiro-me  pequena.
- Ela diz que no.
- Ela diz que no! - repetiu Hardcastle, irritado. - Pergunto-lhe o que pensa voc do assunto?
Fiquei calado, uns momentos. Que pensava? Tinha de decidir, imediatamente, o meu curso de aco. A 
verdade descobrir-se-ia, no fim, e Sheila no seria
prejudicada, se era o que eu julgava.
Bruscamente, tirei um postal da algibeira e pu-lo em cima da secretria.
- Sheila recebeu isto pelo correio.
Tratava-se de um postal ilustrado de uma srie dedicada aos edifcios de Londres e representava o Tribunal 
Criminal Central. Hardcastle virou-o. Do lado
direito estava o endereo, em letras de imprensa muito certinhas, Miss R. S. Webb, Palmerston Road, 14, 
Crowdean, Sussex, e do lado esquerdo, tambm em
letras de imprensa, a palavra LEMBRE-SE! e, mais abaixo, 4.13.
- Quatro e treze... - murmurou Hardcastle.Era a hora indicada pelos relgios, naquele dia. O Old Bailey, a 
palavra "lembre-se!" e uma hora: quatro e
treze. Deve-se relacionar com qualquer coisa.
- Ela afirma no saber o que significa, e eu acredito.
Hardcastle acenou com a cabea.
- Guardo isto. Talvez nos permita descobrir alguma coisa.
- Espero que sim. - Havia um certo embarao, entre ns, e por isso acrescentei, para tentar desanuviar a 
atmosfera: - Tem a muita papelada.
- O costume. A maior parte no presta para nada. O morto no tinha registo criminal e, portanto, as suas 
impresses digitais no esto arquivadas. Praticamente, tudo isto foi enviado por gente que diz t-lo 
reconhecido.
Leu algumas passagens:
- "Caro senhor: Tenho quase a certeza de que a fotografia publicada no jornal era de um homem que vi outro 
dia apanhar um comboio em Willesden. Falava sozinho e parecia muito excitado. Mal o vi, pensei que se 
passava qualquer coisa..." "Caro senhor: Creio que o homem se parece muito com um primo do meu
marido, chamado John. Emigrou para a Africa do Sul, mas  possvel que tenha regressado. Usava bigode, 
quando partiu, mas, claro, podia t-lo rapado..." "Caro senhor: Vi o homem da fotografia numa composio 
do metropolitano, a noite passada. Pareceu-me, nessa altura, haver nele algo estranho. .. " Para no falar, 
claro, de todas as mulheres que reconhecem o

146

marido. Palavra, as mulheres parecem desconhecer o verdadeiro aspecto dos maridos! Tambm h 
algumas mes que julgam reconhecer um filho que no viam h
vinte anos... Isto  uma lista de pessoas desaparecidas,
mas no contm nada que nos ajude. "George Barlow,
sessenta e cinco anos, desaparecido de casa. A mulher
receia que tenha perdido a memria.v E uma nota, a seguir: "Deve muito dinheiro e tem sido visto com uma 
viva ruiva.  quase certo que fugiu propositadamente." Outro: "Professor Hargraves, que devia proferir uma 
conferncia na tera-feira passada. No compareceu nem mandou nenhum telegrama nem carta de 
desculpas."
Hardcastle pareceu no ligar importncia ao professor Hargraves.
- Deve ter pensado que a conferncia era na semana anterior ou na semana seguinte. Naturalmente julgou 
que disse  governanta aonde ia, mas no disse.
Acontecem muitos casos assim.
O telefone tocou e Hardcastle atendeu:
- Sim... O qu?!... Quem o encontrou?... Disse o nome?... Compreendo, continue.
Desligou e olhou para mim. O seu rosto modificara-se, estava muito srio e exprimia uma fria malcontida.
- Encontraram uma rapariga morta numa cabina telefnica de Wilbraham Crescent - anunciou.
- Morta? Como?
- Estrangulada. Com o seu prprio leno de pescoo!
Senti-me gelar subitamente.
- Que rapariga? No ...
Hardcastle lanou-me um olhar frio e perscrutador, que no me agradou, e respondeu:
- Tranquilize-se, no  a sua namorada. O polcia parece saber de quem se trata, disse que era uma 
rapariga que trabalhava no mesmo escritrio de Sheila Webb e se chamava Edna Brent.
- Quem a encontrou? O polcia?
- Miss Waterhouse, a mulher do nmero dezoito.
Parece que foi  cabina para telefonar, em virtude de o seu telefone estar avariado, e encontrou a pequena 
cada.
A porta abriu-se e um polcia informou:
- O doutor Rigg telefonou a dizer que ia a caminho, inspector. Encontrar-se- consigo em Wilbraham 
Crescent.

17

Hora e meia depois, o detective-inspector Hardcastle sentou-se  secretria e aceitou, aliviado, uma 
chvena de ch. O seu rosto ainda conservava a mesma
expresso furiosa.
- Inspector, Pierce desejava falar-lhe.
- Pierce? Ah, sim, mande entrar!
Entrou um polcia novo e muito nervoso.
- Desculpe, senhor inspector, mas achei que seria melhor dizer-lhe...
- Dizer-me o qu?
- Depois do inqurito, eu estava de servio  porta. A pequena... a que mataram... falou comigo.
- Falou consigo, hem? E que lhe disse?
- Queria falar com o senhor inspector...
Hardcastle endireitou-se, subitamente interessado.
- Queria falar comigo? E explicou porqu?
- No... Lamento, senhor inspector, se... se no fiz o que devia. Perguntei-lhe se no me podia deixar 
qualquer recado ou... ou vir  esquadra, mais tarde.
O senhor inspector estava a conversar com o chefe de Polcia e com o juiz de instruo e eu pensei...
- Bolas! - interrompeu-o Hardcastle, entredentes. - No lhe podia ter dito que esperasse at eu estar livre?

148

- Peo desculpa, senhor inspector... - O jovem corou. - Se eu adivinhasse, teria procedido assim, mas no 
pensei que fosse importante... Creio que ela
prpria no pensava que fosse importante. Disse que se tratava de qualquer coisa que a preocupava...
- Qualquer coisa que a preocupava? - repetiu o inspector, e ficou calado, a recordar certos pormenores.
Tratava-se da rapariga que se cruzara com ele na rua, quando se dirigia a casa de Mrs. Lawton, da rapariga 
que quisera falar com Sheila Webb, que o reconhecera, ao passar por ele, e hesitara um momento, como 
se no soubesse se o deveria deter ou no... Ela devia estar preocupada com qualquer coisa e ele falhara, 
no compreendera com a rapidez necessria. Absorto no seu objectivo de descobrir um pouco mais acerca 
dos antecedentes de Sheila Webb, ignorara um
indcio que, pelos vistos, era importante. A pequena estava preocupada... Porqu? Provavelmente nunca o 
saberiam.
- Continue, Pierce, conte-me tudo quanto se lembrar. - E acrescentou bondosamente, pois era um homem 
justo: - Voc no podia adivinhar que era importante.
Sabia que no valeria a pena descarregar a sua clera e a sua frustrao no pobre do rapaz. Como podia 
ele ter adivinhado? Parte do treino que recebera consistira precisamente em prepar-lo para saber manter a 
disciplina, para se certificar de que os seus superiores s eram incomodados em momentos e lugares 
convenientes e oportunos. Se a pequena tivesse dito que era
importante ou urgente, seria diferente. Mas ele recordava-se da primeira vez que a vira, no escritrio, e 
sabia que ela no pertencia a esse gnero. Era uma criatura de raciocnio lento, provavelmente sem 
confiana no seu prprio processo mental.
- Lembra-se do que se passou, exactamente, e do que ela lhe disse, Pierce?
O moo fitou-o cheio de gratido e respondeu:
- Bem, senhor inspector, ela aproximou-se, quando todos saam, hesitou um momento e olhou  sua volta, 
como se procurasse algum. Mas no creio que
fosse o senhor inspector; devia ser qualquer outra pessoa. Depois foi ter comigo e perguntou-me se podia 
falar com o inspector, com o que prestara declaraes.
Eu vi, como j disse, que o senhor inspector estava ocupado, com o chefe de Polcia, e expliquei-lhe que, 
naquele momento, no a podia atender. Mas perguntei-lhe se no me queria deixar nenhum recado ou se 
no podia ir, mais tarde,  esquadra. Parece-me que ela disse que estava bem. Perguntei-lhe se era 
alguma coisa importante...
- E ela? - perguntou Hardcastle, todo inclinado para a frente.
- Disse que no, que se tratava de uma coisa que no compreendia como poderia ser como ela dissera.
- No compreendia como o que ela dissera poderia ser assim? - interpretou Hardcastle.
- Sim, senhor inspector. No tenho a certeza das palavras exactas, mas suponho que foram: "No 
compreendo como o que ela disse pode ser verdade." Estava de testa franzida e parecia intrigada. Mas eu 
perguntei-lhe se era importante e ela respondeu que no.
A rapariga dissera que no era importante... a mesma rapariga que, pouco depois, fora encontrada 
estrangulada, numa cabina telefnica...
- Estava algum perto, quando ela falou consigo?
- Estavam muitas pessoas, que vinham a sair. Foi muita gente assistir ao inqurito, pois o assassnio 
despertou muita curiosidade, sobretudo por causa da maneira como os jornais se lhe referiram...
- No se lembra de algum em especial, que estivesse perto? Por exemplo, alguma das pessoas que 
prestaram declaraes?
- Infelizmente, no me lembro de ningum em especial, senhor inspector.

150

- Pacincia. Est bem, Pierce, pode ir. Se se lembrar de mais alguma coisa, informe-me imediatamente.
O inspector tentou dominar a sua clera crescente, as culpas que sentia. A pequena, aquela rapariga com 
cara de coelho, soubera alguma coisa... Enfim, talvez no soubesse, mas vira ou ouvira qualquer coisa que 
a
preocupara. E a preocupao aumentara, depois de ter assistido ao inqurito. Que seria? Algo relacionado 
com as declaraes feitas? Algo relacionado com as declaraes de Sheila Webb, provavelmente... Fora a 
casa de Mrs. Lawton, dois dias antes, a fim de falar com Sheila. Mas porque no falara com ela no 
escritrio? Porque desejara falar-lhe em particular? Saberia alguma coisa acerca de Sheila que a intrigava? 
Desejaria pedir a Sheila uma explicao, mas uma explicao particular, sem ser  frente das outras 
colegas? Assim
parecia. Sim, assim parecia...
Depois de mandar Pierce embora, deu algumas instrues ao sargento Cray.
- Que ter a pequena ido fazer a Wilbraham Crescent? - perguntou-lhe o sargento.
- Tambm tenho estado a pensar nisso.  possvel, evidentemente, que se tratasse de simples curiosidade, 
que quisesse ver a casa...  uma reaco natural; metade da populao de Crowdean parece sentir o 
mesmo.
- A quem o diz, inspector!
- Por outro lado, tambm pode ter ido visitar algum que l more...
Quando o sargento saiu, o inspector escreveu trs nmeros no seu mata-borro, cada um com um ponto de 
interrogao  frente: "20?" "19?" "18?" A seguir
escreveu os nomes correspondentes: Hemming, Pebmarsh, Waterhouse. As trs casas do crescente 
superior estavam fora de causa; se quisesse visitar uma delas. Edna Brent no iria pela estrada inferior.
Hardcastle estudou as trs possibilidades.
Comeou pelo nmero 20. A faca utilizada no primeiro assassnio fora l encontrada. O mais provvel 
parecia ser que tivesse sido atirada do jardim do 19, mas no tinham a certeza a esse respeito. Podia ter
sido atirada para o meio dos arbustos pela prpria moradora do nmero 20. Ao ser interrogada, a nica 
reaco de Mrs. Hemming, fora de indignao: "Que
maldade, atirarem uma faca to afiada aos meus gatos!" Que relao havia entre Mrs. Hemming e Edna 
Brent? Nenhuma.
O inspector considerou, a seguir, Miss Pebmarsh.
Edna Brent teria ido a Wilbraham Crescent a fim de visitar Miss Pebmarsh? Esta prestara declaraes, no 
inqurito... Teria dito alguma coisa que despertara
suspeitas a Edna? Mas a pequena j estava preocupada
antes do inqurito. J saberia, ento, alguma coisa acerca da cega? Saberia, por exemplo, da existncia 
de um lao qualquer entre Millicent Pebmarsh e Sheila
Webb? Isso coadunar-se-ia com as palavras que dissera a Pierce: "No compreendo como o que ela disse 
possa ser verdade."
"Conjecturas, s conjecturas!", pensou, furioso.
E o nmero 18? Miss Waterhouse encontrara o cadver. Por deformao profissional, o inspector 
desconfiava das pessoas que encontravam cadveres.
Encontrar o cadver evitava tantas dificuldades ao assassino! Poupava as maadas de arranjar um libi; 
justificava o aparecimento de quaisquer possveis impresses digitais... De certo modo, era uma excelente
situao... desde que no existisse nenhum mbil
evidente. Ora aparentemente, no havia nenhum motivo para Miss Waterhouse desejar matar Edna Brent, 
Miss Waterhouse no depusera no inqurito,
mas talvez tivesse assistido. "Teria Edna alguma razo para saber, ou supor, que fora Miss Waterhouse 
que se fizera passar por Miss Pebmarsh e pedira,

152

telefonicamente, que mandassem uma estenodactilgrafa ao nmero 19?
Mais conjecturas!
Havia, evidentemente, a prpria Sheila Webb...
Hardcastle estendeu a mo para o telefone e ligou para o hotel onde Colin Lamb estava hospedado. Pouco 
depois, falava com o amigo.
- Hardcastle. Que horas eram quando almoou com Sheila Webb?
Seguiu-se uma pausa, antes de Colin redarguir:
- Como sabe que almomos juntos?
- Desconfio. Almoaram, no almoaram?
- Porque no havia de almoar com ela?
- No se trata disso. Perguntei-lhe apenas a que horas foi. Foram almoar assim que terminou o inqurito?
- No. Ela precisava de fazer umas compras e ns encontrmo-nos no restaurante chins da Market Street 
 uma hora.
- Hum... - Hardcastle consultou os seus apontamentos e verificou que Edna Brent morrera entre o meio-dia 
e meia e a uma hora.
- No quer saber o que comemos?
- No se abespinhe. S quis saber a hora exacta.  uma questo de rotina.
- Compreendo.
Seguiu-se nova pausa. Por fim o inspector disse, a tentar aliviar a tenso:
- Se no tem nada que fazer esta noite...
Mas o outro interrompeu-o:
- Vou-me embora. Estou a fazer as malas. Esperava-me uma ordem de marcha para o estrangeiro.
- Quando volta?
- Sabe-se l! Talvez daqui a uma semana, talvez mais tarde... talvez nunca! No tenho a certeza - 
respondeu Colin, e desligou.

18

Hardcastle chegou a Wilbraham Crescent, 19, precisamente quando Miss Pebmarsh vinha a sair.
- Conceda-me um momento, Miss Pebmarsh.
- ...  o inspector Hardcastle, no ?
- Sou. Posso falar consigo?
- No quero chegar tarde ao Instituto. Ser demorado?
- Trs ou quatro minutos, apenas.
A cega voltou para dentro e o inspector seguiu-a.
- J ouviu contar o que sucedeu esta tarde?
- Sucedeu alguma coisa?
- Julguei que soubesse. Mataram uma rapariga na cabina telefnica do fundo da estrada.
- Mataram? Quando?
- H duas horas e trs quartos - respondeu o inspector, ao olhar para o relgio de p.
- No ouvi dizer nada. - Na voz de Miss Pebmarsh soou momentaneamente uma espcie de clera, como 
se a sua incapacidade se fzesse sentir, de sbito,
de uma maneira particularmente dolorosa. - Uma rapariga assassinada! Quem foi?
- Chamava-se Edna Brent e trabalhava no Gabinete Cavendish.
- Outra rapariga de l! Tambm fora mandada chamar, como essa Sheila... no sei qu?
- Creio que no. Ela no a veio visitar, aqui a casa?
- Aqui? Evidentemente que no.
- Estaria c, se ela tivesse vindo?
- No tenho a certeza. A que horas disse que foi?
- Cerca do meio-dia e meia hora, ou um pouco mais tarde.
- Sim, a essa hora estaria em casa.
- Aonde foi, depois do inqurito?
- Vim direita a casa. - Deixou passar um

154

momento e perguntou, por sua vez: - Porque pensou
que essa pequena me podia ter visitado?
- Bem, esteve no inqurito, esta manh, viu-a l e deve ter tido qualquer motivo para vir a Wilbraham 
Crescent. Que saibamos, no conhecia ningum desta
rua.
- Mas por que motivo me viria visitar, s por me ter visto no inqurito?
- Bem... - O inspector sorriu, mas ao compreender que Miss Pebmarsh no o via tentou impregnar as 
palavras desse sorriso: - Nunca se sabe do que as jovens so capazes. Talvez quisesse apenas um 
autgrafo, ou qualquer coisa desse gnero.
- Um autgrafo! - exclamou a cega, com desdm. - Enfim, talvez a ideia no seja to despropositada como 
parece; essas coisas acontecem, realmente.Abanou a cabea e acrescentou: - Garanto-lhe no entanto, 
inspector, que hoje no aconteceu. Ningum veio a minha casa desde que regressei do inqurito.
- Obrigado, Miss Pebmarsh. Achmos que devamos averiguar todas as possibilidades.
- Que idade tinha ela?
- Dezanove anos, suponho.
- Dezanove? To nova! - A sua voz modificou-se um pouco. - To nova... Pobre criana! Mas quem desejaria 
matar uma rapariga dessa idade?
- Tambm so coisas que acontecem.
- Era bonita, atraente... sexy?
- No. Gostaria de ser, creio, mas no era.
- Ento no foi por isso - declarou Miss Pebmarsh, e abanou de novo a cabea. - Sinto muito... acredite 
que sinto muitssimo no o poder ajudar, inspector Hardcastle.
O inspector saiu, impressionado, como sempre, pela personalidade de Miss Pebmarsh.

Miss Waterhouse tambm estava em casa. Fiel ao seu tipo, abriu a porta com brusquido, como se 
desejasse apanhar algum a fazer o que no devia.
- Respondeu, sem dvida, a todas as nossas perguntas - admitiu Hardcastle. - No entanto, no  possvel 
faz-las todas ao mesmo tempo... Precisamos
de averiguar mais alguns pormenores.
- No compreendo porqu! Foi um choque to desagradvel! - Olhou-o em ar de censura, como se 
considerasse que a culpa era s dele. - Mas entre, entre; no pode ficar o dia todo no tapete. Entre, sente-
se e pergunte-me o que quiser... embora eu no faa ideia do que me poder perguntar mais. Como j 
expliquei, sa para telefonar, abri a porta da cabina e deparou-se-me a rapariga. Nunca apanhei um susto 
to grande na minha vida! Fui a correr  procura de um
polcia... e, depois, se lhe interessa saber, voltei para casa e tomei uma dose medicinal de brande. 
Medicinal! - frisou Miss Waterhouse, veementemente.
- Fez muito bem, minha senhora. Desejava perguntar-lhe se tinha a certeza absoluta de que nunca vira, 
antes, a jovem?
- Posso t-la visto uma dzia de vezes e no me lembrar. Quero dizer, ela pode-me ter servido no 
Woolworth's, pode-se ter sentado a meu lado num autocarro, pode-me ter vendido bilhetes num cinema...
- Era estenodactilgrafa do Gabinete Cavendish.
- Creio que nunca precisei dos servios de uma estenodactilgrafa. Talvez ela trabalhasse no escritrio do 
meu irmo, na firma Cainsford & Swettenham...
 a que quer chegar?
- Oh, no! Parece no haver nenhuma relao desse gnero. Enfim, pensei se ela no teria vindo visitar 
esta manh, antes de ser assassinada.
- Se no me teria vindo visitar? Claro que no! Para qu?
- Bem, no sei... Mas diria que, se algum afirmasse t-la visto transpor a sua cancela, esta manh, 
estaria enganado? - perguntou o inspector, e fitou-a
com o ar mais inocente deste mundo.
- Algum a viu transpor a minha cancela? Tolice! - Miss Waterhouse hesitou. - Pelo menos...

156

- Pelo menos?...
- Bem,  possvel que tenha metido um prospecto por debaixo da porta. Encontrei um no cho,  hora do 
almoo, qualquer coisa acerca de uma concentrao
para exigir o desarmamento nuclear. Aparecem sempre coisas dessas, todos os dias. Sim,  possvel que 
ela tenha metido o papel por debaixo da porta... mas
no me podem censurar por isso, pois no?
- Claro que no. Agora quanto ao telefonema...
Disse que o seu telefone estava avariado, mas na estao informaram que tal no sucedia...
- Ora, na estao dizem o que lhes apetece! Marquei um nmero, ouvi um barulho muito estranho, no era 
o sinal de impedido!, e resolvi ir telefonar  cabina.
Hardcastle levantou-se.
- Lamento t-la incomodado desta maneira, Miss Waterhouse, mas supe-se que a pequena veio visitar 
algum, no Crescent, e se dirigiu a uma casa que no
fica longe daqui.
- E, por isso, tm de incomodar toda a gente que mora no Crescent! Creio que o mais provvel seria ela ter 
ido aqui ao lado, a casa de Miss Pebmarsh.
- Mais provvel porqu?
- Disse que a pequena era estenodactilgrafa do Gabinete Cavendish. Se a memria no me atraioa, 
constou que Miss Pebmarsh pediu que lhe mandassem
uma estenodactilgrafa a casa, no dia em que o homem foi assassinado.
- Disse-se isso, de facto, mas ela nega-o.
- Embora ningum ligue importncia ao que digo, a no ser quando j  demasiado tarde, tenho a 
impresso de que Miss Pebmarsh est um bocado tarouca. No me admiraria se telefonasse a pedir 
estenodactilgrafas e depois se esquecesse. 
- Mas no cr que ela fosse capaz de assassinar, pois no?
- Nunca falei em assassnio nem em nada parecido! Sei que mataram um homem na casa dela, mas no 
insinuo, nem por um instante que seja, que Miss
Pebmarsh tenha tido alguma coisa a ver com o assunto. Pensei, apenas, que ela podia ter uma daquelas 
curiosas manias que as pessoas s vezes arranjam. Conheci uma mulher que passava a vida a telefonar 
para uma pastelaria e a encomendar uma dzia de merengues. No os queria e quando lhos levavam dizia 
que no os encomendara.
- Claro que tudo  possvel - admitiu Hardcasde, e despediu-se de Miss Waterhouse.
Parecia-lhe que a entrevistada no fizera justia aos seus mritos ao apresentar a ltima sugesto. Por 
outro lado, se pensava que a rapariga fora vista a entrar
em sua casa, e se isso sucedera, de facto, a sugesto de
que ela fora ao nmero 19 era, dadas as circunstncias, inteligente.
Hardcastle viu as horas e achou que ainda tinha tempo de ir ao Gabinete Cavendish, que reabrira s duas 
horas da tarde. Talvez as pequenas lhe dessem alguma ajuda... e tambm l encontraria Sheila Webb.
Uma das empregadas levantou-se imediatamente, mal o viu entrar.
-  o detective-inspector Hardcastle, no ? Miss Martindale espera-o.
A jovem conduziu-o ao gabinete da directora, que se lanou logo ao ataque:
-  vergonhoso, inspector Hardcastle, absoluta mente vergonhoso! Tm de resolver este assunto sem 
demora, sem perda de tempo! A Polcia tem o dever
de dar proteco, e  disso que precisamos neste escritrio. Proteco! Quero que as minhas raparigas 
sejam protegidas, e estou disposta a consegui-lo, doa a quem doer!
- Estou certo, Miss Martindale, de que...
- Nega que duas das minhas empregadas, duas!, foram vtimas de algum irresponsvel que por a anda

158

 solta?  evidente que se trata de algum com qualquer espcie de... de mania, de complexo acerca de 
estenodactilgrafas ou gabinetes de secretariado! Esto a castigar-nos deliberadamente! Primeiro, merc 
de um
estratagema cruel, atraram Sheila a uma casa onde encontrou um cadver, o que bastaria para que uma 
rapariga nervosa perdesse a cabea, e agora aconteceu
isto! Uma pobre rapariga decente e inofensiva assassinada numa cabina telefnica! Tem de desvendar este 
mistrio, inspector!
- No h nada que deseje mais ardentemente, Miss Martindale. Vim ver se me podia dar alguma ajuda.
- Ajuda! Que gnero de ajuda lhe poderei dar? Julga que se soubesse alguma coisa susceptvel de ajudar 
no teria ido a correr contar-lha? Tem de descobrir quem matou a pobre Edna e quem pregou aquela incrvel 
partida a Sheila. Sou severa, inspector, obrigo-as a trabalhar com afinco e no permito que cheguem
atrasadas ou se desmazelem com o trabalho. Mas tambm no consinto que as torturem ou assassinem. 
Tenciono defend-las, e tratarei de conseguir que as pessoas a quem o Estado paga para as defender 
cumpram a sua obrigao! - Quando se calou e olhou para o inspector, parecia mais um tigre em forma de 
gente do
que uma mulher.
- D-nos tempo, Miss Martindale.
- Tempo? L porque a pateta da pequena morreu, julga que dispe de todo o tempo do mundo! Se no nos 
precatarmos, ser assassinada outra das minhas pequenas!
- No creio que tenha razes para recear isso, Miss Martindale.
- No pensou que esta pequena ia ser assassinada quando esta manh se levantou, pois no, inspector?
Se tivesse pensado, tomaria, comcerteza, determinadas precaues para a proteger. 
- So igualmente surpreendentes os factos de terem assassinado uma das minhas pequenas e colocado 
outra numa situao com prometedora. Tudo quanto tem acontecido  extraordinrio, louco! Sim, porque 
tem de admitir que  um
caso louco! Pelo menos a julgar pelo que dizem os jornais. Todos aqueles relgios, por exemplo... Reparei, 
no entanto, que no foram mencionados no inqurito, esta manh.
- Esta manh mencionou-se o menos possvel. Pretendia-se apenas o adiamento do inqurito.
- Repito, tm de fazer qualquer coisa! - exigiu Miss Martindale, e voltou a fulmin-lo com o olhar.
- No me sabe dizer nada, Edna no lhe contou nada que possa ser significativo? No pareceu preocupada, 
no a consultou acerca de qualquer assunto?
- No creio que me consultasse, se estivesse preocupada. Mas que motivos tinha ela para estar 
preocupada?
O inspector tambm desejaria que lhe respondesse a essa pergunta, mas compreendeu que no obteria a 
resposta de Miss Martindale. Redarguiu, por isso:
- Gostaria de falar com o maior nmero possvel de empregadas suas. Compreendo que seria pouco 
provvel Edna Brent falar-lhe dos seus receios e preocupaes, mas podia ter falado deles s colegas.
- Sim,  muito possvel. Elas passam a vida a dar  lngua. Mal ouvem os meus passos no corredor, 
desatam todas a martelar as teclas das mquinas de escrever. Mas que tinham estado a fazer antes? A 
tagarelar! - Acalmou-se um pouco e prosseguiu: - Neste momento esto s trs no escritrio. Quer falar 
com
elas agora? As outras saram, em servio, mas eu posso-lhe indicar os seus nomes e moradas, se desejar.
- Obrigada, Miss Martindale.
- Suponho que querer falar com elas sozinhas. No falariam to  vontade se eu estivesse presente, a
ouvir, pois teriam de admitir que deram  lngua nas horas de servio.
Levantou-se e abriu a porta que dava para o escritrio.

160

- O detective-inspector Hardcastle deseja conversar com vocs. Podem interromper o trabalho e tentem 
dizer-lhe tudo quanto saibam e que seja susceptvel de ajudar a descobrir quem matou Edna Brent.
Voltou para o gabinete e fechou a porta, com firmeza. Trs rostos agarotados e inquietos fitaram o 
inspector, que fez uma ideia rpida do que poderia esperar de cada uma delas. Uma rapariga loura e forte, 
de culos, pareceu-lhe digna de confiana, mas no muito inteligente. Uma moreninha de ar atrevido e 
penteado
que dava a impresso de se ter atravessado no caminho de um ciclone, tinha olhos de quem via as coisas, 
mas provavelmente no mereceria muita confiana no captulo de se lembrar delas: retocaria tudo, segundo 
a sua
fantasia. A terceira era uma daquelas jovens que riem por tudo e por nada e concordaria, com certeza, com 
tudo quanto se dissesse.
- Suponho que sabem todas o que aconteceu a Edna Brent, que trabalhava aqui? - perguntou o inspector, 
calmamente e sem formalismos.
Trs cabeas acenaram afirmativa e veementemente, ao mesmo tempo.
- A propsito, como souberam?
Olharam umas para as outras, como se quisessem decidir quem seria a porta-voz. A honra coube, por 
mtuo e tcito consentimento,  jovem loura, que se
chamava Janet.
- Edna no compareceu no escritrio s duas horas, como deveria - explicou a pequena. 
- E a Sandy Cat ficou muito aborrecida... - comeou a morena, Maureen, que se apressou a emendar: - 
Quero dizer, Miss Martindale.
A terceira moa deu uma gargalhadinha e explicou:
- Sandy Cat  como ns lhe chamamos.
"A alcunha no est nada mal escolhida", pensou o inspector.
-  um autntico terror, quando lhe apetece - prosseguiu Maureen. - Atira-se positivamente a uma pessoa... 
Perguntou se Edna dissera alguma coisa,
acerca de no vir trabalhar de tarde, e afirmou que de veria, pelo menos, ter apresentado uma justificao. 
- Disse a Miss Martindale que ela estivera no inqurito, connosco, mas que no a voltramos a ver de pois 
nem sabamos aonde fora - informou a loura.
- E isso era verdade, no era? No faziam ideia aonde ela fora depois de sair do inqurito?
- Eu convidei-a para almoar comigo - disse Maureen -, mas ela pareceu preocupada e respondeu que no 
sabia se iria almoar. Talvez comprasse qual quer coisa para comer no escritrio.
- Isso significa, ento, que tencionava voltar ao escritrio?
- Oh, sim! Todas sabamos que tnhamos de voltar.
- Alguma de vocs notou qualquer diferena em Edna, nos ltimos dias? Ela pareceu-lhes preocupada? 
Disse-lhes alguma coisa a esse respeito? Se sabem seja
o que for a esse respeito, mesmo que lhes parea insignificante, peo-lhes que me digam.
Olharam umas para as outras, mas de um modo que no tinha nada de conspiracional.
- Ela andava sempre preocupada com qualquer coisa - disse Maureen. - Tinha tendncia para confundir as 
coisas e cometer erros... era de compreenso
um pouco lenta. 
- Parecia que estavam sempre a acontecer coisas  Edna - disse a das risadinhas. - Lembram-se quan do 
o salto lhe caiu do sapato, outro dia? Era uma da quelas coisas que tinham de acontecer  Edna.
- Eu lembro-me - murmurou o inspector, e recordou-se do modo triste como a pobre pequena olhara para o 
sapato que tinha na mo. 
- Tive um pressentimento de que sucedera algo terrvel  Edna, quando no a vi aparecer s duas horas - 
observou Janet, a acenar solenemente com a cabea.
Hardcastle fitou-a com certa antipatia. Desagradavam-lhe 

162

as pessoas que se mostravam sempre muito sabichonas, depois de as coisas acontecerem. Tinha a 
certeza de que a rapariga no pensara tal coisa. O mais
provvel seria ter pensado: "A Edna ouvir a Sandy
Cat, quando voltar."
- Quando souberam o que sucedera?
Voltaram a entreolhar-se e a das gargalhadinhas corou e olhou de soslaio para a porta do gabinete de Miss 
Martindale.
- Bem, eu... eu sa um bocadinho. Precisava de comprar uns pastis, para levar para casa, e sabia que 
quando sasse j no haveria nenhuns. Ao chegar  loja, fica  esquina e conhecem-me l bem, a 
empregada perguntou-me: "Ela trabalhava no seu escritrio, no trabalhava?" Perguntei a quem se referia e 
ela respondeu: "A pequena que encontraram morta na cabina telefnica." Nem sei como fiquei! Voltei a 
correr, disse s outras e, no fim, achmos que devamos informar
Miss Martindale. Foi nesse momento que ela saiu do escritrio, como uma fria, e gritou: "Que esto a 
fazer? Nem uma mquina a trabalhar!"
A loura reatou a histria nesse ponto:
- E eu respondi-lhe: "A culpa no  nossa. Soubemos uma coisa terrvel, acerca da Edna, Miss Martindale."
- E que disse ou fez Miss Martindale?
- Bem, ao princpio no quis acreditar - redarguiu a morena. - Respondeu: "Tolices! Deram ouvidos a 
mexericos estpidos, numa loja. Deve tratar-se
de outra rapariga qualquer. Porque havia de ser a Edna?" Voltou para o gabinete, telefonou para a 
esquadra... e soube que era verdade.
- Mas eu no compreendo... - murmurou Janet, em tom quase sonhador - ... no compreendo por que 
motivo algum queria matar a Edna!
- Ela no tinha namorado, nem nada... - acrescentou a morena.
Olharam as trs para o inspector, esperanadas, como se ele lhes pudesse dar a soluo do problema.
Hardcastle suspirou. No havia ali nada para ele. Talvez uma das outras pequenas o ajudasse mais...
E havia, tambm, Sheila Webb.
- Sheila Webb e Edna Brent eram amigas?
Entreolharam-se, vagamente.
- No havia nenhuma amizade especial entre elas...
- A propsito, onde est Miss Webb?
Responderam-lhe que estava no Curlew Hotel, a trabalhar para o professor Purdy.

19

O professor Purdy irritou-se quando teve de inter romper o ditado para atender o telefone.
- Quem?... O qu? Quer dizer que est c, agora?... Bem, diga-lhe que volte amanh... Pronto, est bem, 
mande-o subir.
Desligou, a resmungar:
- Acontece sempre qualquer coisa. Como pode uma pessoa fazer algum trabalho srio com estas 
constantes interrupes? - Olhou para Sheila Webb com
leve ressentimento e perguntou-lhe: - Onde amos, minha querida?
Sheila ia a responder quando bateram  porta.
O professor Purdy teve certa dificuldade em se arrancar s complicaes cronolgicas de cerca de trs 
milnios atrs...
- Entre! - ordenou, amuado. - De que se trata? Recomendei especialmente que no me incomodassem, 
esta tarde...
- Lamento muito professor, mas foi-me impossvel respeitar os seus desejos. Boas tardes, Miss Webb.
Sheila Webb levantara-se e afastara o livro de apontamentos. Hardcastle perguntou a si mesmo se fora

164

imaginao sua ou se os olhos da jovem tinham denunciado uma sbita apreenso.
- De que se trata? - repetiu o professor, no mesmo tom irritado.
- Sou o detective-inspector Hardcastle, como Miss Webb poder confirmar.
- Muito bem. Muito bem.
- Precisava de trocar algumas palavras com Miss Webb.
- No pode esperar? Neste momento causa muito transtorno. Estvamos num ponto crtico... Miss Webb 
estar livre daqui a cerca de um quarto de hora... ou talvez meia hora. Mas... meu Deus, j so seis horas?
- Lamento muito, professor Purdy - redargiu Hardcastle, em tom firme.
- Est bem, est bem. De que se trata? De alguma violao das leis do trnsito, no? Os polcias de 
trnsito so muito intransigentes. Outro dia, um teimou comigo que eu deixara o meu carro quatro horas e 
meia junto de um contador de estacionamento... Tenho a certeza de que no podia ter sido tanto tempo.
- Desta vez  mais grave do que uma violao das leis do trnsito.
- Ah! E Miss Webb no tem carro, pois no, minha querida? - Olhou distraidamente para a rapariga. - Agora 
me lembro, vem de autocarro. Bem, inspector, de que se trata?
- Trata-se de uma jovem chamada Edna Brent.Virou-se para Sheila Webb e acrescentou: - Creio que j 
ouviu falar do assunto?
Ela fitou-o. Olhos bonitos, cor de centurea-azul. Lembravam-lhe algum.
- Edna Brent? - Sheila arqueou as sobrancelhas.Conheo-a, evidentemente. Que se passa com ela?
- Vejo que ainda no tem conhecimento... Onde almoou, Miss Webb?
A rapariga corou.
- Almocei com um amigo no restaurante Ho Tung, se... se isso  da sua conta.
- Depois no foi ao escritrio?
- Ao Gabinete Cavendish? Quando cheguei, disseram-me que devia encontrar-me com o professor Purdy s 
duas e meia.
- Exactamente - confirmou o professor, a acenar com a cabea. - s duas e meia. Ainda no paramos de 
trabalhar. Agora me lembro, devia ter pedido que
servissem o ch! Peo muita desculpa, Miss Webb. Devia ter-me lembrado...
- No tem importncia nenhuma, professor Purdy.
- Foi uma grande falta da minha parte, uma grande falta... Mas, pronto, no interrompo mais, visto o 
inspector querer fazer perguntas.
- No sabe, ento, o que sucedeu a Edna Brent?
- O que lhe sucedeu? - perguntou Sheila, em voz mais alta. - Que quer dizer? Foi vtima de algum acidente? 
Atropelada? 
- Toda esta velocidade  muito perigosa... - intrometeu-se o professor.
- Aconteceu-lhe uma coisa, sim... - Hardcastle fez uma pausa, antes de acrescentar, o mais brutalmente 
possvel: - Foi estrangulada cerca do meio-dia
e meia hora numa cabina telefnica.
- Numa cabina telefnica? - repetiu o professor, com algum interesse.
Sheila Webb no disse nada. Ficou a fit-lo, de boca ligeiramente aberta e olhos arregalados. "Ou ainda 
no sabias nada, ou s uma excelente actriz", pensou
Hardcastle.
- Meu Deus, estrangulada numa cabina telefnica! - exclamou o professor. - Parece muito extraordinrio. 
No  o stio que eu escolheria... enfim, se resolvesse cometer semelhante acto. Oh, no! Pobre pequena! 
Que pouca sorte a dela!
- Edna... assassinada! Mas porqu?
- Sabia, Miss Webb, que Edna Brent teve muito 

166

interesse em falar consigo anteontem, que foi a casa da
sua tia e esperou algum tempo pelo seu regresso?
- Mais uma vez por minha culpa - murmurou o professor cheio de remorsos. - Lembro-me de que, nessa 
noite, demorei Miss Webb at muito tarde...
Deve lembrar-me sempre do tempo, minha querida...
- A minha tia contou-me, mas no pensei que se tratasse de alguma coisa especial. Tratava? A Edna 
estava metida nalgum sarilho?
- No sabemos... e provavelmente nunca saberemos. A no ser que nos possa esclarecer?
- Eu? Como poderei saber?
- Talvez faa alguma ideia do que Edna Brent lhe queria dizer...
- Mas no, no fao a mnima ideia.
- Ela no insinuou nada, no falou consigo, no escritrio, acerca do que a preocupava?
- No, no me disse nada. Nem podia, de resto, pois ontem no estive no escritrio todo o dia. Tive de ir a 
Landis Bay, onde passei o dia inteiro a trabalhar com um dos nossos escritores.
- No a achou preocupada, ultimamente?
- Bem, a Edna parecia sempre preocupada ou intrigada. Tinha uma mentalidade muito... como hei-de 
dizer?... muito hesitante, muito lenta. Nunca tinha a
certeza se estava certo ou no o que pretendia fazer. Uma vez, escaparam-lhe duas folhas inteiras, ao 
dactilografar um livro de Armand Levine, e andou preocupadssima sem saber que fazer, por s ter dado 
pelo engano depois de lhe mandar o livro.
- Compreendo. E ela costumava pedir conselhos a todas as colegas, acerca do que devia fazer?
- Costumava. Aconselhei-a a escrever imediatamente um bilhete ao escritor, porque geralmente as pessoas 
no comeam logo a ler os trabalhos, para os
corrigirem. Disse-lhe que lhe explicasse o que sucedera e lhe pedisse que no se queixasse a Miss 
Martindale, mas a ideia no lhe agradou.
- Ela costumava, ento, pedir conselhos, quando surgia um desses problemas?
- Sempre! O pior  que nem sempre estvamos todas de acordo quanto ao que devia fazer, e isso ainda a 
deixava mais indecisa.
- Seria, portanto, natural ela procurar uma de vocs se tivesse um problema? Acontecia com frequncia?
- Acontecia, sim.
- Parece-lhe que desta vez se trataria de alguma coisa mais grave?
- No creio. Que coisa mais grave poderia ser?
Sheila Webb sentir-se-ia to  vontade como parecia?
- No sei acerca de que me desejava falar - prosseguiu, mais depressa e um bocadinho ofegante.No fao 
a mnima ideia. No imagino, tambm, porque teria ido a casa da minha tia, para falar l comigo.
- Dir-se-ia que se tratava de qualquer coisa acerca da qual no lhe queria falar no Gabinete Cavendish, no 
acha? Digamos, diante das outras colegas... Alguma coisa que lhe parecesse s dever ser tratada entre as 
duas, particularmente. Poderia ser isso?
- Parece-me muito pouco provvel, no creio que fosse nada desse gnero...
- No me pode, ento, ajudar, Miss Webb?
- Lamento, mas no posso. Sinto muito o que aconteceu  Edna, mas no sei nada que o possa ajudar.
- Seria alguma coisa que tivesse qualquer relao com o que sucedeu no dia nove de Setembro?
- Refere-se quele homem... quele homem de Wilbraham Crescent?
- Refiro.
- Como poderia ser isso? Que poderia a Edna saber a esse respeito?
- Nada de importante, talvez, mas alguma coisa... E tudo me ajudaria, por muito insignificante que 

168

parecesse. - Fez nova pausa, antes de acrescentar:A cabina telefnica onde a mataram fica em Wilbraham 
Crescent. Isso no lhe sugere nada, Miss Webb?
- Absolutamente nada.
- Esteve hoje em Wilbraham Crescent?
- No, no estive! - afirmou, em tom firme.No me aproximei, sequer, de l. Quem me dera, at, nunca l 
ter ido, no me ter visto envolvida em tudo
isto! Porque me mandaram chamar, porque me quiseram especialmente a mim, naquele dia? Porque teve a 
Edna de ser morta perto desse lugar? Tem de descobrir tudo isto, inspector, tem de o descobrir!
- Tenciono descobri-lo, Miss Webb - afirmou o inspector e terminou, em voz lentamente ameaadora: - 
Garanto-lhe!
- Est a tremer, minha querida - disse o professor Purdy. - Acho que precisa de tomar um clice de xerez.

20

NARRATIVA DE COLIN LAMB

Apresentei-me ao coronel Beck assim que cheguei a Londres.
- No fim de contas, talvez tenha alguma razo de ser aquela sua iditica ideia dos crescentes - admitiu, 
depois de me cumprimentar com um aceno do charuto.
- Descobriu, finalmente, alguma coisa?
- No direi tanto... mas talvez, sim, talvez. O nosso engenheiro construtor, Mister Ramsay, de Wilbraham 
Crescent, sessenta e dois, no  exactamente o que parece. Nos ltimos tempos, tem aceitado uns 
trabalhos muito curiosos. So firmas autnticas, as que o contratam, mas sem muito passado. A pouca 
histria que tm  muito peculiar. H cerca de cinco semanas, Ramsay partiu de um momento para o outro 
para a Romnia.
- No foi isso que disse  mulher.
- Talvez no, mas foi esse o seu destino, e  l que se encontra. Gostaramos de saber um pouco mais a 
respeito dele e, por isso, prepare-se meu rapaz. Tenho todos os vistos arranjados para si e um belo 
passaporte novo. Desta vez ser Nigel Trench. Reveja os seus conhecimentos de plantas raras, dos 
Balcs, pois
ser botnico.
- Algumas instrues especiais?
- No. Indicar-lhe-emos o seu contacto quando receber os documentos. Descubra tudo quanto puder acerca 
do nosso Mister Ramsay... - Olhou-me, com
ateno, e observou: - No parece to satisfeito como seria de esperar.
-  sempre agradvel quando um pressentimento d resultado - redargui, evasivo.
- Crescente certo, nmero errado. No nmero sessenta e um mora um construtor civil sem mcula 
absolutamente nenhuma, do nosso ponto de vista, evidentemente. O pobre Hanbury errou no nmero, mas 
no andou muito longe da verdade.
- Investigou os outros? Ou apenas o Ramsay?
- Diana Lodge parece to pura como Diana. Uma longa histria de gatos... O McNaughton  ligeiramente 
interessante. E professor reformado, como sabe.
Ensinava matemtica e parece que era brilhante. Retirou-se subitamente, a pretexto de falta de sade. 
Talvez seja verdade, mas ele parece saudvel e robusto. Isolou-se de todos os seus antigos amigos, o que 
parece muito estranho.
- O nosso mal  chegarmos a um ponto em que pensamos que tudo quanto toda a gente faz  muitssimo 
suspeito.
- Talvez tenha razo. H ocasies, em que at 

170

desconfio de que voc, Colin, se passou para o outro lado... e outras em que desconfio de que eu prprio 
passei para o outro lado e depois voltei para este! Uma grande salsada.
O meu avio partia s dez horas da noite e, por isso, resolvi ir visitar, primeiro, Hercule Poirot. Desta vez 
estava a beber um sirop de cassis (xarope de groselha-preta, para mim e para os no-iniciados). Ofereceu-
me, recusei e George serviu-me usque. Como de costume.
- Parece deprimido - observou Poirot.
- De modo nenhum. Vou apenas, para o estrangeiro.
Olhou para mim e eu acenei com a cabea.
- , ento, isso?
- ,  isso.
- Desejo-lhe todo o xito possvel.
- Obrigado. E o senhor, como vai andando com o trabalho de casa?
- Pardon?
- Que me diz ao Assassnio dos Relgios? Recostou-se na cadeira, fechou os olhos e encontrou todas as 
solues?
- Li com muito interesse o que me deixou c.
- No tem muito onde se pegue, pois no? Eu disse-lhe que os vizinhos no tinham dado nada...
- Pelo contrrio! Pelo menos duas pessoas fizeram observaes muito esclarecedoras.
- Quais? E quais foram as observaes?
Poirot respondeu-me, irritantemente, que devia reler as minhas notas com cuidado.
- Ver por si prprio, ento, pois salta aos olhos. O que resta fazer, agora,  falar com mais alguns 
vizinhos.
- No h mais.
- Deve haver. Algum v sempre qualquer coisa.  um axioma.
- Ser um axioma, mas no o  neste caso. E tenho novidades para si: houve outro assassnio.
- Sim? To cedo?  interessante. Conte-me.
Contei-lhe e ele interrogou-me implacavelmente, at me arrancar todos os pormenores. Falei-lhe, tambm 
do postal ilustrado que entregara a Hardcastle.
- Lembre-se... Quatro, um, trs ou quatro e treze - repetiu. - Sim,  o mesmo padro.
- Que quer dizer?
Poirot fechou os olhos, ao responder:
- Nesse postal s falta uma coisa: uma impresso digital ensanguentada.
Olhei-o, desconfiado, e perguntei:
- Que pensa realmente do caso?
- Cada vez se torna mais claro. Como de costume, o assassino no pde deixar as coisas como estavam.
- Mas quem  o assassino?
Manhosamente, Poirot no respondeu.
- Posso proceder a algumas investigaes, enquanto estiver ausente?
- De que gnero?
- Amanh, pedirei  minha secretria, Miss Lemon, que escreva a um velho advogado meu amigo, Mister 
Enderby, a solicitar-lhe que consulte os registos
de casamentos de Somerset House. Miss Lemon expedir, tambm, um certo telegrama para o 
estrangeiro.
- No sei se isso ser leal - observei. - No se limitar a estar sentado a pensar...
- Limitar-me-ei, sim senhor! Miss Lemon conferir, apenas, as solues que j encontrei. No peo 
informaes e, sim, confirmao.
- No acredito que saiba seja o que for, Poirot!  tudo bluff. Ainda ningum sabe quem  o morto...
- Eu sei.
- Como se chama?
- No fao ideia. O seu nome no  importante. Talvez compreenda melhor se lhe disser que sei o que  e 
no quem ele .
- Um chantagista.

172

Poirot fechou os olhos.
- Um detective particular. - Poirot abriu os olhos. - Far-lhe-ei uma citaozinha, como da ltima vez, e 
depois no lhe direi mais nada.
Recitou, com a mxima solenidade:
- Dilly, dilly, dilly. Vem para seres morto.

21

O detective-inspector Hardcastle olhou para o calendrio que tinha na secretria. 20 de Setembro. Mais de 
dez dias, j. No tinham progredido tanto como supusera porque a dificuldade inicial continuava a pe-los: a 
identificao de um cadver. Levara mais tempo do que julgara possvel, todas as pistas pareciam ter 
falhado. O exame laboratorial do vesturio no revelara nada que os ajudasse, as roupas no tinham 
proporcionado nenhuma pista. Eram de boa qualidade, de exportao, e embora no fossem novas estavam 
bem
tratadas. Nem dentistas, nem lavandarias, nem tinturarias tinham ajudado. O morto continuava a ser "o
homem misterioso". E, contudo, Hardcastle tinha a
impresso de que ele no tinha nada de misterioso.
No havia nele nada de espectacular nem de dramtico, era apenas um homem que ningum reconhecera.
Hardcastle suspirou ao lembrar-se dos telefonemas e das cartas que tinham chegado depois da publicao 
pelos jornais da fotografia, com a legenda: CONHECE
ESTE HOMEM? Era surpreendente o nmero de pessoas que tinham julgado conhec-lo. Filhas que 
escreviam, com certa esperana, acerca de um pai que no viam havia anos; uma velha de noventa anos 
convencida de que a fotografia era do seu filho, que sara de casa ia para trinta anos; inmeras mulheres 
convictas de
que se tratava de um marido desaparecido... Houvera menos irms a alegar que se tratava de um irmo. 
Talvez
as irms fossem mais pessimistas... No tinham faltado,
tambm, as inmeras pessoas que o tinham visto no Lincolnshire, em Newcastle, no Devon, em Londres, 
no metropolitano, no autocarro, num cais, com ar sinistro  esquina de uma rua, a tentar ocultar o rosto ao 
sair de um cinema... Centenas de pistas, as mais prometedoras das quais tinham sido inutilmente 
investigadas.
Mas naquele dia o inspector sentia-se um bocadinho mais esperanado. Olhou, de novo, para a carta que 
tinha na secretria. Merlina Rival... No gostava
muito do nome prprio. Parecia-lhe que ningum no seu juzo perfeito chamaria Merlina a uma filha. Devia 
tratar-se de um nome de fantasia, adoptado pela prpria signatria. No entanto, gostava do tom da carta.
No era extravagante nem exprimia excessiva confiana. Dizia apenas que a signatria julgava possvel que 
o homem em questo fosse o seu marido, de quem se separara havia vrios anos.
O inspector esperava-a naquela manh. Premiu a campainha, a chamar o sargento Cray.
- Mistress Rival j chegou?
- Acaba de chegar, inspector. Vinha dizer-lhe.
- Como  ela?
- Tem um ar um pouco teatral... Muita pintura, mas mal aplicada. No conjunto, parece uma mulher 
razoavelmente digna de confiana.
- Pareceu-lhe transtornada?
- No. Se est, disfara bem.
- Mande-a entrar.
Cray partiu e, pouco depois, voltou e anunciou:
- Mistress Rival, inspector.
O inspector levantou-se e apertou a mo  mulher.
Calculou que deveria andar pelos cinquenta anos, embora de longe, de muito longe... talvez parecesse 
andar pelos trinta. Perto, o resultado da pintura aplicada  toa fazia-a aparentar muito mais de cinquenta 
anos,

174

mas, no conjunto, Hardcastle optou pelo meio sculo.
Cabelo escuro, muito pintado, altura e estatura medianas, casaco e saia escuros, blusa branca e uma 
grande mala de tecido escocs. No usava chapu. Uma ou
duas pulseiras, que chocalhavam a cada movimento, e
vrios anis. No conjunto, e baseado na sua experincia, o inspector considerou-a boa mulher. No seria 
talvez, excessivamente escrupulosa, mas devia ser razoavelmente generosa, bondosa, at, e uma pessoa
com quem seria fcil viver. Mereceria confiana? A  que batia o ponto. No contaria muito com isso, alis, 
nunca podia contar muito com isso.
- Agrada-me muito a sua visita, Mistress Rival, e tenho esperanas de que nos possa ajudar.
- Claro que no tenho a certeza, mas pareceu-me o Harry - redarguiu Mrs. Rival. - Pareceu-me muito... No 
me surpreenderei se verificar que no  e s
desejo no lhe roubar o seu tempo para nada.
- No se deve preocupar com isso. Precisamos muito de ajuda, neste caso.
- Compreendo. S espero poder ter a certeza, pois h muito tempo que no o vejo.
- Comecemos por esclarecer alguns factos, sim? Quando viu o seu marido pela ltima vez?
- Durante toda a viagem de comboio tentei chegar a uma concluso a esse respeito.  terrvel verificar como 
a memria nos falha, quando se trata de
tempo! Creio que na minha carta me referi a cerca de dez anos, mas foi h mais tempo. Suponho que j l 
vo quase quinze. O tempo passa to depressa! Suponho que temos tendncia para julgar que se 
passaram menos anos porque assim nos sentimos mais novos, no acha?
-  possvel, sim. No entanto, calcula que viu pela ltima vez o seu marido h aproximadamente quinze 
anos, no  verdade? Quando se casaram?
- Uns trs anos antes disso, suponho.
- Onde vivia, ento?
- Numa terra chamada Shipton Bois, em Suffolk. Uma terra bonita, de mercado, mas pequena.
- Que fazia o seu marido?
- Era agente de seguros. Pelo menos... - fez uma pausa. - Pelo menos era o que dizia.
O inspector levantou a cabea, interessado, e inquiriu:
- A senhora descobriu que no era verdade?
- Bem, no foi exactamente isso... pelo menos na altura. S mais tarde  que comecei a pensar que talvez 
no fosse verdade. Seria fcil um homem dizer que
era agente de seguros e ningum desconfiar, no seria?
- Creio que sim, em certas circunstncias. 
- Quero dizer, d a um homem um pretexto para se ausentar muito de casa.
- E o seu marido ausentava-se muito de casa, Mistress Rival?
- Ausentava. Ao princpio, no liguei muita importncia... 
- Mas mais tarde?...
Mrs. Rival deixou passar um momento sem responder. Por fim, inquiriu:
- E se resolvssemos o assunto? No fim de contas, se no for o Harry...
O inspector perguntou a si mesmo em que estaria ela a pensar. A sua voz tornara-se tensa. Comoo, 
talvez? No tinha a certeza.
- Compreendo que queira despachar o assunto. Vamos.
Levantou-se e levou-a ao carro que os esperava.
O nervosismo de Mrs. Rival, quando chegaram, era igual ao das outras pessoas que j l conduzira. Ele 
proferiu, tambm, as palavras tranquilizadoras habituais.
- No tenha medo, o aspecto no impressiona. Levar apenas um minuto ou dois.
Trouxeram a maca, o empregado levantou o lenol e ela olhou durante alguns momentos, a respirar mais

176

aceleradamente. Depois virou-se, com brusquido, e disse:
-  o Harry. Sim, muito mais velho, diferente... mas  ele,  o Harry.
O inspector fez um sinal ao empregado, com a cabea, segurou no brao de Mrs. Rival e conduziu-a de 
novo para o automvel. Voltaram  esquadra. Durante
o trajecto, no disse nada, deixou-a serenar. Quando se encontravam novamente no seu gabinete, um 
polcia trouxe um tabuleiro com ch.
- Beba uma chvena de ch para se refazer, Mistress Rival. Depois falaremos.
- Obrigada.
Adoou o ch, com muita generosidade, e bebeu-o quase de um trago.
- J me sinto melhor - confessou. - No  que me custe, realmente... mas... d uma certa volta s 
pessoas, no d?
- Tem a certeza de que o homem  o seu marido?
- Tenho. Claro que est muito mais velho, mas no mudou por a alm. Pareceu sempre... bem, impecvel, 
com classe.
Hardcastle achou a descrio muito boa. Com classe. Presumivelmente, Harry aparentara muito mais 
classe do que tinha. Acontecia isso a alguns homens, o
que os ajudava nos seus propsitos especiais.
- Ele foi sempre muito meticuloso acerca da sua roupa e do seu aspecto. Creio que era por isso que se 
deixavam apanhar to facilmente, sem suspeitarem de
nada.
- Quem  que se deixava apanhar, Mistress Rival? - perguntou Hardcastle, em tom suave e compreensivo.
- As mulheres. Era com mulheres que ele passava a maior parte do tempo.
- Compreendo. E a senhora acabou por saber...
- Bem... suspeitei. Ele estava tanto tempo ausente! Claro que eu sabia como os homens so e pensava 
que talvez houvesse uma pequena, de tempos a tempos. Mas no vale a pena interrogar os homens a tal 
respeito, eles mentem com todo o descaramento e pronto. No entanto, eu no sabia... no podia imaginar 
que ele fazia disso um negcio.
- E fazia?
- Suponho que sim.
- Como descobriu?
- Um dia regressou de uma viagem que fizera. A Newcastle, dissera. Regressou e avisou-me de que tinha 
de se safar depressa, de que o jogo fora descoberto. Arranjara sarilhos com uma mulher, uma professora, e 
era possvel que houvesse escndalo. Interroguei-o, ento, e ele no se fez rogado e respondeu-me. 
Provavelmente pensou que eu sabia mais do que na realidade sabia... Elas deixavam-se prender facilmente 
por ele, como acontecera comigo. Arranjava uma mulher, oferecia-lhe um anel e ficavam noivos. Depois ele 
dizia que investira dinheiro em nome de ambos... e elas no hesitavam em lhe passar a importncia para as 
unhas.
- Tentara a mesma coisa consigo?
- Tentara, de facto, mas sem resultado.
- Porqu? J ento no confiava nele?
- Bem, eu no era das que confiavam. J tinha uma certa experincia dos homens, das suas espertezas e 
do lado mais feio das coisas. Fosse como fosse, no
quis que ele investisse o meu dinheiro. O que tinha, investi-lo-ia eu prpria. Conserva sempre o teu dinheiro 
nas tuas prprias mos, pois assim ters a certeza de o possuir! Tenho visto muitas raparigas e mulheres
armarem em idiotas.
- Quando quis ele investir dinheiro? Antes ou depois de casarem?
- Creio que sugeriu qualquer coisa desse gnero antes, mas eu fiz-me lucas e ele mudou imediatamente de 
assunto. Depois de casarmos, falou-me de uma
oportunidade maravilhosa que lhe surgira, mas eu respondi-lhe: "Nada feito." No se tratava apenas de no 

178

confiar nele; sabia de muitos homens que afirmavam ter descoberto uma coisa maravilhosa e s duas por 
trs verificavam que os tinham comido por trouxas.
- O seu marido alguma vez tivera aborrecimentos com a Polcia?
- No havia perigo disso. As mulheres no gostam que toda a gente saiba que foram intrujadas. Mas 
daquela vez as coisas pareciam diferentes. A rapariga,
ou a mulher, era instruda, no seria to fcil de enganar como as outras.
- E ia ter um filho?
- Sim.
- Isso j acontecera noutras ocasies?
- Suponho que sim... Confesso francamente que no sei o que o tentava, ao princpio. Se era apenas o 
dinheiro, um modo de vida, digamos, ou se era daqueles homens que tm de ter vrias mulheres e no via 
motivos nenhuns para no serem elas a pagar as despesas dos seus prazeres. - A voz de Mrs. Rival 
tornara-se amargurada.
- Gostava dele, Mistress Rival? - perguntou Hardcastle, suavemente.
- Para lhe ser franca, no sei. Suponho que gostava, de certo modo, pois de contrrio no teria casado com 
ele...
- Desculpe... era casada com ele?
- Nem disso tenho a certeza - confessou Mrs. Rival, francamente. - Ns casmos, de facto, e numa igreja e 
tudo, mas eu no sei se ele no teria casado
tambm com outras, usando um nome diferente. Chamava-se Castleton, quando casou comigo, embora eu 
duvide que esse fosse o seu verdadeiro nome.
- Harry Castleton?
- Sim.
- E durante quanto tempo viveram, como marido e mulher, em Shipton Bois?
- Estivemos l cerca de dois anos. Antes disso vivramos perto de Doncaster. No posso dizer que tenha 
ficado surpreendida quando regressou, naquele dia, e me contou tudo. Suponho que j sabia, havia algum 
tempo, que ele no prestava. Custava apenas a crer porque parecia sempre to respeitvel, to cavalheiro.
- E que sucedeu, ento?
- Ele disse que tinha de sair dali imediatamente e eu respondi-lhe que lhe desejava boa viagem, que no 
estava disposta a tolerar aquilo. - Acrescentou, pensativa: - Dei-lhe dez libras. Era tudo quanto tinha
em casa e ele disse que precisava de dinheiro... Nunca
mais o vi nem ouvi falar dele. At hoje, at ver o seu retrato no jornal.
- Ele no tinha nenhuns sinais particulares? Cicatrizes? Uma operao, uma fractura, qualquer coisa desse 
gnero?
- Creio que no.
- Alguma vez usou o nome de Curiy?
- Curry? No, suponho que no. Pelo menos que eu saiba...
- Isto estava na sua algibeira - disse Hardcastle, e estendeu-lhe o carto.
- Continuava a dizer que era agente de seguros...
Creio que deve ter usado muitos nomes diferentes.
- Disse que nunca mais teve notcias dele nos ltimos quinze anos, no foi?
- Nunca me mandou, sequer, um carto de boas-festas! - exclamou Mrs. Rival, com certo humor.Alis, no 
devia saber onde eu estava. Depois de nos
separarmos, voltei a trabalhar uns tempos no palco, sobretudo em tournes. No era grande vida... Alm 
disso, abandonei o apelido de Castleton e voltei a ser
Merlina Rival.
- Suponho que Merlina... enfim, no  o seu verdadeiro nome?
Abanou a cabea e esboou um leve sorriso.
- Fui eu que o inventei. Fora do vulgar. O meu verdadeiro nome  Flossie Gapp. Suponho que o 

180

meu nome de baptismo deve ser Florence, mas toda a gente me tratou, sempre, por Flossie ou Flo. Flossie 
Gapp... Pouco romntico, no ?
- Que faz agora? Ainda representa, Mistress Rival?
- Ocasionalmente - respondeu, com certa reticncia. - Uma vez por outra.
- Compreendo - redarguiu Hardcastle, com tacto.
- Fao uns trabalhos aqui e ali, dou uma ajuda em festas, sirvo de anfitri, etc. No  uma vida m. Pelo 
menos conheo pessoas. Mas, de vez em quando,
as coisas tornam-se feias...
- Desde que se separaram, no voltou a ter notcias de Harry Castleton nem a ouvir falar dele?
- Nem uma palavra. Pensei que tivesse ido para o estrangeiro... ou tivesse morrido.
- Faz alguma ideia, Mistress Rival, dos motivos que poderiam trazer Harry Castleton a estas imediaes?
- Nenhuma, absolutamente nenhuma. Nem sequer sei o que ele fez, durante todos estes anos.
- Seria possvel que tivesse vendido seguros falsos, qualquer coisa desse gnero?
- Confesso que no sei, mas no me parece muito possvel. Quero dizer, o Harry foi sempre muito 
cuidadoso consigo prprio, no se arriscava nem fazia nada que lhe pudesse arranjar cadastro. Inclino-me 
mais
para que se tenha governado a explorar mulheres.
- Alguma forma de chantagem, por exemplo?
- No sei... mas talvez fosse possvel. Qualquer mulher que no quisesse que se soubesse alguma 
passagem do seu passado... Suponho que ele se sentiria
em segurana, nesse aspecto. Note, no garanto que  se
dedicasse a isso, mas parece-me possvel. No acho que exigisse muito dinheiro, que fosse capaz de levar 
algum ao desespero, mas podia ir "cobrando" em pequena escala. - Acenou com a cabea e concluiu:No 
me surpreenderia.
- As mulheres gostavam dele, no gostavam?
- Sim, deixavam-se sempre prender facilmente por ele. Sobretudo, creio, por aparentar sempre tanta classe, 
por parecer to respeitvel. Sentiam-se orgulhosas por terem conquistado um homem assim, convenciam-
se de que as esperava um belo e agradvel futuro com ele... , pelo menos, esta a minha opinio. E com 
conhecimento de causa, pois senti o mesmo.
- S mais uma coisa... - Hardcastle voltou-se para o sargento e pediu-lhe: - Traga os relgios, sim?
Trouxeram os relgios num tabuleiro, cobertos por um pano que Hardcastle levantou. Mrs. Rival observou-os 
com sincero interesse e aprovao.
- So bonitos, no so? Gosto deste - declarou ela, e tocou no relgio francs.
- J alguma vez os vira? Significam alguma coisa para si?
- Acho que no. Deviam significar?
- Lembra-se de alguma relao possvel entre o seu marido e o nome de Rosemary?
- Rosemary? Deixe ver... Havia uma ruiva... No, essa chamava-se Rosalie. No me lembro de ningum 
com esse nome.  natural, no acha? O Harry
guardava segredo dos seus romances.
- Se visse um relgio cujos ponteiros marcassem quatro horas e treze...
- Pensaria que eram quase horas do ch! - interrompeu-o Mrs. Rival, a rir.
Hardcastle suspirou.
- Bem, Mistress Rival, estamos-lhe muito gratos. O inqurito ser, como lhe disse, depois de amanh.
No se importa de declarar que identificou o corpo, pois no?
- No, evidentemente. Terei apenas de dizer quem ele era, no  verdade? No terei de entrar em 
pormenores, de falar do seu modo de vida, etc.?
- Isso no ser necessrio, por enquanto. Ter apenas de jurar que se trata de Harry Castleton, com 

182

quem foi casada. A data exacta deve estar registada em Somerset House. Lembra-se onde se casou?
- Numa terra chamada Donbrook. Creio que foi na Igreja de So Miguel. Espero que no tenha sido h mais 
de vinte anos. Se fosse, sentir-me-ia com um p
na sepultura.
Levantou-se e estendeu a mo ao inspector, que se despediu.
Hardcastle sentou-se  secretria, em cujo tampo comeou a tamborilar, com um lpis. Pouco depois, o 
sargento Cray voltou e perguntou-lhe:
- Satisfatrio?
- Parece que sim. O nome de Harry Castleton talvez seja falso... Temos de ver o que conseguimos 
averiguar acerca do tipo. Parece provvel que vrias
mulheres tivessem motivos para se quererem vingar dele.
- No entanto, tem um ar to respeitvel...
- Esse deve ter sido o principal capital do seu negcio.
O inspector pensou de novo no relgio com o nome de "Rosemary". Seria uma recordao?

22

NARRATIVA DE COLIN LAMB

- Voltou, ento - observou Hercule Poirot, ao mesmo tempo que, cuidadosamente, colocava uma marca no 
livro que estava a ler.
Desta vez tinha em cima da mesa uma chvena de chocolate quente. Poirot devia ter um gosto muito 
especial, no captulo de bebidas. Para variar, no me
ofereceu chocolate.
- Como est? - perguntei-lhe.
- Incomodado. Muito incomodado. Andam a fazer renovaes, redecoraes e at modificaes estruturais 
nestes apartamentos.
- Mas isso no os melhorar?
- Melhorar, de facto, mas incomoda-me muito. Cheirar a tinta... - Olhou-me, indignado, mas afastou os 
aborrecimentos com um aceno de mo e indagou: - Foi bem sucedido?
- No sei - respondi, devagar.
- Ah!
- Descobri o que me mandaram descobrir, mas no encontrei o homem. Pessoalmente, no sei o que 
pretendiam. Informaes ou um cadver?
- Por falar em cadveres, li o relatrio do inqurito de Crowdean. Homicdio voluntrio, por pessoa ou 
pessoas desconhecidas. E o seu cadver recebeu, finalmente, um nome. 
- Harry Castleton...
- Identificado pela mulher. Esteve em Crowdean?
- No. Tenciono ir l amanh.
- Tem tempo livre?
- Ainda no; continuo com a misso e  por isso que l vou... No estou muito ao corrente do que se 
passou enquanto estive no estrangeiro. Que pensa do
mero facto da identificao?
- Era de esperar - redarguiu Poirot, com um encolher de ombros.
- Sim, a Polcia  muito experiente...
- E as esposas muito prestveis.
- Mistress Merlina Rival! Que nome!
- Lembra-me qualquer coisa - murmurou Poirot. - Mas que me lembra?
Fitou-me, pensativo, mas no o pude ajudar. Conhecendo Poirot como conhecia, sabia que o nome lhe 
poderia lembrar tudo.
- Uma visita a um amigo... numa casa de campo... - O detective abanou a cabea. - No... j foi h muito 
tempo.

184

- Quando regressar a Londres, virei dizer-lhe tudo quanto conseguir arrancar ao Hardcastle acerca de 
Mistress Merlina Rival.
- No  necessrio.
- Quer dizer que, mesmo sem lhe dizerem, j sabe tudo acerca dela?
- No. Quero dizer que no estou interessado nela.
- No est interessado... Mas porqu? No percebo.
- Devemo-nos concentrar nos pontos essenciais.
Fale-me antes da jovem Edna, assassinada na cabina telefnica de Wilbraham Crescent.
- No lhe posso dizer mais do que j disse. No sei nada acerca da pequena.
- Tudo quanto sabe - redarguiu Poirot, acusador -, ou tudo quanto me pode dizer,  que a rapariga era uma 
coelhinha que viu num escritrio de dactilgrafas; que arrancara um salto do sapato num ralo... A propsito, 
onde ficava esse ralo?
- Francamente, Poirot, como quer que saiba?
- Poderia saber, se tivesse perguntado. Como espera saber alguma coisa se no faz as perguntas devidas?
- Mas que importncia pode ter o lugar onde o salto se partiu?
- Pode no importar. No entanto, se soubssemos onde foi, saberamos que a rapariga estivera em 
determinado lugar e isso poderia relacionar-se com uma
pessoa que l a tivesse visto... ou com qualquer evento l ocorrido.
- Est a forar um bocado a nota. No entanto, sei que foi perto do trabalho, porque ela o disse e 
acrescentou que comprara um bolo e regressara, descala,
para o comer no escritrio. Disse, tambm, como demnio iria regressar a casa assim.
- E como regressou a casa? - indagou Poirot, interessado.
- No fao a mnima ideia.
- Parece impossvel essa sua tendncia para nunca fazer as perguntas devidas! Como consequncia disso, 
no sabe nada do que  importante.
- Seria melhor ir a Crowdean e fazer o senhor as perguntas - redargui, abespinhado.
-  impossvel, neste momento. H um interessante leilo de manuscritos de escritores, para a semana...
- Continua a dedicar-se ao seu passatempo?
- Certamente! - Os seus olhos brilharam. - Veja as obras de John Dickson Carter ou Carter Dickson, como 
por vezes tambm se chama...
Pretextei um encontro urgente e escapei-me antes de ele se entusiasmar. No estava com disposio para 
ouvir dissertar acerca dos velhos mestres da arte da
fico policial.

Levantei-me do degrau da casa de Hardcastle e tentei dominar o meu desnimo, quando o vi chegar, na 
noite seguinte.
-  voc, Colin? - perguntou o inspector.Apareceu outra vez de surpresa, hem? H quanto tempo est a 
sentado, no degrau da minha porta?
- H cerca de meia hora.
- Lamento que no tenha podido entrar.
- Podia ter entrado com toda a facilidade! - afirmei, indignado. - No imagina como somos bem treinados !
- Ento porque no entrou?
- No desejaria diminuir, em sentido nenhum, o seu prestgio. Um detective-inspector ficaria numa situao 
muito ridcula se lhe entrassem em casa com a
maior facilidade.
Hardcastle tirou a chave da algibeira e abriu a porta.
- Entre e no diga tolices - convidou.
Conduziu-me  sala e comeou a encher os copos.

186

- Diga quando chegar - pediu-me. Disse, mas s passado um bocado, e sentmo-nos
cada um com o seu copo.
- As coisas comeam, finalmente, a andar. Identificmos o nosso cadver.
- Bem sei. Li no jornal. Quem era Harry Castleton?
- Um homem aparentemente muito respeitvel, mas que vivia de casamentos fictcios ou, pelo menos, de 
noivados com mulheres crdulas e financeiramente
desafogadas. Confiavam-lhe as economias, impressionadas pelos seus conhecimentos de finanas, e 
pouco depois ele desaparecia calmamente da cena.
- No tinha ar de pertencer a esse tipo - comentei, ao recordar o assassinado.
- Era esse o seu melhor trunfo.
- Nunca foi acusado?
- No. Procedemos a consultas, mas no  fcil obter informaes, tanto mais que ele mudava 
frequentemente de nome. Embora, na Yard, pensassem que Harry Castleton, Raymond Blair, Lawrence 
Dalton e Roger Byron eram uma e a mesma pessoa, nunca o conseguiram provar. Compreende, as 
mulheres no
falavam, preferiam perder o dinheiro. O indivduo era, na realidade, mais um nome do que outra coisa. 
Aparecia aqui e ali, procedia sempre de conformidade
com o mesmo padro, mas era esquivo como uma enguia. Por exemplo, Roger Byron desaparecia de 
Southend e um homem chamado Lawrence Dalton comeava a operar em Newcastle on Tyne... No 
gostava de ser fotografado e esquivava-se a que as suas amigas lhe tirassem o retrato... Tudo isto foi h 
muito tempo.
Uns quinze ou vinte anos. Mais ou menos nessa altura, ele pareceu desaparecer, de facto, e correu o boato 
de que morrera. Mas houve quem dissesse que fora
para o estrangeiro.
- Pelo menos, nada constou a seu respeito at ser encontrado, morto, na carpete da sala de Miss 
Pebmarsh?
- Exactamente.
- Apresenta, de facto, possibilidades. 
- Sem dvida.
- Uma mulher desdenhada que nunca perdoou? - sugeri.
- s vezes acontece, como sabe. H mulheres com muito boa memria, que no esquecem...
- E se uma mulher dessas cegasse... Um desgosto em cima do outro... 
- Enfim, tudo isto so conjecturas. Ainda no h nada que o confirme.
- Como era a mulher? Mistress?... Merlina Rival no era? Que nome! No pode ser verdadeiro.
- No . Ela chama-se, de facto, Flossie Gapp, mas inventou o outro nome por lhe parecer mais apro priado 
para a sua vida.
- Que  ela? Uma prostituta?
- S-lo-, mas no profissional.
- Aquilo a que se chamava, eufemisticamente, uma senhora de virtude fcil?
- Eu diria antes que se trata de uma mulher benvola, sempre disposta a fazer um favor a um amigo. Disse 
que era uma ex-actriz e que, ocasionalmente fazia trabalho de "anfitri". Simptica. 
- Digna de confana?
- To digna de confiana como a maioria das pessoas. O seu reconhecimento foi positivo, sem hesitaes.
- Isso  uma bno.
- Sim, para quem comeava a desesperar, como eu. A quantidade de candidatas a vivas que recebi! 
Comecei a pensar que eram poucas as mulheres que
conheciam realmente os maridos... Note, no entanto, que, quanto a mim, Mistress Rival podia saber um 
pouco mais acerca do marido do que diz.
- Ela esteve alguma vez pessoalmente envolvida em actividades criminosas?
- No h nada registado. Suponho, contudo, que 

188

teve, e talvez ainda tenha, alguns amigos suspeitos. Nada de grave, porm. Umas ninharias.
- E quanto aos relgios?
- No significaram nada para ela. Creio que falou verdade. J averigumos donde vieram: Mercado de 
Portobello. Quero dizer, o relgio dourado e o de porcelana de Dresda. Mas pouco ajuda. Sabe como so 
as coisas por l, ao sbado... O dono da barraca disse que foi uma senhora americana que os comprou, 
mas
talvez dissesse isso porque o Mercado de Portobello  muito frequentado por turistas americanas. A mulher 
do tipo, pelo seu lado, afirma que foi um homem
quem os comprou, mas no se lembra do seu aspecto. Quanto ao de prata, foi comprado numa joalharia de 
Bournemouth por uma senhora alta, que queria uma
prenda para a filha. A empregada s se lembra de que
a cliente usava um chapu verde.
- E o quarto relgio? O que desapareceu?
- No fao comentrios.
Percebi exactamente o que ele queria dizer.

23

NARRATIVA DE COLIN LAMB

O hotel em que me instalara era um estabelecimento modesto e pequeno, perto da estao. Servia uns 
grelhados decentes, mas ficava-se por a. E era econmico, claro.
s dez horas da manh seguinte, telefonei ao Gabinete Cavendish e disse que desejava uma 
estenodactilgrafa para estenografar algumas cartas e passar um contrato comercial  mquina. Declarei 
chamar-me
Douglas Weatherby e que estava instalado no Clarendon Hotel (os hotis pelintras tm sempre nomes 
imponentes). Miss Sheila Webb estava disponvel? Um amigo meu achara-a muito eficiente.
Encontrava-me em mar de sorte, pois Sheila podia apresentar-se imediatamente. No entanto, j tinha um 
trabalho para o meio-dia... Redargui que contava
terminar muito antes; tambm tinha um compromisso.
Esperava  porta do Clarendon quando Sheila apareceu. Avancei e apresentei-me:
- Mister Douglas Weatherby, ao seu servio.
- Foi voc que telefonou?
- Fui.
- No deve proceder assim! - exclamou, escandalizada.
- Porqu? Estou disposto a pagar os seus servios ao Gabinete Cavendish. Que importa  sua directora se 
passarmos o seu valioso e dispendioso tempo no
Buttercup Caf, ali defronte, em vez de a ditar cartas enfadonhas, que comeam por "Amigos e Senhores", 
etc.? Venha da, vamos beber caf num stio sossegado.
O Buttercup Caf era violenta e agressivamente amarelo: tampos de frmica, almofadas de plstico e pires 
e chvenas tudo cor de canrio.
Pedi caf e scones para dois. Como era cedo, estvamos praticamente sozinhos.
Quando a criada se afastou, depois de lhe dar a encomenda, olhmo-nos, atravs da mesa.
- Est bem, Sheila?
- Que quer dizer?
Os seus olhos tinham umas olheiras to escuras que pareciam mais violeta do que azuis.
- Tem passado um mau bocado?
- Sim... no... No sei. Pensava que se tinha ido embora.
- Fui, mas voltei.
- Porqu?
- Voc sabe porqu.

190

Baixou os olhos e murmurou, passado pelo menos um minuto:
- Tenho medo dele.
- De quem?
- Do seu amigo, do inspector. Ele pensa... pensa que matei o homem e a Edna, tambm.
- Oh, isso  apenas a sua maneira de ser! Procede sempre como se suspeitasse de toda a gente.
- No, Colin, no se trata disso. No vale a pena dizer coisas s para me animar. Ele pensou desde o 
princpio que eu estava implicada no caso.
- Minha querida pequena, no existe nenhuma prova contra si. L porque estava presente naquele dia, 
porque algum a chamou l...
- Ele pensa que fui eu prpria que arranjei maneira de l estar e que a Edna o sabia, ignoro como. Julga que 
ela reconheceu a minha voz, ao telefone, a
fingir que era Miss Pebmarsh.
- Era a sua voz?
- Claro que no! No fiz semelhante telefonema, como sempre lhe disse.
- Escute, Sheila, seja o que for que tenha dito ou diga aos outros, a mim tem de me dizer a verdade.
- No acredita, ento, no que eu digo!
- Acredito. Voc podia ter feito o telefonema, naquele dia, por qualquer motivo inocente. Talvez algum lho 
pedisse, a pretexto de que se tratava de uma brincadeira... Depois voc assustou-se, mentiu e teve
de continuar a mentir. Foi isso?
- No, no, no! Quantas vezes preciso de lho dizer?
- Tudo isso est muito bem, Sheila, mas h uma coisa que no me disse. Quero que confie em mim. Se 
Hardcastle tem qualquer coisa contra si, qualquer coisa de que no me falou...
- Espera que ele lhe diga tudo? - interrompeu-me.
- No h motivo nenhum para no me dizer. Somos, mais ou menos, oficiais do mesmo ofcio.
A criada serviu-nos. O caf, coitado, estava muito fraquinho...
- No sabia que tinha alguma coisa a ver com a Polcia - observou Sheila, a mexer, devagar, o seu caf.
- No se trata exactamente da Polcia e, sim, de um ramo totalmente diferente. Mas o que eu estava a 
dizer era que, se o Dick no me diz algumas coisas
que porventura sabe a seu respeito, isso se deve a um motivo especial: pensa que me interesso por si. E  
verdade, Sheila, interesso-me por si. Mais do que isso,
at. Estou do seu lado, seja o que for que tenha feito. Sei que, naquele dia, saiu daquela casa morta de 
medo e que no estava a representar. No podia ter fingido to bem.
- Claro que estava assustada. Estava aterrorizada.
- Foi s o facto de encontrar o cadver que a assustou? Ou houve mais alguma coisa?
- Que mais poderia haver?
Enchi-me de coragem e perguntei:
- Por que motivo roubou o relgio que tinha o nome "Rosemary" escrito a um canto?
- Que quer dizer? Porque o roubei?
- Foi o que lhe perguntei.
- No lhe toquei, sequer.
- Voltou  sala porque, segundo pretextou, se esquecera l das luvas, mas nesse dia no usava luvas. 
Estava um bonito dia de Setembro. Alis, nunca a vi
usar luvas. Portanto, voltou  sala e apoderou-se do relgio. No me minta a esse respeito. Foi isso que 
fez, no foi?
Ficou silenciosa, durante alguns momentos, a esfarelar os scones do seu prato.
- Est bem - murmurou, em voz quase inaudvel -, est bem, foi. Peguei no relgio, meti-o na mala e sa.

192

- Porque fez isso?
- Por causa do nome... Chamo-me Rosemary.
- Chama-se Rosemary e no Sheila?
- As duas coisas: Rosemary Sheila.
- E isso bastou para a decidir? Bastou-lhe o facto de ter o mesmo nome que estava gravado num dos 
relgios?
Apercebeu-se da minha incredulidade, mas insistiu:
- J lhe disse que estava aterrorizada.
Fitei-a. Sheila era a minha pequena, a rapariga que eu queria, e que queria para sempre. Mas seria intil ter 
iluses a seu respeito. Sheila era uma mentirosa e
provavelmente s-lo-ia sempre. Era essa a sua maneira de lutar pela sobrevivncia: a negao rpida, fcil, 
natural. Tratava-se de uma arma infantil, de uma arma que talvez nunca deixasse de usar. Se eu queria 
Sheila,
tinha de a aceitar como ela era, de estar  mo para amparar os pontos fracos. Todos ns temos pontos 
fracos. Os meus eram diferentes dos de Sheila, mas existiam.
Decidi-me a atacar. Era a nica, soluo.
- O relgio era seu, no era? Pertencia-lhe?
Abriu a boca, surpresa.
- Como... como soube?
- Conte-me.
A histria irrompeu-lhe, ento, dos lbios, numa grande confuso de palavras. Tivera o relgio quase toda a 
sua vida. At  idade dos seis anos, mais ou menos, todos a tinham tratado por Rosemary, mas ela 
detestava o nome e insistira em que a tratassem por Sheila. Ultimamente, o relgio comeara a funcionar 
mal e ela levara-o, para o deixar num relojoeiro das imediaes do escritrio. Mas esquecera-se dele em 
qualquer lado. No autocarro ou numa leitaria onde estivera a comer uma sanduche,  hora do almoo.
- Quanto tempo antes do assassnio de Wilbraham Crescent foi isso?
Cerca de uma semana, parecia-lhe. No se preocupara muito, pois o relgio era velho, andava 
constantemente a avariar-se e talvez fosse prefervel comprar um novo.
E depois:
- Ao princpio no reparei nele, quando entrei na sala. Subitamente, deparei com o morto e fiquei paralisada. 
Levantei-me, depois de lhe tocar, fiquei de
olhos fixos... e o meu relgio estava ali, na minha frente, numa mesinha junto da lareira. O meu relgio 
estava ali e eu tinha a mo suja de sangue... De repente, ela entrou e eu esqueci tudo o mais, porque ela ia 
pis-lo. Por isso... por isso fugi. S queria desaparecer dali para fora.
- E mais tarde?
- Comecei a pensar. Ela dissera que no telefonara a chamar-me. Ento quem me chamara... quem me 
atrara ali e pusera l o meu relgio? Disse... disse
aquilo acerca das luvas e fui busc-lo. Creio que foi... estupidez da minha parte.
- No podia ter cometido maior tolice - admiti. - Em certos sentidos, Sheila, no tem senso nenhum.
- A verdade  que algum tenta implicar-me no assunto. O postal...  evidente que foi enviado por uma 
pessoa que sabe que tirei o relgio. E o prprio
postal, a representar o Old Bailey... Se o meu pai fosse um criminoso...
- Que sabe acerca dos seus pais?
- Morreram num acidente, quando eu era pequenina.  o que a minha tia me tem  dito sempre, mas ela 
nunca fala deles, nunca diz nada a seu respeito. Algumas vezes, quando a interrogo, diz-me coisas que 
no coincidem com outras que me disse anteriormente. Por isso soube sempre que havia algo
errado...
- Continue.
- Penso que o meu pai talvez fosse um criminoso, ou at um assassino. Ou talvez fosse a minha me...

194

As pessoas no dizem a uma rapariga que os pais morreram e no sabem ou no querem dizer nada a seu 
respeito, a no ser que a verdadeira razo seja de molde a causar grande desgosto  interessada.
- Por isso tem-se preocupado com esse assunto. Provavelmente a explicao  muito simples. Pode ser, 
apenas, uma filha ilegtima.
- Tambm pensei nisso. s vezes as pessoas tentam ocultar essas coisas s crianas.  muito estpido, 
pois seria melhor dizerem-lhes a verdade.
Hoje em dia, j no tem grande importncia. Mas o principal  que eu no sei. No sei o que est atrs de 
tudo isto. Porque me deram o nome de Rosemary? No  um nome de famlia... Significa recordao, no
significa?
- O que pode ser um significado agradvel - salientei.
- Pois pode... mas no creio que seja. Seja como for, depois de o inspector me interrogar, naquele dia, 
comecei a pensar. Porque pretendera algum atrair-me
ali? Para me colocar na presena de um desconhecido que estava morto? Ou fora o morto que quisera que 
me encontrasse com ele naquela casa? Tratar-se-ia,
porventura, do meu pai e desejaria que eu lhe fizesse alguma coisa? Mas, entretanto, chegara algum que 
o matara... Ou teria algum pretendido, desde o princpio, dar a impresso de que fora eu que o matara? 
Oh, senti-me muito confusa e muito assustada! Dava a impresso de que tudo me apontava. Atrarem-me 
ali, o morto e o meu nome, Rosemary, no meu prprio relgio, que no tinha nada que estar naquela casa. 
O pnico apoderou-se de mim e eu cometi uma grande tolice, como voc mesmo disse.
- Tem andado a ler ou a dactilografar muitos romances policiais - observei, acusadoramente. - E a respeito 
da Edna? No faz nenhuma ideia do que ela
teria na cabea a seu respeito? Porque se deu ao trabalho de ir a sua casa, se a via todos os dias no 
escritrio?
- No sei. Ela no podia ter pensado que eu tinha fosse o que fosse a ver com o assassnio. No podia!
- Ter ouvido qualquer coisa e adquirido uma ideia errada?
- J lhe disse que no houve nada. Nada!
No pude deixar de duvidar. Apesar de tudo, no sabia se Sheila dizia a verdade.
- Tem alguns inimigos pessoais? Rapazes decepcionados, raparigas ciumentas, algum um pouco 
desequilibrado que lhe queira mal?
As minhas prprias palavras pareceram-me pouco convincentes.
- Claro que no.
Continuava na dvida acerca do relgio. Era uma histria fantstica. 4.13. Que significavam estes 
algarismos? Porque os escreveria algum num postal, juntamente com a palavra "lenbre-se!, a no ser que
significassem qualquer coisa para a pessoa que receberia o postal?
Suspirei, paguei a conta e levantei-me.
- No se preocupe - recomendei, sem dvida a frase mais oca da lngua inglesa ou de qualquer outra.O 
"Servio Pessoal Colin Lamb" investiga. Nada lhe
acontecer, casaremos e viveremos muito felizes, com um ordenado insignificante... A propsito - 
acrescentei, incapaz de me dominar, embora consciente de que teria sido muito melhor separarmo-nos 
numa nota
romntica; mas a "Curiosidade Pessoal Colin Lamb" foi mais forte... -, que fez ao relgio? Escondeu-o na 
gaveta das meias?
Deixou passar um momento, antes de responder:
- Meti-o no caixote do lixo da casa ao lado.
Fiquei impressionado. Fora simples e, provavelmente, eficaz. Fora inteligente da sua parte ter semelhante 
ideia. Talvez tivesse subestimado Sheila.

196

24

NARRATIVA DE COLIN LAMB

Quando Sheila partiu, fui ao Clarendon, fiz a mala e deixei-a no porteiro. Tratava-se de um daqueles hotis 
onde faziam questo de que os clientes sassem antes do meio-dia.
Comecei a andar. Como o meu caminho passava pela esquadra, hesitei um momento e entrei. Encontrei 
Hardcastle a ler uma carta, de testa franzida.
- Parto outra vez esta noite, Dick. Volto para Londres.
Levantou a cabea e fitou-me, preocupado.
- Aceita um conselho?
- No - respondi imediatamente.
No fez caso do "no". As pessoas nunca fazem, quando querem dar conselhos.
- Se sabe o que lhe convm, v-se embora e no volte.
- Ningum pode julgar o que  conveniente para outra pessoa.
- Duvido.
- Vou-lhe dizer uma coisa, Dick. Quando deslindar a minha misso actual, demito-me. Pelo menos  essa 
a minha inteno.
- Porqu?
- Sou como um antiquado sacerdote vitoriano: tenho dvidas.
- No se precipite.
No compreendi bem o que queria dizer e perguntei-lhe porque estava com um ar to preocupado.
- Leia isto - respondeu, e estendeu-me a carta que estava a ler.

"Caro senhor: Acabo de me lembrar de um pormenor. Perguntou-me se o meu marido tinha alguns sinais 
identificativos e eu respondi que no, mas enganei-me.
Na realidade, ele tem uma espcie de cicatriz atrs da orelha esquerda. Cortou-se com uma navalha, 
quando um co que tnhamos se atirou a ele, e o golpe teve de ser suturado.  uma coisa to pequena e 
insignificante
que, outro dia, no me lembrei dela.
Sinceramente,
Merlina Rival"

- A caligrafia  bonita e ousada, embora eu nunca tenha gostado muito de tinta cor de prpura - comentei. - 
O defunto tem uma cicatriz?
- Tem, precisamente onde ela diz.
- E ela no a viu, quando lhe mostraram o cadver?
- A orelha encobre-a.  preciso dobrar a orelha para a frente, para se ver.
- Tem, portanto, uma bela corroborao. Porque est preocupado?
Hardcastle respondeu-me, carrancudo, que o caso era um inferno, e perguntou-me se tencionava visitar, em 
Londres, o meu amigo belga ou francs.
- Provavelmente. Porqu?
- Falei dele ao chefe de Polcia, que disse record-lo muito bem daquele caso do assassnio da pequena 
escuteira. Aconselhou-me a receb-lo muito cordialmente, se ele resolvesse vir at c.
- Tire da o sentido. Aquele homem  praticamente uma lapa.
Era meio-dia e um quarto quando toquei  campainha da casa de Wilbraham Crescent, 62. Mrs. Ramsay 
abriu a porta e mal levantou os olhos para mim.
- Que deseja?
- Posso falar consigo durante alguns momentos? Estive c h cerca de dez dias. Talvez no se lembre de 
mim...
Olhou-me, ento, e franziu um pouco a testa.
- Veio... veio com aquele inspector da Polcia, no foi?

198

- Exactamente, Mistress Ramsay. Posso entrar?
- Se deseja... No se recusa a entrada  Polcia, pois isso causaria muito m impresso.
Conduziu-me  sala, apontou-me uma cadeira, com um gesto brusco, e sentou-se diante de mim. A sua 
voz exprimira uma certa rispidez, mas depois a sua atitude
adquirira uma indiferena que no lhe notara da ltima vez.
- Isto hoje est muito sossegado... Suponho que os seus filhos voltaram para a escola?
- Voltaram. Faz a sua diferena... Creio que vem fazer mais perguntas acerca do ltimo assassnio, da 
pequena que mataram na cabina telefnica?
- No se trata disso. Na realidade, no estou ligado  Polcia.
Pareceu um pouco surpreendida.
- Julguei que fosse o sargento... Lamb, no era?
- Chamo-me Lamb, de facto, mas trabalho num departamento diferente.
A indiferena desapareceu da atitude de Mrs. Ramsay. Olhou-me de modo directo e firme.
- Ah! Que departamento?
- O seu marido ainda est no estrangeiro?
- Ainda.
- Tem-se demorado muito tempo, e foi para muito longe, no foi, Mistress Ramsay?
- Que sabe acerca disso?
- Passou a Cortina de Ferro, no passou?
Ficou calada, uns momentos, e por fim respondeu, em voz serena e inexpressiva:
- Sim,  verdade.
- Sabia que ele ia para l?
- Mais ou menos. - Fez nova pausa. - Queria que eu fosse ter com ele.
- O seu marido j pensava no assunto havia algum tempo?
- Suponho que sim, mas s me disse ultimamente.
- No concorda com as suas opinies?
- Concordei, em tempos... Mas o senhor j deve saber isso. Investigam essas coisas muito 
minuciosamente, no investigam? Rebuscam no passado, descobrem quem foi simpatizante, quem foi 
membro do partido, tudo isso.
- Talvez nos possa dar informaes susceptveis de nos serem muito teis.
Abanou a cabea.
- No, no posso. Digo que no posso e no que no quero. Ele nunca me disse nada definido; eu no 
queria saber. Estava farta, saturada de tudo aquilo!
Quando Michael me disse que ia deixar o pas e seguir para Moscovo, no me surpreendeu. Tive de decidir, 
ento, o que eu queria fazer.
- E chegou  concluso de que no simpatizava muito com os objectivos do seu marido?
- No o diria desse modo. A minha opinio  inteiramente pessoal... creio que, no fim, acontece sempre 
assim, com as mulheres, a no ser que se seja uma
fantica. Sei que as mulheres podem ser muito fanticas, mas eu no o sou. Nunca fui mais do que 
levemente esquerdista.
- O seu marido esteve implicado no caso Larkin?
- No sei, mas suponho que talvez estivesse. No entanto, nunca me disse nada nem falou do 
assunto.Olhou-me, de sbito, com mais interesse e acrescentou: - Acho melhor sermos claros, Mister 
Lamb... ou l como se chama. Eu amava o meu marido, talvez lhe quisesse o suficiente para ir com ele 
para Moscovo, quer concordasse, quer no, com a sua poltica. Mas ele queria que levasse os pequenos e 
eu no concordei. Foi to simples como isto. Decidi, portanto, ficar com
eles. No sei se voltarei a ver Michael. Ele tem de escolher a sua vida e eu tenho de escolher a minha. Mas 
acerca de uma coisa no tenho dvidas: quero que os pequenos sejam educados aqui, no seu pas. Eles 
so ingleses e eu quero que sejam educados como vulgares rapazes ingleses.

200

- Compreendo.
- E creio que  tudo - disse Mrs. Ramsay, e levantou-se.
A sua atitude tornara-se decidida e firme.
- Deve ter sido uma deciso dolorosa - murmurei, compreensivo. - Sinto muito por si.
E sentia, de facto. Talvez a minha voz exprimisse a
sinceridade dos meus sentimentos e a comovesse, pois
ela sorriu tristemente e murmurou:
- Talvez esteja a dizer a verdade... Creio que, na
sua profisso, tm de tentar infiltrar-se, mais ou menos, sob a pele das pessoas, saber o que pensam e o
que sentem. Foi tudo um grande golpe para mim, mas
o pior j l vai. Agora preciso de fazer planos... Que
farei, para onde irei, se deverei ficar aqui ou ir para
qualquer outro lado... Terei de arranjar um emprego.
Fui secretria, em tempos... Talvez me inscreva num
curso de reviso de estenodactilografia...
- No v trabalhar para o Gabinete Cavendish.
- Porqu?
- As raparigas que l trabalham parecem ter tendncia para serem vtimas de coisas muito desagradveis.
- Se julga que sei alguma coisa a esse respeito, est enganado. No sei nada.
Desejei-lhe felicidades e sa. No ficara a saber nada de novo, atravs dela... nem esperara ficar, na 
realidade. Mas devemos sempre tentar tudo, no deixar
pontas soltas.
Ao sair, quase choquei com Mrs. McNaughton,
que transportava um saco de compras e parecia pouco
firme nas pernas.
- D-me licena... - Ao ver que tentava tirar-lhe o saco, agarrou-o com mais fora, mas depois inclinou a 
cabea, olhou-me melhor e largou-o.
-  aquele jovem da Polcia... No o reconheci.
Levei-lhe o saco at  porta e ela seguiu a meu lado. O saco pesava mais do que poderia parecer. Que 
transportaria? Quilos de batatas?
- No toque. A porta no est fechada  chave.
As portas de Wilbraham Crescent pareciam nunca estar fechadas  chave!
- Como vo as coisas? - perguntou-me, tagarela e curiosa. - Parece que ele casou com uma mulher muito 
abaixo da sua categoria...
Fiquei sem saber a quem ela se referia.
- Quem? Tenho estado ausente...
- Ah, compreendo! Andou a seguir algum, naturalmente... Referia-me a Mistress Rival. Estive no inqurito 
e achei-a com um aspecto muito ordinrio. Tambm no pareceu nada transtornada com a morte do 
marido.
- No o via h quinze anos...
- Angus e eu somos casados h vinte anos.Suspirou. -  muito tempo. E ele, agora que no est na 
universidade, no faz outra coisa seno trabalhar no jardim... Uma pessoa nem sabe com que se entreter.
Nesse momento, Mr. McNaughton surgiu da esquina da casa, de enxada na mo.
- Ah, minha querida, j voltaste! Eu levo-te o saco...
- Ponha-o na cozinha - disse-me Mrs. McNaughton, muito depressa, e deu-me uma cotovelada.Trouxe s 
os flocos de aveia, os ovos e um melo - acrescentou, dirigindo-se ao marido, toda sorridente.
Pus o saco em cima da mesa da cozinha e senti tilintar.
Flocos de aveia uma fava! Deixei os meus instintos de espio levar a melhor... Debaixo de uma camuflagem 
de folhas de gelatina, estavam trs garrafas de usque.
Compreendi por que motivo Mrs. McNaughton se mostrava, por vezes, to animada e tagarela e, tambm, 
um pouco cambaleante. Talvez tivesse sido por
isso que McNaughton desistira da sua carreira de professor.

202

Naquela manh parecia que toda a vizinhana andava na rua. Encontrei Mr. Bland, quando seguia pelo 
crescente na direco da Albany Road. Mr. Bland parecia em excelente forma e reconheceu-me 
imediatamente.
- Como est? E como vo os crimes? Sei que conseguiram identificar o cadver... O patife parece que 
tratou a mulher muito mal... Desculpe, mas voc no
faz parte da Polcia local, pois no?
Respondi, evasivamente, que viera de Londres.
- Quer dizer que a Scotland Yard est interessada, hem?
- Bem... - redargui, de novo evasivamente, e fiquei-me por a.
- Compreendo, compreendo. No se devem contar histrias fora da escola. No o vi no inqurito...
Respondi-lhe que estivera no estrangeiro.
- Tambm eu, meu rapaz, tambm eu! - Piscou-me o olho.
- Alegre Paris? - indaguei, mas no retribu a piscadela de olho.
- Pena tenho de no ter sido. No, fiz apenas uma viagem de um dia a Bolonha. - Deu-me uma cotovelada, 
tal e qual como Mrs. McNaughton!, e acrescentou: - No levei a patroa. Emparelhei com uma mida loura, 
uma autntica brasa.
- Viagem de negcios? - perguntei, e rimo-nos ambos, como homens do mundo.
Ele seguiu na direco do nmero 61 e eu segui o meu caminho para a Albany Road.
Sentia-me descontente comigo prprio. Como Poirot dissera, os vizinhos poderiam, com certeza, dizer 
mais coisas. No era, de facto, natural que ningum
tivesse visto nada. Talvez Hardcastle no tivesse feito as perguntas adequadas... Mas lembrar-me-ia, 
acaso, de algumas mais apropriadas? Quando cheguei  Albany Road, elaborei mentalmente uma lista de 
perguntas. Era mais ou menos deste teor:

Mr. Curry (Castleton) fora drogado. Como?
Mr. Curry (Castleton) fora morto. Quando?
Mr. Curry (Castleton) fora levado para o n.o 19.
Como?
Algum devia ter visto qualquer coisa! Quem?
Algum devia ter visto qualquer coisa! O qu?

Virei de novo  esquerda e segui ao longo de Wil braham Crescent, tal como acontecera no dia 9 de 
Setembro. Deveria visitar Miss Pebmarsh? Tocar  campainha e dizer... Dizer o qu?
E se visitasse Miss Waterhouse? Mas que diabo lhe poderia dizer?
Mrs. Hemming, talvez? A essa pouco importaria o que dissesse. No prestaria grande ateno, mas o que 
dissesse, embora irrelevante e casual, talvez conduzisse a qualquer coisa.
Continuei a andar e a deduzir mentalmente os nmeros, como anteriormente. Mr. Curry tambm per correra 
aquele caminho, a olhar para os nmeros, at encontrar o da casa que tencionava visitar?
Wilbraham Crescent nunca parecera to requintadamente burgus. Quase dei comigo a exclamar, em 
estilo muito vitoriano: "Ah, se estas pedras falassem!..." Parecia ter sido uma frase favorita daqueles 
tempos. Mas as pedras no falam, assim como no falam os tijolos e a argamassa nem, to-pouco, o 
gesso e
o estuque. Wilbraham Crescent manteve-se silencioso.
Antiquado, reservado, pelintra e pouco dado a conversas. Desaprovador, tive a certeza, de transeuntes 
ocasionais, que nem sequer sabiam o que procuravam.
Via-se pouca gente. Passaram dois rapazes de bicicleta e duas mulheres com sacos de compras. As 
casas, em si, pareciam embalsamadas como mmias, to raros eram os sinais de vida que envidenciavam. 
Com preendi porqu. Aproximava-se a uma hora da tarde, a hora santificada pelas tradies inglesas para a 
refeio
chamada do meio-dia. Numa ou duas casas vi, atravs 

204

das janelas sem cortinas, algumas pessoas sentadas  mesa. Mas at isso era raro, pois ou as janelas 
tinham cortinas de nylon, a verso moderna da em tempos popular renda de Nottingham, ou, e isso era 
muito mais
provvel, quem estava em casa almoava na cozinha "moderna", de acordo com o costume da dcada de 
1960.
Era, pensei, uma hora perfeita para um assassnio.
Teria o assassino pensado o mesmo? Aquelas circunstncias peculiares teriam feito parte do seu plano?
Cheguei, finalmente, ao nmero 19.
Parei a olhar, como acontecera a tantos outros mrbidos membros da comunidade. Naquela altura, porm, 
no estava mais ningum  vista. "Nenhuns vizinhos",
pensei tristemente. "Nenhuns curiosos inteligentes."
Senti uma dor aguda no ombro. Enganara-me. Estava ali um vizinho, um vizinho que seria muito til se 
pudesse falar... Encostara-me ao pilar da cancela do
nmero 20, onde se encontrava o mesmo gatarro amarelado que vira da primeira vez. Libertei o meu ombro 
das suas garras e disse-lhe umas palavras...
- Se os gatos pudessem falar...
O gato amarelo abriu a boca e soltou um miau alto e melodioso.
- Sei que podes, sei que podes falar to bem como eu. Mas no falas a minha lngua... Estavas aqui 
sentado, no outro dia? Viste quem entrou naquela casa
ou saiu dela? Sabes tudo quanto aconteceu? No me admiraria nada, bichano.
O gato no gostou dos meus comentrios, virou-me as costas e comeou a agitar a cauda.
- Peo perdo, majestade.
Lanou-me um olhar frio, por cima do lombo, e comeou a lavar-se cuidadosamente. No havia dvida que 
Wilbraham Crescent no sabia o que eram verdadeiros vizinhos. O que eu queria e o que Hardcastle
tambm queria era uma velhota simptica, bisbilhoteira e mexeriqueira, a quem sobrasse tempo, uma 
velhota sempre em nsias por vir at  rua presenciar al gum escndalo. Mas, infelizmente, esse gnero de 
velhas parecia uma espcie extinta. Agora as velhinhas sentam-se todas em grupinhos, em lares para 
senhoras
idosas onde no faltam os confortos indispensveis 
velhice, ou enchem os hospitais, cujas camas so ur gentemente necessrias para aqueles que esto de 
facto doentes. Os coxos, os aleijados e os velhos j no vivem nas suas prprias casas, entregues aos 
cuidados de
uma servial fiel ou de algum parente pobre e apatetado, grato por ter, assim, um lar. Isso constitua um 
grave transtorno para a investigao criminal.
Olhei para o outro lado da rua. Porque no haveria vizinhos daquele lado? Porque no havia uma srie de 
casas simpticas, viradas para mim, em vez daquele
grande monstro de cimento armado, de aspecto to desumano? Era, sem dvida, uma espcie de colmia 
humana, habitada por abelhas obreiras que passavam
todo o dia fora de casa e s regressavam  noitinha,
para lavarem a roupa interior ou retocarem a cara e irem ter com os namorados. Graas ao contraste com a 
desumanidade daquele prdio imenso, comecei a sentir uma espcie de ternura pela burguesia fanada de 
Wilbraham Crescent.
Bateu-me nos olhos um claro de luz, vindo mais ou menos do meio do prdio. Fiquei intrigado e olhei para 
cima. O claro repetiu-se. Estava uma janela
aberta e algum a olhar para a rua, um rosto parcialmente obliterado por qualquer coisa contra ele com 
primida. O claro de luz repetiu-se mais uma vez.
Levei a mo  algibeira. Trazia muitas coisas nas algibeiras, coisas que podiam ser teis - nem imaginam 
com que frequncia! Um rolinho de adesivo; alguns
instrumentos de aspecto inofensivo, capazes de abrir a maioria das portas fechadas  chave; uma latinha 
de p cinzento, com um rtulo a dizer que continha o que no continha, e mais um ou dois objectos que a
maioria das pessoas no saberia identificar. Entre outras

206

coisas, tinha, tambm, um pequeno culo de observar pssaros. No era muito potente, mas s vezes 
fazia jeito. Tirei-o e assestei-o.
Estava uma criana  janela. Vi uma trana comprida cada sobre um ombro. A garota tinha um binculo 
pequeno, de teatro, e observava-me com uma ateno que se podia qualificar de lisonjeadora. No entanto, 
como no havia mais nada ali que pudesse observar, talvez no fosse to lisonjeadora como parecia... De 
sbito, porm, surgiu outra distraco inesperada em Wilbraham Crescent.
Um Rolls-Royce muito velho apareceu na estrada, impante de dignidade e conduzido por um motorista que 
tambm j no devia nada  juventude e que, embora de aspecto respeitvel, parecia muito aborrecido com 
a vida. Passou por mim com a solenidade de todo um cortejo de carros. Reparei que a minha jovem 
observadora assestara o seu binculo no Rolls-Royce...
Deixei-me ficar onde estava, a pensar.
Tenho a convico de que, quando se espera o tempo suficiente, acaba-se sempre por ser bafejado pela 
sorte. Acontece sempre qualquer coisa com que no
contvamos, em que nem sequer pensvamos. Iria ser assim, daquela vez? Olhei de novo para o grande 
prdio e localizei, com cuidado, a janela que me interessava, a contar dos lados e do rs-do-cho para 
cima. Terceiro andar. Segui pela rua acima at chegar  entrada do prdio. Tinha uma passagem larga, 
para carros,
que dava para as traseiras do edifcio, onde havia canteiros de flores, muito certinhos, no meio da relva.
Acho sempre conveniente proceder a todos os movimentos necessrios para dar a iluso de que sucedeu 
qualquer coisa. Por isso sa do caminho de carros,
aproximei-me do prdio, olhei para cima, como se me
tivesse assustado, baixei-me e fingi procurar qualquer coisa. Por fim endireitei-me, ao mesmo tempo que 
fingia transferir um objecto da mo para a algibeira.
A seguir contornei o prdio, at chegar de novo  entrada.
Suponho que, durante quase todo o dia, se devia encontrar l um porteiro, mas na hora sagrada da uma s 
duas o trio estava deserto. Havia uma campainha
com o letreiro de PORTEIRO, em que no toquei. Meti-me no elevador e carreguei no boto do terceiro 
andar. Quando cheguei, tive de proceder com cuidado.
Do exterior, parece simples localizar determinado aposento mas o interior de um prdio causa confuso.
No entanto, eu tivera oportunidade de adquirir muita prtica daquelas coisas e estava convencido de que 
sabia qual a porta que me interessava. O nmero que a
identificava era, para o melhor ou para o pior, o 77...
Bem, o sete  um nmero de sorte... L vou eu!
Premi o boto da campainha e recuei, a aguardar os acontecimentos.

25

NARRATIVA DE COLIN LAMB

Esperei apenas um ou dois minutos, antes de a porta se abrir.
Uma robusta rapariga nrdica, de rosto corado e vestido alegremente colorido, olhou-me com ar 
interrogador. Lavara as mos,  pressa, mas ainda conservavam vestgios de farinha e tinha um salpico de 
massa no nariz. No me custou, por isso, a adivinhar o que estivera a fazer.
- Desculpe, mas mora aqui uma garotinha, no mora? Deixou cair uma coisa da janela...
Sorriu-me, encorajadoramente. O ingls ainda no era o seu forte.
- Desculpe... Que disse?
- Uma criana, aqui uma menina.

208

- Sim, sim.
- Deixou cair uma coisa da janela. - Recorri aos gestos, para me fazer entender melhor. - Apanhei-a e 
trouxe-a c acima.
Abri a mo, na qual tinha uma faca de fruta, de prata. A rapariga olhou-a, sem a reconhecer.
- No creio... No vi...
- Est atarefada a cozinhar - observei, com um sorriso de compreenso.
- Sim, sim, eu cozinhar - concordou, a acenar vigorosamente com a cabea.
- No a quero incomodar. Se me deixar ir levar-lha...
- Perdo?
Por fim pareceu compreender-me, deixou-me entrar e levou-me a uma saleta agradvel. Junto da janela 
estava um sof e, nele, uma garota de nove ou dez
anos, com uma perna metida num aparelho de gesso.
- Este senhor disse que... que deixar cair...
Felizmente, nesse instante veio da cozinha um forte cheiro a queimado e a rapariga soltou uma 
exclamao de desagrado.
- D-me licena, por favor.
- V, eu c me arranjo - respondi-lhe.
Afastou-se a correr e eu entrei na sala, fechei a porta e aproximei-me do sof.
- Como passa?
- Bem, e o senhor? - redarguiu a pequenita, e observou-me com um olhar prolongado e penetrante, que 
quase me fez perder a coragem.
Era uma garota feiota, de cabelo escorrido, acastanhado, preso em duas tranas. Tinha fronte abaulada, 
queixo pontiagudo e olhos cinzentos muito inteligentes.
- Sou Colin Lamb - apresentei-me. - Como te chamas?
- Geralmente Mary Alexandra Brown - respondeu sem hesitar.
- Meu Deus, que grande nome! Como te tratam?
- Por Geraldine. As vezes chamam-me Gerry, mas eu no gosto. Alm disso,o meu pai no aprova os 
diminutivos.
Uma das grandes vantagens de lidar com crianas  o facto de elas possurem a sua lgica prpria. 
Qualquer pessoa adulta ter-me-ia perguntado imediatamente o que queria, mas Geraldine estava disposta a 
entabular conversao sem recorrer a perguntas tolas.
Estava sozinha e aborrecida e o aparecimento de uma visita, fosse de que tipo fosse, era uma novidade 
agra dvel. Enquanto eu no demonstrasse ser um tipo enfadonho e sem interesse, conversaria comigo de 
bom grado.
- Suponho que o teu pai no est em casa?
Respondeu com a mesma prontido e riqueza de pormenores de que dera provas anteriormente:
- Est a trabalhar na Cartinghaver Engineering Works, em Beaverbridge. Fica exactamente a vinte e quatro 
quilmetros daqui.
- E a tua me?
- A minha me morreu - respondeu Geraldine, com o mesmo desembarao.- Morreu quando eu tinha dois 
meses. Vinha de Frana, num avio que caiu.
Morreram todos.
Falava com certa satisfao e eu compreendi que, para uma criana,o facto de a me ter morrido num 
acidente impressionante se revestia de uma certa
glria.
- Compreendo. Por isso tens... - Olhei na direco da porta.
- Ingrid.  da Noruega e s veio h duas semanas. Ainda no sabe ingls que chegue para falar. Eu estou a 
ensin-la.
- E ela ensina-te noruegus?
- Poucochinho.
- Gostas dela?
- Gosto. Mas os seus cozinhados so, s vezes, esquisitos. Gosta de comer peixe cru, veja l!

210

- Tambm comi peixe cru na Noruega. s vezes  muito bom.
Geraldine pareceu duvidar muito.
- Hoje est a ver se consegue fazer uma tarte de mel.
- Isso parece bom.
- E . Eu gosto de tarte de mel. - Perguntou, delicadamente: - Veio c almoar?
- No. Ia a passar, l em baixo, e pareceu-me que deixaste cair qualquer coisa da janela.
- Eu?
- Sim.
Estendi-lhe a faca de prata. Geraldine olhou-a, primeiro com desconfiana, e por fim com sinais de 
aprovao.
-  bonita - comentou. - O que ?
- Uma faca de fruta.
Abri-a, para a ver melhor.
- Pode-se descascar mas e coisas assim com ela, no pode?
- Pode.
- No  minha - confessou Geraldine, a suspirar. - No a deixei cair. Porque pensou que fui eu?
- Bem, estavas  janela e...
- Passo a maior parte do tempo  janela. Ca e parti a perna...
- Pouca sorte.
- Pois foi. Alm disso, no a parti de maneira interessante. Ia a descer do autocarro, ele arrancou 
bruscamente... Ao princpio doeu-me muito, mas agora j no di.
- Deve ser muito aborrecido para ti.
- Pois . O meu pai traz-me coisas: plasticina, livros, lpis de cor, quebra-cabeas e coisas assim... Mas 
uma pessoa cansa-se dessas brincadeiras e  por
isso que passo muito tempo a espreitar pela janela com isto!
Mostrou-me o binculo, cheia de orgulho.
- Posso ver? - Peguei no binculo, levei-o aos olhos e espreitei pela janela. -  um bom!
Era, de facto, excelente. Se fora o pai que lho dera, no olhara a despesas. Via-se o nmero 19 de Wil, 
braham Crescent e as casas vizinhas com uma nitidez
extraordinria.
-  excelente - elogiei. - De primeira classe.
-  a srio - explicou Geraldine, vaidosa. No  como os de brincar, para crianas.
- Ah, pois no!
- Tenho um livrinho - mostrou-mo -, onde escrevo coisas e horas.  como o jogo dos comboios. Tenho um 
primo chamado Dick que se entretm com
isso. Tambm registamos nmeros de automveis. Comeamos por um e vemos quantos conseguimos, 
percebe?
- Deve ser engraado.
- Pois . Infelizmente no passam muitos carros por esta rua e, por isso, tive de desistir, por agora.
- Suponho que sabes tudo acerca daquelas casas. Quem l mora...
Deitei o barro  parede com um ar muito casual, mas Geraldine pegou-me logo na palavra:
- Oh, pois sei! Claro que no sei os nomes verdadeiros, mas invento-os.
- Deve ser divertido.
- Ali, mora a marquesa de Carrabs, naquela casa que tem as rvores maltratadas. Lembra-se de O Gato 
das Botas? Ela tem montes de gatos!
- Estive a falar com um deles, h bocado. Um amarelado.
- Eu vi.
- Deves ser muito esperta. Creio que no te escapa nada...
Geraldine sorriu, satisfeita. No mesmo instante, Ingrid abriu a porta e entrou, ofegante.
- Est bem, sim?
- Estamos muito bem - respondeu Geraldine,

212

com firmeza. - No se preocupe, Ingrid. - Acenou
com a cabea e fez gestos com as mos. - Volte, v cozinhar.
- Muito bem, vou. Ainda bem que tem uma visita.
- Ela enerva-se quando cozinha - explicou Geraldine. - Sobretudo quando est a experimentar uma coisa 
nova. s vezes comemos muito tarde, por
causa disso. Ainda bem que o senhor veio.  bom ter algum para me distrair, pois assim no penso na 
fome.
- Diz-me mais coisas daquelas casas e do que vs. Quem mora na casa seguinte, naquela arranjada?
- Uma mulher cega. No v nada, mas caminha como se visse. Foi o porteiro que me disse. Chama-se 
Harry e  muito simptico, conta-me muitas coisas.
Falou-me do assassnio.
- Do assassnio? - perguntei, a fingir-me adequadamente surpreendido.
Geraldine acenou com a cabea e os seus olhos brilharam. A informao que se preparava para me dar 
fazia-a sentir-se importante.
- Houve um assassnio naquela casa e eu vi-o, praticamente.
- ue interessante!
- E no ? Nunca tinha visto um assassnio... Quero dizer, uma casa onde houve um assassnio.
- Mas que viste, afinal?
- Bem, no se passavam muitas coisas, naquela ocasio.  um perodo do dia muito parado. Mas de 
repente saiu uma pessoa da casa, a gritar, e eu compreendi que devia ter acontecido alguma coisa.
- Quem  que gritava?
- Uma mulher. Era nova e bonita, por sinal. Saiu pela porta fora, aos gritos... Vinha um homem na rua e ela 
transps a cancela e agarrou-se a ele... assim.Estendeu os braos e, de sbito, fitou-me. - Ele parecia-se 
muito consigo.
- Devo ter um ssia! - exclamei, em tom de brincadeira. - Que se passou depois? Isso  muito 
emocionante!
- Bem, ele sentou-a no cho, sem cerimnias, e correu para dentro de casa. O imperador,  o gato 
amarelo; chamo-lhe Imperador por ele ser to orgulhoso, parou de se lavar e pareceu muito surpreendido. 
Depois Miss Espeto saiu de casa,  aquela, do nmero dezoito, e parou nos degraus, a olhar.
- Miss Espeto?
- Chamo-lhe assim por ela ser to feia. Tem um irmo e manda nele.
- Continua - pedi, interessado.
- A seguir aconteceram muitas coisas. O homem saiu de casa... Tem a certeza de que no era voc?
- Sou um tipo muito vulgar - respondi, modestamente. - H muitos como eu.
- Sim, isso  verdade - admitiu Geraldine, nada lisonjeadora. - Bem, o homem correu pela rua abaixo e foi 
telefonar  cabina. Pouco depois, comeou a chegar a Polcia. - Os olhos da mida cintilavam.Montes de 
polcias! Levaram o morto numa espcie de ambulncia. Claro que, entretanto, juntara-se muita
gente, a olhar. Tambm l vi Harry, o porteiro. Ele
contou-me tudo, depois.
- Disse-te quem foi assassinado?
- Disse que tinha sido um homem. Ningum sabia o seu nome.
- Isso tudo  muito interessante.
Pedi fervorosamente aos cus que Ingrid no voltasse naquele momento com uma deliciosa tarte de mel ou 
qualquer outra guloseima.
- Mas volta um bocadinho atrs, sim? Viste o homem... o homem que assassinaram, chegar quela
casa?
- No. Suponho que esteve l sempre.
- Queres dizer que morava l?
- Oh, no! Naquela casa s mora Miss Pebmarsh.

214

- Sabes, ento, como ela se chama?
- Vinha nos jornais, com a notcia do crime. E a rapariga que gritou chama-se Sheila Webb. Harry disse-me 
que o homem que mataram se chamava Mister
Curry.  um nome muito esquisito, no ? H uma comida com o mesmo nome. Mas tambm houve outro 
assassnio sabe? No foi no mesmo dia, foi depois... na cabina telefnica. Vejo-a daqui, mas para isso 
tenho de me debruar toda e virar a cabea. Se soubesse que ia haver um crime, ter-me-ia debruado
e teria visto, assim, no vi. Nessa manh, estava muita
gente l em baixo, na rua, a olhar para a casa defronte.  estpido no acha?
- Acho.  muito estpido.
Ingrid voltou:
- Venho daqui a bocadinho. Falta pouco - anunciou.
- No precisamos dela - disse Geraldine, quando a rapariga saiu. - Enerva-se com as refeies, embora s 
tenha de preparar esta, alm do pequeno-almoo.
 noite o meu pai vai l abaixo, ao restaurante, e manda trazerem-me qualquer coisa. Peixe ou qualquer 
coisa... No  comer a srio - lamentou-se, tristemente.
- A que horas costumas almoar, Geraldine?
- Jantar, quer dizer? Agora  o meu jantar;  noite no janto, ceio. Bem, janto quando a Ingrid acaba de 
cozinhar, a qualquer hora. Ela  muito cmica,
com as horas. O pequeno-almoo tem que o ter pronto a tempo, porque o meu pai zanga-se, mas o 
jantar... s vezes  ao meio-dia, outras tenho de esperar at s
duas horas... Ela diz que no  preciso comer a horas
certas; come-se quando a comida est feita.
- Isso  uma ideia muito prtica. A que horas almoaste... quero dizer, jantaste, no dia do crime?
- Foi um dos dias em que calhou ao meio-dia.  o dia de sada da Ingrid, percebe? Ela vai ao cinema ou 
arranjar o cabelo e Mistress Perry vem-me fazer
companhia.  terrvel. D palmadinhas.
- D palmadinhas? - perguntei, um pouco intrigado.
- Sim, na cabea. E diz coisas como: "Querida
pequenita"... No  uma pessoa com quem se possa
conversar como deve ser... mas traz-me doces e coisas assim.
- Que idade tens, Geraldine?
- Dez anos. Dez anos e trs meses.
- Sabes conversar muito bem, com muita inteligncia - elogiei.
- Isso  porque tenho de conversar muito com o meu pai - explicou, com toda a seriedade.
- Portanto, jantaste cedo, no dia do crime?
- Sim, para a Ingrid poder lavar a loua e sair antes da uma hora.
- Nessa manh estiveste  janela, a observar as pessoas.. .
- Sim, parte do tempo. Cerca das dez horas estive entretida a fazer palavras cruzadas.
- Tenho estado a pensar se no terias visto Mister Curry chegar quela casa...
- No vi. Concordo que  estranho.
- Bem, talvez ele tenha chegado muito cedo.
- No foi  porta da frente e no tocou  campainha. Se fosse, t-lo-ia visto.
- Se calhar entrou pelo jardim... quero dizer, pelo outro lado da casa.
- Oh, no! D para outras casas e as pessoas no deixariam ningum passar pelos seus jardins.
- Suponho que no.
- Gostava de saber como ele era...
- Bem, era velho, tinha cerca de sessenta anos. Usava a cara rapada e vestia um fato cinzento-escuro.
- Parece muito vulgar - comentou Geraldine, desaprovadora.
- Acho que deves ter dificuldade em distinguir uns dias dos outros, visto estares aqui imobilizada e sempre 
a olhar l para fora.

216

- No  nada difcil! - afirmou, sem perder a deixa. - Sei-lhe dizer tudo acerca dessa manh. At sei quando 
Mistress Caranguejo chegou e quando saiu.
- Mistress Caranguejo?  a mulher-a-dias?
- . Arrasta-se mesmo como um caranguejo! Tem um filho, que s vezes vem com ela. Mas nesse dia no 
veio. Miss Pebmarsh sai cerca das dez horas,
para ensinar crianas numa escola de cegos. Mistress Caranguejo sai por volta do meio-dia e, s vezes, 
leva
um embrulho que no trazia  chegada. Bocados de manteiga e de queijo, naturalmente... Como Miss 
Pebmarsh no v... Sei muito bem o que aconteceu nesse
dia porque a Ingrid e eu estvamos zangadas e ela no queria falar comigo. Ando a ensinar-lhe ingls e ela 
queria saber como se diz "at  vista". Teve de mo dizer em alemo: Auf Wiedersehen. Sei que  assim 
porque uma vez estive na Sua e as pessoas diziam-no. Tambm diziam Grss Gott.  feio dizer isso em 
ingls.
- Ento que ensinaste a Ingrid a dizer?
Geraldine desatou a rir, maliciosamente, e teve dificuldade em falar. Por fim, l conseguiu:
- Ensinei-a a dizer: "Suma-se daqui para fora!"
Ela disse-o a Miss Bulstrode, que mora aqui ao lado, e Miss Bulstrode ficou furiosa! Ingrid descobriu e ficou 
muito zangada comigo. S fizemos as pazes  hora do ch do dia seguinte.
Digeri a informao...
- Por isso entretiveste-te com o teu binculo...
Geraldine acenou com a cabea.
- E por isso sei que Mister Curry no entrou pela porta da frente. Penso que talvez tenha entrado de noite e 
se tenha escondido no sto. Acha possvel?
- Acho que tudo  possvel, mas no me parece muito provvel.
- Pois no. Ele teria fome, no teria? E no poderia pedir a Miss Pebmarsh o pequeno-almoo, se estava 
escondido dela.

- E ningum foi l a casa? Absolutamente ningum? Algum que viesse num automvel... um vendedor...
- O merceeiro vem s segundas e s quintas-feiras
e o leiteiro s oito e meia da manh.
A garota era uma autntica enciclopdia!
- A hortalia e coisas assim  Miss Pebmarsh que
compra. No veio ningum, a no ser da lavandaria.
Por sinal era uma lavandaria nova.
- Uma lavandaria nova?
- Sim. Costumava ser a Southern Down Laundry, que  a lavandaria da maioria das pessoas daqui. Mas 
naquele dia foi a Snowflake Laundry. Nunca a tinha visto. Deve ser nova.
Esforcei-me por no atraioar, pela voz, o enorme interesse que sentia. No queria que ela comeasse a 
fantasiar.
- Veio trazer ou buscar a roupa?
- Trazer. O cesto at era muito grande, muito maior do que  costume.
- Foi Miss Pebmarsh que o recebeu?
- Claro que no. Ela tinha sado outra vez.
- A que horas foi isso, Geraldine?
-  uma e trinta e cinco, exactamente. Tomei nota - respondeu, orgulhosamente.
Pegou num livrinho, abriu-o e apontou um registo, com o indicador um bocado sujo: Vieram da lavandaria  
1.35 h. No I 9. v
- Devias ir para a Scotland Yard!
- Tm mulheres-detectives? Gostaria imenso! Mulher-polcia, no. Acho as mulheres-polcias ridculas.
- Ainda no me disseste o que aconteceu quando vieram da lavandaria.
- No aconteceu nada. O motorista apeou-se, abriu a porta de trs, tirou o cesto e carregou-o, com 
dificuldade, para as traseiras da casa. Suponho que no pde

218

entrar, por a porta estar fechada  chave, e deixou o cesto no patamar.
- Como era ele?
- Vulgar.
- Como eu?
- Oh, no! Era muito mais velho. Mas no o vi bem porque ele aproximou-se da casa por este ladoapontou 
para a direita. - Parou defronte do nmero dezanove, embora estivesse fora da sua mo... mas isso no tem 
importncia, numa rua como esta. Depois entrou, todo dobrado debaixo do cesto, e s lhe vi as
costas. Quando voltou, vinha a esfregar a cara. Naturalmente estava cansado e com calor por ter 
transportado o cesto.
- E partiu?
- Partiu. Porque lhe parece to interessante?
- Bem, no sei... Pensei que talvez ele tivesse visto alguma coisa com interesse.
Ingrid abriu a porta e entrou a empurrar uma mesinha com rodas.
- Agora vamos jantar! - anunciou, alegremente.
- ptimo! - exclamou Geraldine. - Estou esfaimada. 
- Tenho de ir andando - disse, e levantei-me.Adeus, Geraldine.
- Adeus. E isto? - pegou na faca de fruta.No  minha... tenho pena.
- Parece que no  de ningum em especial, pois no?
- Pode ser tesouro achado, ou como se diz?...
- Acho que sim... Creio que podes ficar com ela, at algum a reclamar... mas no creio que algum a 
reclame.
- D-me uma ma, Ingrid.
- Ma?
- Pomme! Apfell!
No ia nada mal em lingustica...

26

Mrs. Rival empurrou a porta do Peacock's Arms e avanou, com pouca segurana, para o balco. Falava 
em voz baixa e via-se que no era desconhecida na casa. O empregado saudou-a afectuosamente.
- Como vai, Flo?
- No vai muito bem. No est certo. Sei do que estou a falar, Fred, e digo que no est certo.
- Claro que no est certo - concordou Fred, apaziguador. - Que deseja? O costume?
Mrs. Rival acenou afirmativamente, pagou e comeou a sorver a bebida. Fred afastou-se, para atender outro 
cliente. A bebida animou um bocadinho Mrs. Rival.
Continuava a falar entredentes, mas com uma expresso mais animada. Quando Fred voltou, ela falou-lhe, 
em tom mais suave:
- Mesmo assim, no tolerarei semelhante coisa! No posso suportar a falsidade, nunca pude!
- Pois claro, Flo. - Fred observou-a com olhar entendido, e comentou: - J bebeu uns copitos...E pensou, 
para consigo: "Mas ainda aguenta mais uns
dois. Qualquer coisa a transtornou..."
- Falsidade - repetiu Mrs. Rival. - Prevari... prevari... Bem, voc sabe que palavra quero dizer.
- Pois sei, Flo.
Fred foi atender outro cliente, falaram de ces e Mrs. Rival continuou a resmungar.
- No me agrada e no permitirei. Hei-de diz-lo. Tm de se convencer de que no me podem tratar desta 
maneira. Oh, no, no podem! No est certo, e se
uma pessoa no se defende, quem a defender? D-me mais outra, queridinho - pediu, em voz mais alta, e 
Fred fez-lhe a vontade.
- No seu lugar, ia para casa depois de beber essa.
Que teria transtornado tanto a velhota? Geralmente mostrava-se bem-disposta, uma boa alma sempre 
pronta a rir.

220

- Acabaro por me meter em maus lenis, Fred. Quando algum nos pede que faamos uma coisa, deve
dizer-nos tudo a esse respeito, deve dizer-nos o que significa e o que pretende fazer. Mentirosos. Imundos 
mentirosos! Mas eu no permitirei.
- Acho melhor ir para casa - insistiu Fred, ao ver uma lgrima prestes a rolar pelo esplendor da pintura. - Vai 
chover, e chover muito, e a chuva estragar o seu bonito chapu.
Mrs. Rival esboou um leve sorriso de aprovao.
- Sempre gostei de centureas azuis. Meu Deus, no sei que fazer!
- V para casa e durma um bom sono, Floaconselhou Fred, bondosamente.
- Talvez, mas...
- Ento? Com certeza no quer estragar esse chapu. ..
- L isso  verdade... Sim,  muito verdade.  uma prof... profunda... no, no  isso que quero dizer. Que 
quero eu dizer, Fred?
- Profunda observao.
- Muito obrigada.
- No tem de qu, Flo.
Mrs. Rival escorregou do banco e encaminhou-se para a porta, um bocadinho cambaleante, mas no muito.
- Parece que a velha Flo est um pouco transtornada, esta noite - observou um dos clientes.
- Geralmente  muito alegre, mas todos temos os nossos altos e baixos - disse um indivduo de ar 
tristonho.
- Se algum me tivesse dito - prosseguiu o primeiro homem - que Herry Vranger chegaria em quinto lugar, 
atrs da Queen Caroline, no acreditaria! Deve
ter havido batota. As corridas, hoje em dia, no so
leais. Drogam os cavalos, todos eles...
Mrs. Rival sara do Peacock's Arms. Olhou para o cu, hesitante. Sim, talvez fosse chover... Meteu pela rua 
fora, estugou um pouco o passo, virou  esquerda
e depois  direita e, por fim, parou diante de uma casa muito modesta. Quando tirou a chave e subiu os 
primeiros degraus, uma cabea espreitou pela porta e uma voz informou-a:
- Est um cavalheiro  sua espera l em cima.
-  minha espera? - perguntou Mrs. Rival, um pouco surpreendida.
- Bem, pode-se chamar-lhe um cavalheiro... est bem vestido e tudo o mais, mas no chega aos 
calcanhares de Lorde Algernon Vere de Vere...
Mrs. Rival conseguiu encontrar o buraco da fechadura, introduzir a chave e abrir a porta.
A casa cheirava a couves, peixe e eucalipto. O ltimo cheiro era quase permanente naquele trio. A 
senhoria de Mrs. Rival tinha muito cuidado com o peito, no Inverno, e comeava a prevenir-se em meados 
de Setembro... Mrs. Rival subiu a escada, apoiada ao corrimo, empurrou a porta do primeiro andar e 
entrou. De sbito, porm, estancou e, a seguir, recuou
um passo.
O detective-inspector Hardcastle levantou-se da cadeira onde estava sentado.
- Boas noites, Mistress Rival.
- Que deseja? - perguntou a mulher, com menos delicadeza do que era habitual nela.
- Bem, precisei de vir a Londres, em servio, e como desejava esclarecer uns pormenores consigo, vim at 
c, na esperana de a encontrar. A... a mulher l
de baixo enganou-se, ao dizer que a senhora no se deveria demorar muito.
- Bem, mas no compreendo...
O inspector puxou uma cadeira e convidou, delicadamente:
- Sente-se, por favor.
Dir-se-ia que era ele o dono da casa e ela a visita.
Mrs. Rival sentou-se e olhou-o fixamente.
- De que pormenores se trata?

222

- Coisas sem importncia, que surgiram. 
- Acerca... acerca do Harry?
- Sim. - Bem... - A mulher hesitou, um momento. - Escute... - Mrs. Rival falou com uma certa agressividade 
e as narinas do inspector captaram o
cheiro a lcool do seu hlito. - Escute, o Harry acabou-se e no quero pensar mais nele. Apresentei-me 
quando vi o retrato no jornal, no apresentei? Apresentei-me e disse-lhe tudo a respeito dele. J passou 
muito tempo e no quero recordar o que aconteceu. No lhe posso dizer mais nada, disse-lhe tudo quanto 
sabia e no quero ouvir falar mais do assunto.
- Trata-se de uma coisa sem importncia - insistiu o inspector, em tom suave e pesaroso.
- Pois sim, j que tem de ser. De que se trata? Acabemos com isso.
- Reconheceu o indivduo como seu marido, ou como o homem com o qual efectuou uma cerimnia de 
casamento, h cerca de quinze anos. Foi isto, no foi?
- Julgava que j tivesse tido tempo de saber exactamente h quantos anos foi.
"Mais esperta do que eu julgava", pensou o inspector.
- Tem razo, procedemos a investigaes a esse respeito. Casaram no dia quinze de Maio de mil 
novecentos e quarenta e oito.
- Dizem que ser noiva de Maio d azar... A mim no me deu sorte.
- Apesar dos anos que passaram, identificou o seu marido com muita facilidade.
- Ele no envelheceu muito - redarguiu Mrs. Rival, pouco  vontade. - Teve sempre muito cuidado consigo.
- Alm disso, deu-nos ainda uma informao que ajudou a corroborar a identificao. Escreveu-me acerca 
de uma cicatriz...
- Sim, atrs da orelha esquerda. Aqui... - Mrs. Rival levantou a mo e apontou o ponto exacto.
- Atrs da orelha esquerda dele? - insistiu Hard castle.
Sim, creio que sim. Sim, tenho a certeza. Claro que, numa pressa, nunca distinguimos a esquerda da 
direita, pois no? Mas era do lado esquerdo do pescoo de le. Aqui. - Voltou a colocar a mo no mesmo 
ponto.
- E ele cortou-se ao barbear-se, no foi o que disse?
- Foi. O co saltou para ele... Tnhamos um co muito traquinas, nessa altura, muito meigo... Atirava-se a 
ns, para nos demonstrar o seu carinho... O Harry tinha a navalha na mo e a lmina enterrou-se 
profundamente. Sangrou muito. Sarou, mas a cicatriz nunca desapareceu. - Recomeara a falar com muito 
mais
segurana.
 um pormenor muito importante, Mistress Rival. Os homens s vezes parecem-se muito, sobretudo 
quando passamos muitos anos sem os ver. Mas encontrar um homem parecido com o seu marido e, ainda 
por cima, com uma cicatriz no mesmo stio da que ele tinha... Enfim, a identificao assim torna-se mais 
segura. Parece-me que temos, agora, por onde comear.
- Ainda bem que est satisfeito.
- A propsito, esse acidente com a navalha... quando sucedeu?
Mrs. Rival pensou, um momento.
- Deve ter sido... uns seis meses depois de casarmos. Exactamente. Lembro-me de que arranjmos o co 
nesse Vero.
- Portanto, ele cortou-se em Outubro ou Novembro de mil novecentos e quarenta e oito?
- Isso mesmo.
- E depois de o seu marido a deixar, em mil no vecentos e cinquenta e um.. .
- No foi ele que me deixou; eu  que corri com ele - emendou Mrs. Rival, com dignidade.
- Pois claro, como quiser. Depois de correr com o 

224

seu marido, em mil novecentos e cinquenta e um, nunca mais o voltou a ver, at deparar com a sua 
fotografia no jornal?
- J lhe disse que no.
- Tem a certeza absoluta a esse respeito, Mistress Rival?
- Claro que tenho a certeza. Nunca mais voltei a pr os olhos em Harry Castleton at ao dia em que o vi 
morto.
-  estranho, sabe?  muito estranho...
- Porqu? Que quer dizer?
- O tecido cicatricial  uma coisa muito curiosa. Claro que, para si ou para mim, uma cicatriz  uma 
cicatriz... Mas os mdicos so capazes de descobrir muitas coisas, ao examinarem uma cicatriz. Podem, 
por exemplo, avaliar mais ou menos h quanto tempo um homem tem determinada cicatriz.
- No percebo aonde quer chegar.
- Quero chegar simplesmente a isto, Mistress Rival: segundo o mdico da Polcia e outro mdico que 
consultmos, a cicatriz que o seu marido apresenta
atrs da orelha indica claramente que o ferimento que a causou foi feito h cinco ou seis anos, no mximo.
- Tolice! No acredito. Eu... ningum pode saber uma coisa dessas. Pelo menos no foi nessa altura que...
- Portanto - prosseguiu Hardcastle, suavemente -, se aquela cicatriz resulta de um ferimento de h cinco ou 
seis anos, isso significa que, se o indivduo
foi seu marido, no tinha cicatriz nenhuma quando a deixou em mil novecentos e cinquenta e um.
- Talvez no tivesse. Mas, de qualquer maneira, trata-se do Harry.
- Mas a senhora afirma que no o voltou a ver desde que se separaram. Ora se no o voltou a ver, como 
poderia saber que ele arranjou uma cicatriz h cinco ou seis anos?
- Est a confundir-me! - protestou Mrs. Rival.Est a confundir-me muito. Talvez no tivssemos casado h 
tanto tempo, talvez no fosse em mil novecentos e quarenta e oito... Uma pessoa no se pode lembrar de 
tudo. O que interessa  que o Harry tinha aquela cicatriz e eu sabia-o.
- Compreendo - murmurou o inspector, e levantou-se. - Aconselho-a a reflectir muito bem nas declaraes 
que prestou, Mistress Rival. No deseja, com certeza, arranjar sarilhos.
- Arranjar sarilhos? Que quer dizer?
- Bem... perjrio - respondeu Hardcastle, quase em tom de quem se desculpa.
- Perjrio! Perjrio, eu!
- Sim.  um crime muito grave, aos olhos da lei... Poderia, at, ser presa... Claro que no prestou 
juramento, ao depor no inqurito, mas talvez tenha de
o prestar, um dia, num tribunal competente. Por isso... enfim, gostaria que pensasse bem, Mistress Rival. 
Talvez algum lhe sugerisse que nos falasse na cicatriz?
Mrs. Rival levantou-se e ficou muito direita e de olhos coruscantes. Naquele momento, parecia quase 
majestosa.
- Nunca ouvi tanta tolice na minha vida! Resolvi cumprir o meu dever, apresentei-me e ajudei-o, disse-lhe 
aquilo de que me lembrei... Se cometi um erro qualquer, acho natural. No fim de contas tenho muitos... 
enfim, muitos cavalheiros amigos e, s vezes,  possvel fazermos confuso. Mas no creio que me tenha 
enganado. Aquele homem era o Harry e o Harry tinha uma cicatriz atrs da orelha esquerda. Tenho a 
certeza disso! E agora, inspector Hardcastle, talvez seja melhor ir-se embora, em vez de continuar a 
insinuar
que lhe menti.
- Boas noites, Mistress Rival - despediu-se imediatamente o inspector. - Pense bem.
Assim que Hardcastle saiu, a atitude de desafio da mulher modificou-se por completo. Pareceu assustada 
e preocupada.

226

- Meterem-me nisto... - murmurou. - Meterem-me nisto... No continuarei... No me meterei em sarilhos 
seja l por causa de quem for! Dizerem-me coisas, mentirem-me, enganarem-me!  monstruoso! 
Monstruoso!
Comeou a andar nervosamente de um lado para o outro e, por fim, pareceu tomar uma deciso. Pegou 
num chapu-de-chuva e voltou a sair. Foi at ao fim
da rua, hesitou junto de uma cabina telefnica e depois encaminhou-se para o posto dos Correios. Entrou, 
pediu que lhe trocassem dinheiro e meteu-se numa das cabinas. Ligou para as informaes por moradas, 
pediu um nmero e aguardou que fizessem a chamada.
- Est ligado o nmero que deseja - informou a telefonista.
- Est?... Ah, s tu! Aqui, Flo... Bem sei que me disseste que no telefonasse, mas no o pude evitar. No 
foste leal comigo, no me disseste em que me ia
meter. Disseste apenas que seria desagradvel e embaraoso para ti se o indivduo fosse identificado. No 
me passou sequer pela cabea que me veria metida num assassnio... Claro, j esperava que me 
dissesses
isso. Mas no foi o que me explicaste... Sim, penso. Penso que tens a ver com o caso, seja l em que 
sentido for... No, no permitirei... H uma questo de ser cum... tu sabes a palavra... cmplice ou coisa 
parecida. Estou assustada, garanto-te. Essa ideia de me mandares escrever acerca da cicatriz foi estpida. 
Agora parece que ele s tinha a cicatriz h um ou dois anos, e eu jurei que j a tinha quando me deixou... 
 perjrio e posso ir parar  cadeia por causa disso!
 intil tentares convencer-me... No... Fazer um favor  uma coisa... Bem sei, bem sei que me pagaste. 
Mas no foi muito, tambm... Est bem, eu escuto,
mas j te digo que no... Est bem, est bem, eu calo-me... Que disseste?... Quanto?... Isso  muito 
dinheiro. Como sei que o tens mesmo que... Bem, sim, claro, isso seria diferente. Juras que no tiveste 
nada a
ver com o assunto?... Quero dizer, que no participaste na morte de ningum... No... enfim, tenho a 
certeza de que no farias. Claro que compreendo... s
vezes aliamo-nos a certas pessoas que vo mais longe do que ns iramos, acontecem coisas e a culpa 
no  nossa, mas... Na tua boca as coisas parecem sempre to plausveis... Foste sempre assim... Est 
bem, pen sarei no assunto. Mas ter de ser depressa... Amanh... A que horas?... Sim, sim, irei. Mas 
nada de cheques, podiam descobrir... No sei, francamente, se deverei continuar, mesmo que... Est bem, 
se tu o dizes... No queria ser desagradvel, acredita... Pronto, combinado.
Saiu do posto dos Correios a cambalear de extremo a extremo do passeio e a sorrir para consigo.
Valia a pena arriscar-se a umas complicaezitas com a Polcia por aquela quantia. Fazia-lhe muito jei to. 
E, bem vistas as coisas, os riscos no eram muito
grandes. Bastar-lhe-ia dizer que no sabia ou no se
lembrava. Havia muitas mulheres que no se lembravam de coisas sucedidas havia apenas um ano... Diria 
que fazia confuso entre o Harry e outro homem. Oh,
a lembrava-se de muitas coisas que poderia dizer!
Mrs. Rival possua um temperamento naturalmente mercurial. Sentia-se, naquele momento, to eufrica 
quanto se sentira deprimida pouco antes. Comeou a
pensar a srio nas primeiras coisas que compraria com o dinheiro...

27

NARRATIVA DE COLIN LAMB

- No parece ter sabido grande coisa por intermdio dessa Mistress Ramsay - queixou-se o coronel Beck.

228

- No havia muito que saber.
- Tem a certeza?
- Tenho.
- Ela no  parte activa?
- No.
- Satisfeito? - perguntou-me o velho, a observar-me com ateno.
- No de todo.
- Esperava mais?
- A lacuna continua a existir.
- Teremos de procurar noutro lado qualquer. Desistiu dos crescentes, hem?
- Sim.
- Est muito monossilbico. Apanhou alguma bebedeira?
- No presto para este trabalho.
- Quer que o coloque na pista e diga "Ali, ali"?
No pude deixar de rir.
- Assim j est melhor! De que se trata, Colin? Sarilho de saias, creio?
- Comecei a sentir isto h algum tempo - respondi, a abanar a cabea.
- Para ser sincero, dei por isso - declarou Beck, inesperadamente. - O mundo est num estado de grande 
confuso, as coisas no so to claras como costumavam ser. Quando o desencorajamento se instala,  
como o caruncho. Grandes cogumelos a irromper pelas paredes. Se  isso que se passa, perdeu a 
utilidade para ns. Fez alguns trabalhos de primeira categoria, rapaz, d-se por feliz com isso e volte para 
as suas malditas algas. - E aps uma pausa: - Gosta realmente dessa porcaria, no gosta?
- Acho o assunto apaixonadamente interessante.
- Eu ach-lo-ia repugnante. Os gostos so uma extraordinria variante da natureza... Como vai o seu 
assassnio? Aposto que foi a sua pequena que
o cometeu.
- Est enganado.
Beck acenou-me com um dedo, de modo paternal e admonitrio.
- S lhe digo o seguinte: "Esteja preparado." E no me refiro ao mote dos escuteiros.
Desci a Charing Cross Road e comprei um jornal.
Uma notcia informava que uma mulher, que se supunha ter tido um colapso na Estao de Vitria, na hora 
de ponta, fora levada para o hospital. Ao chegar,
porm, verificara-se que fora apunhalada. Morrera sem recuperar os sentidos.
Chamava-se Mrs. Merlina Rival.
Telefonei a Hardcastle.
-  verdade, aconteceu como noticiam - confirmou, em voz dura e irritada. - Visitei-a, na noite de 
anteontem, e disse-lhe que a sua histria acerca da cicatriz no batia certo, pois o tecido cicatricial era 
relativamente recente.  singular como as pessoas escorregam, precisamente por tentarem compor 
demasiado as
coisas. Algum lhe pagou para ela identificar o cadver como sendo o do marido, que a abandonou h 
anos. Muito bem, ela identificou-o e eu acreditei-a. Mas, depois, quem quer que esteja por detrs de tudo 
isto, tentou ser esperto. Se ela se lembrasse daquela insignificante cicatriz mais tarde, depois de falar 
comigo,
esse pormenor acrescentaria convico s suas declaraes e no restariam dvidas quanto  
identificao. Se ela tivesse falado na cicatriz, logo ao ver a vtima, talvez parecesse excessivamente 
preciso...
- Portanto, Merlina Rival estava metida no assunto at ao pescoo?
- Confesso-lhe que duvido disso. Suponha que um velho amigo ou conhecido a procurava e lhe dizia: "Olha, 
estou metido num aborrecimento. Um tipo
com quem tive uns negcios foi assassinado, e se o identificarem e as nossas transaces se tornarem 
conhecidas, ser uma tragdia para mim. Mas se tu te apresentasses e dissesses que se tratava do teu 
marido, Harry Castleton, que te deixou a ver navios h anos, o caso morreria e eu no teria nada a 
recear..."

230

- Mas ela recusaria, certamente, diria que era demasiado arriscado?
- Se dissesse, a tal pessoa redarguir-lhe-ia: "Arriscado porqu? Na pior das hipteses, dirias que te 
enganaras. Qualquer mulher se pode enganar ao fim de quinze anos." E, provavelmente, prometeram-lhe 
uma contazinha calada e ela disse que sim, que faria o jeito. E fez.
- Sem suspeitar?
- No era uma mulher desconfiada. Lembre-se, Colin, que quando um assassino  apanhado, h sempre 
gente que o conheceu bem e no pode acreditar que ele fosse capaz de fazer semelhante coisa!
- Que aconteceu quando a visitou?
- Meti-lhe um susto. Quando sa, ela fez o que eu esperava que fizesse: tentou comunicar com o homem ou 
com a mulher que a metera na encrenca. Mandei-a
seguir, claro. Entrou num posto dos Correios e fez uma chamada, de uma cabina automtica. Infelizmente, 
no se tratava da cabina que eu calculara que utilizaria, ao fim da sua prpria rua... Precisou de trocar 
dinheiro. Saiu da cabina, depois de telefonar, com o ar de quem se sentia muito contente consigo prpria. 
Mantivemo-la sob observao, mas no sucedeu nada de interessante at ontem  noite. Foi  Estao de 
Vitria e comprou um bilhete para Crowdean. Passava das seis e meia, a hora de ponta. Ela estava 
desprevenida, tranquila, julgava que se iria encontrar com a pessoa em questo, em Crowdean. Mas esse 
demnio de astcia andava mais depressa do que ela. No h
nada mais fcil do que chegar atrs de uma pessoa, numa multido, e cravar-lhe uma faca... Creio que ela 
nem compreendeu que fora apunhalada. As pessoas
no se apercebem, como sabe. Lembra-se do Barton, daquele caso do roubo da quadrilha Levitti? 
Percorreu a p uma rua inteira, antes de cair morto. Sente-se
apenas uma dor sbita e fina... e depois julga-se que
tudo passou. Mas no passou, fica-se morto em p

232

sem o saber. - E concluiu: - Raios partam! Raios partam! Raios partam!
- Investigou... algum? - No pude deixar de fazer a pergunta.
A sua resposta foi rpida e incisiva:
- A Pebmarsh esteve em Londres, ontem. Tratou de uns assuntos relacionados com o Instituto e regressou 
a Crowdean no comboio das sete e quarenta., Fez uma pausa. - Quanto a Sheila Webb, foi a Lon dres levar 
um trabalho dactilogrfico a um escritor estrangeiro, que partia para Nova Iorque. Saiu do Ritz
Hotel cerca das cinco e meia, aproximadamente, e foi ao cinema, sozinha, antes de regressar.
- Escute, Hardcastle, tenho uma informao para si, dada por uma testemunha ocular. Uma furgoneta de 
uma lavandaria parou defronte de Wilbraham Crescent, dezanove,  uma hora e trinta e cinco minutos, do 
dia nove de Setembro. O homem que conduzia o veculo entregou um grande cesto de roupa, na porta
das traseiras. Tratava-se de um cesto muito grande.
- Lavandaria? Que lavandaria?
- Snowflake Laundry. Conhece?
- Assim de repente, no. Esto sempre a aparecer novas lavandarias.  um nome vulgar, para uma 
lavandaria...
- Investigue. Era um homem que conduzia a furgoneta, e foi ele que levou o cesto para dentro de casa...
Hardcastle interrompeu-me, subitamente desconfiado:
- Oua l, Colin, est a inventar isso?
- No. J lhe disse que tenho uma testemunha ocular. Investigue, Dick, despache-se.
Desliguei, antes que ele dissesse mais alguma coisa.
Sa da cabina e vi as horas. Tinha muito que fazer e queria estar fora do alcance de Hardcastle enquanto o 
fazia. Tinha de organizar a minha vida futura.

233

28

NARRATIVA DE COLIN LAMB

Cheguei a Crowdean s onze horas da noite, cinco dias depois. Dirigi-me ao Clarendon Hotel, aluguei um 
quarto e deitei-me. Como estava fatigado, dormi
mais do que a conta e s acordei s dez horas menos um quarto.
Pedi que me levassem caf, uma tosta e o jornal.
Juntamente, entregaram-me um sobrescrito grande e quadrado, com o meu nome e as palavras <<POR 
MO PRPRIA>) no canto superior esquerdo.
Examinei-o com certa surpresa, pois no o esperava. O papel era grosso e luxuoso e as palavras estavam 
muito bem escritas em letra de imprensa.
Depois de o virar e revirar, acabei por o abrir. Encontrei uma folha de papel, com os seguintes dizeres, em 
grandes letras de imprensa:

CURLEW HOTEL II.3O

Quarto 413

(Bata trs vezes)

Fiquei a olhar para o papel e a vir-lo. Que vinha a ser aquilo?
Reparei no nmero do quarto: 413. Os mesmos algarismos dos relgios. Uma coincidncia? Ou no?
Pensei em telefonar para o Curlew Hotel e, at, em
telefonar a Dick Hardcastle, mas no fiz uma coisa
nem outra.
A letargia deixara-me. Levantei-me, vesti-me e segui para o Curlew Hotel, aonde cheguei  hora marcada.
A poca de Vero estava acabada e, por isso, no se encontrava muita gente no hotel.

234

No perguntei nada na recepo. Meti-me no elevador at ao quarto andar, sa e segui pelo corredor, at ao 
nmero 413.
Parei um momento e por fim, com a conscincia de que estava a ser um perfeito idiota, bati trs vezes...
- Entre - ordenou uma voz.
Girei o puxador, entrei... e estaquei.
Tinha na minha frente a ltima pessoa que esperaria encontrar ali: Hercule Poirot, que me sorria, 
encantado.
- Une petite surprise, n'est-ce pas? Mas uma surpresa agradvel, espero.
- Poirot, velha raposa! Como veio aqui parar?
- Muito confortavelmente, numa limusina Daimler.
- Mas que faz aqui?
- Foi muito desagradvel. Insistiram, teimaram positivamente, em redecorar o meu apartamento. Imagine a 
dificuldade! Que fazer? Para onde ir?
- No lhe faltavam lugares - respondi friamente.
-  verdade que no, mas o meu mdico disse-me que o ar do mar me faria bem.
- Trata-se de um desses mdicos sabidos que, depois de saberem aonde o doente quer ir, lhe aconselham 
precisamente esse lugar! Foi voc que me mandou isto? - perguntei, a brandir o bilhete.
- Naturalmente. Quem havia de ser?
-  por coincidncia que o nmero do seu quarto  o quatrocentos e treze?
- No. Fui eu prprio que o pedi.
- Porqu?
Poirot sorriu e respondeu:
- Pareceu-me apropriado.
- E esta histria de bater trs vezes?
- No pude resistir! Se tivesse podido juntar um raminho de alecrim, ainda seria melhor. Pensei em cortar 
um dedo e pr uma dedada ensanguentada na

' Em ingls, rosemary. (N. da T. )

235

porta... Mas tudo se quer na sua conta e eu arriscava-me a arranjar alguma infeco.
- Suponho que se trata da segunda infncia. Esta tarde hei-de comprar-lhe um balo e um coelho de pano.
- Creio que no lhe agradou a minha surpresa. No manifesta nenhuma alegria, nenhum contentamento por 
me ver...
- Esperava que manifestasse?
- Pourquoi pas? Mas falemos a srio, agora que j me diverti um bocadinho. Espero poder ser til. Visitei o 
chefe de Polcia, que foi amabilssimo, e estou  espera do seu amigo, detective-inspector Hardcastle.
- E que lhe vai dizer?
-  minha inteno conversarmos os trs.
Olhei-o e desatei a rir. Ele podia dizer "conversarmos", mas eu sabia muito bem quem ia falar: Hercule 
Poirot!

Hardcastle chegara, procedera-se s apresentaes e aos cumprimentos. Estvamos sentados como 
camaradas, mas, de vez em quando, Dick olhava sub-repticiamente para Poirot, com o ar de um homem 
que, no jardim zoolgico, visse uma nova e surpreendente aquisio.
Por fim, respeitadas as amenidades e as cortesias, Hardcastle pigarreou e falou, cautelosamente:
- Suponho, Monsieur Poirot, que desejar ver... bem, todo o cenrio? No ser muito fcil... - Hesitou. - O 
chefe de Polcia recomendou-me que fizesse
tudo quanto pudesse para lhe ser agradvel, mas, como deve compreender, h dificuldades, pedidos a 
fazer, objeces... No entanto, como veio c especialmente...
- Eu vim porque o meu apartamento de Londres est a ser redecorado.
Dei uma grande gargalhada e Poirot lanou-me um olhar de censura.
- Monsieur Poirot no precisa de ir ver nada afirmei. - Ele insistiu, sempre, que se pode fazer tu do sentado 
numa poltrona... Mas no  bem assim, pois no, Poirot? Se fosse, para que teria vindo c?
- Eu disse que no era necessrio ser o caador de raposas, o sabujo, o co de caa, sempre a correr  
procura da pista - redarguiu Poirot, com dignidade. Admito, no entanto, que  necessrio um co para a 
caa, um bom co para trazer a presa, meu amigo.
Voltou-se para o inspector e torceu o bigode.
- Deixe-me dizer-lhe que no sou um obcecado pelos ces como os Ingleses. Pessoalmente, posso viver 
sem um co. No entanto, aceito o vosso ideal canino. O homem ama e respeita o seu co, enche-o de 
mimos e vangloria-se, perante os amigos, da inteligncia e sagacidade do animal. Mas imagine que o 
oposto tam bm pode acontecer! O co gosta do dono, satisfaz-lhe os caprichos, vangloria-se da sua 
inteligncia e da sua sagacidade. Assim como o homem faz um esforo,
quando no lhe apetece, e sai com o seu co, por saber que ele gosta do passeio, assim o co tenta 
proporcionar ao dono o que ele deseja. Foi o que sucedeu com o meu jovem e amvel amigo, Colin. 
Procurou-me no
para me solicitar que o ajudasse a solucionar o seu problema, pois tinha confiana em que o saberia 
resolver sozinho, e creio que resolveu, mas, sim, por recear que eu me sentisse inactivo e solitrio. Levou-
me, por isso, um problema que supunha capaz de me interessar e distrair. Ao mesmo tempo, apresentou-
me um
desafio, desafiou-me a fazer o que tantas vezes lhe afirmei ser possvel: ficar sentado na minha cadeira e 
decifrar o mistrio. Desconfio, ou melhor, tenho quase a certeza, de que, atrs desse desafio, havia um 
bocadinho de malcia, uma maldadezinha inofensiva. Queria, digamos, provar-me que no era to fcil fazer 
como dizer... Mais oui, mon ami,  verdade! Queria troar de mim, troar s um bocadinho! No o censuro. 
S lhe digo que no conhece Hercule Poirot.

236

Encheu o peito de ar e retorceu o bigode, enquanto eu lhe sorria afectuosamente.
- Muito bem, d-nos a soluo do problema... se a encontrou - desafiei.
- Mas claro que a encontrei!
Hardcastle fitou-o, incrdulo, e perguntou:
- Quer dizer que sabe quem matou o homem em Wilbraham Crescent, dezanove?
- Certamente.
- E tambm quem matou Edna Brent?
- Claro.
- Sabe a identidade do morto?
- Sei quem deve ser.
A expresso de Hardcastle era muito duvidosa, mas, em ateno ao que o chefe de Polcia lhe 
recomendara, manteve-se corts. No entanto, no pde
evitar uma certa nota de cepticismo, ao perguntar:
- Desculpe, Monsieur Poirot, mas alega saber quem matou trs pessoas e porqu?
- Exactamente.
- Tem um caso estanque?
- No direi tanto.
- Ento o que quer dizer  que tem um pressentimento - observei, pouco amvel.
- No discutirei consigo por causa de uma palavra, mon cher Colin. Digo, apenas, que sei!
- Mas, Monsieur Poirot, eu preciso de ter provas! - lembrou Hardcastle, a suspirar.
- Naturalmente. Mas, com os recursos de que dispe, suponho que no ter dificuldade em obter as provas 
indispensveis.
- No estou muito certo disso.
- Ora essa, inspector! Quando se sabe, quando se sabe realmente, no se pode partir da?
- Nem sempre - redarguiu o inspector, e voltou a suspirar. - Andam  solta homens que deviam estar na 
cadeia. Eles sabem-no e ns tambm.
- Mas trata-se de uma percentagem muito pequena, no trata?
- Est bem, est bem! - interrompi. - O senhor sabe; pois vamos l a ver se ficamos tambm a saber.
- Noto que continua cptico. Antes de mais nada, deixem-me esclarecer uma coisa: ter a certeza significa 
que, quando se encontra a verdadeira soluo, tudo
encaixa no seu lugar. Compreende-se que as coisas no podiam acontecer de nenhuma outra maneira.
- Com a breca, desembuche! - explodi, impaciente. - Admito tudo quanto disse at agora.
Poirot recostou-se confortavelmente na poltrona e fez sinal ao inspector para voltar a encher o seu copo.
- H uma coisa, mes amis, que deve ser claramente entendida: para resolver qualquer problema precisamos 
de conhecer os factos. Para isso  necessrio o co, o co que vai buscar a presa, que traz as peas uma
por uma e as deposita...
- Aos ps do dono - conclu. - De acordo.
- Sentada numa cadeira, uma pessoa no pode resolver um problema baseada apenas naquilo que l nos 
jornais. Tem necessidade de conhecer os factos com
exactido, e os jornais raramente ou nunca so exactos, a esse respeito. Dizem que uma coisa aconteceu 
s quatro horas, quando na realidade foi s quatro e um quarto; dizem que um homem tinha uma irm 
chamada Elizabeth, quando na realidade ele tinha uma cunhada chamada Alexandra, etc. Mas eu 
encontrei, aqui no Colin, um co de extraordinria percia, devo diz-lo, que o levou longe, na sua profisso. 
Ele sempre teve uma memria notvel,  capaz de repetir, passados dias, conversas a que assistiu ou em 
que participou, mas repete-as com exactido, quero dizer, no as adapta, como acontece com tanta gente, 
 impresso que lhe causaram. Para dar um exemplo: ele no diria: "E o correio chegou s onze e vinte." 
No, ele descrevia as coisas tal qual se passaram, comeando por uma pancada na porta da frente e 
algum a entrar
com as cartas na mo. Tudo isto  muito importante, 

238

pois significa que ele ouviu o que eu teria ouvido, se estivesse presente, e viu o que eu teria visto. 
- Mas o pobre co no soube fazer as dedues necessrias, hem?
- Tanto quanto  possvel, estou, pois, de ,posse dos factos, tenho conhecimento do quadro...  uma frase 
que vocs costumam usar, no ? A coisa que
primeiro me chamou a ateno, quando Colin me contou a histria, foi o seu carcter excessivamente 
fantstico. Quatro relgios, todos eles cerca de uma hora
adiantados em relao  hora certa e todos eles introduzidos na casa sem conhecimento da locatria, ou, 
pelo menos, assim ela o afirmou. Sim, porque ns
nunca devemos acreditar no que nos dizem enquanto no confirmarmos cuidadosamente as declaraes, 
no  verdade?
- Pensa como eu - redarguiu Hardcastle.
- No cho jazia um homem, um indivduo idoso e de aspecto respeitvel. Ningum sabia quem ele era (ou, 
mais uma vez, diziam que no sabiam). Na algibeira, tinha um carto com o nome, Mister R. H. Curry, uma 
morada, Denvers Street, sete, e o nome de uma companhia de seguros, Metropolis Insurance Company. 
Mas no existe nenhuma Metropolis Insurance Company, nenhuma Denvers Street e, segundo parece, 
nenhum Mister Curry. Isto so factos negativos, mas so factos. Prossigamos. Aparentemente, cerca das 
duas menos dez da tarde, telefonaram para uma agncia de secretrias e uma tal Miss Pebmarsh pediu
que enviassem uma estengrafa ao nmero dezanove de Wilbraham Crescent, s trs horas. Miss 
Pebmarsh pediu, especialmente, que lhe mandassem Miss Sheila
Webb. Esta foi mandada  morada em questo, chegou poucos minutos antes das trs e, segundo as 
instrues recebidas, entrou na sala, encontrou um morto no cho, saiu de casa aos gritos e caiu nos 
braos de um jovem...
Poirot fez uma pausa e olhou para mim.
- Entra o nosso heri - disse, e inclinei a cabea.
- Como v, nem voc resiste a um tom de farsa melodramtica, quando fala do assunto. Todo o caso  
melodramtico, fantstico e absolutamente irreal, 
uma daquelas coisas susceptveis de acontecer nos livros de autores como, por exemplo, Garry Gregson. 
Por sinal, quando o meu jovem amigo me visitou e
contou o sucedido, eu dedicava-me a um estudo de ficcionistas policiais dos ltimos sessenta anos. Muito 
interessante. Quase chegamos a encarar os crimes autnticos, reais,  luz da fico. Quero dizer, se 
reparo que um co no ladrou quando deveria ladrar, digo para comigo: "Ah, um crime tipo Sherlock 
Holmes!"
Do mesmo modo, se o cadver aparece numa sala fechada, penso, naturalmente: "Ah, um caso a Dickson 
Carr!" H, tambm, a minha amiga, Mistress Olive Se eu encontrasse... mas no, no direi mais nada. 
Perceberam o que quero dizer? Apresentam-nos um crime revestido de caractersticas e circunstncias to
improvveis, to incrveis, que no podemos deixar de pensar, acto contnuo: "Este livro no est de acordo 
com a vida, tudo isto  falso, irreal". Mas, ai de ns!, neste caso  realidade, aconteceu. Sentimo-nos 
impelidos a meditar, a meditar furiosamente, no acham?
Hardcastle no se teria exprimido assim, mas concordava em absoluto com a ideia. Poirot prosseguiu:
- Trata-se, por assim dizer, do oposto do exemplo de Chesterton: "Onde esconderias uma folha? Numa 
floresta. Onde esconderias um seixo? Numa praia."
Neste caso h excessos, fantasia, melodrama! Quando pergunto a mim mesmo, a parafrasear Chesterton, 
"onde esconde uma mulher de meia-idade a sua beleza
fanada?", no respondo, como ele responderia, "entre outras belezas fanadas de meia-idade". De modo 
nenhum. Ela esconde-a debaixo da pintura, sob rouge e
mscara, bem aninhada em peles e com pedras preciosas  volta do pescoo e pendentes das orelhas. 
Esto a seguir o meu raciocnio?

240

- Bem... - murmurou o inspector.
- Assim, as pessoas olharo para as peles e para as jias, para o penteado e para a haute couture, e nem 
repararo como a mulher propriamente dita . Por isso disse para comigo, e disse-o tambm ao meu amigo
Colin: como este assassnio se apresenta com tantas aderncias fantsticas, para despistar, deve ser, na 
realidade, muito simples. No  verdade que disse?
- Disse. Mas continuo a no compreender como poder ter razo.
- Espere, tenha pacincia. Portanto, despimos o crime dos enfeites e observamos o essencial. Mataram 
um homem. Porque o mataram? E quem  ele? A resposta  primeira pergunta depende, obviamente, da 
resposta  segunda. Enquanto no obtivermos a resposta certa a estas duas perguntas, no poderemos, 
por certo, avanar. Ele poderia ser um chantagista, ou um vigarista, ou um marido cuja existncia fosse 
desagradvel ou perigosa para a mulher. Poderia ser uma dzia de coisas diversas. Quanto mais ouvi falar 
do assunto, mais se me afigurou que ele parecia a todos um banal homem idoso, de aspecto respeitvel e 
bem cuidado. E, de sbito, pensei: "Disseste que se devia tratar de um crime simples? Muito bem, encara-
o assim mesmo. Admite que a vtima  exactamente o que parece: um homem idoso, de aspecto 
respeitvel e bem cuidado." - Olhou para o inspector e perguntou-lhe:Est a compreender?
- Bem... - repetiu Hardcastle, e calou-se, delicadamente.
- Tnhamos, portanto, algum, um vulgar e agradvel homem idoso, cujo desaparecimento devia ter sido 
necessrio a qualquer pessoa. A quem? Neste aspecto, pelo menos, o campo das conjecturas no  muito 
vasto. Existe conhecimento local de Miss Pebmarsh e dos seus hbitos, do Gabinete Cavendish e de uma 
rapariga que l trabalha e se chama Sheila Webb. Por isso disse ao meu amigo Colin: "Os vizinhos. 
Converse com eles, saiba coisas a seu respeito, acerca dos seus antecedentes... Mas, sobretudo, 
estabelea conversa." Numa conversa no obtemos apenas respostas s perguntas que fazemos; numa 
conversa natural, h coisas que escapam naturalmente. As pessoas esto na
defensiva, quando o assunto pode ser perigoso para elas, mas se se envereda por uma conversa banal, 
tranquilizam-se, deixam-se vencer pelo alvio que representa dizer a verdade, o que  sempre muito mais 
fcil do que mentir. E, muitas vezes, deixam escapar um pormenorzito insignificante que, sem que o 
saibam,
faz muita diferena.
- Uma teoria admirvel - comentei. - Infelizmente, neste caso no se verificou.
- Mas, mon cher, verificou! Uma frasezinha de inestimvel importncia!
- Qual? Quem a disse? Quem?
- A seu tempo, mon cher Colin, a seu tempo. 
- Dizia, Monsieur Poirot... - interveio o inspector, desejoso de que ele reatasse o fio da conversa.
- Se traarem um crculo  roda do nmero dezanove, todas as pessoas que ficam no seu interior poderiam 
ter matado Mister Curry. Mistress Hemming, os Bland, os McNaughton e Miss Waterhouse. Mas h ainda, 
e principalmente, as pessoas directamente envolvidas, as que se encontravam, por assim dizer, no centro 
do crculo: Miss Pebmarsh, que o podia ter assassinado antes de sair, cerca da uma e trinta e cinco, e 
Miss Webb, que podia ter arranjado maneira de l se
encontrar com ele e mat-lo antes de sair de casa e dar o alarme.
- Ah, agora est a tocar na ferida!
Poirot virou-se para mim e acrescentou:
- E, evidentemente, voc, meu querido Colin. Tambm l estava, andava a procurar um nmero alto do lado 
dos nmeros baixos...
- Essa  boa! - exclamei, indignado. - Que ser capaz de dizer a seguir?

242

- Serei capaz de dizer tudo! - afirmou, impante.
- E pensar que fui eu que lhe contei tudo!
- Os assassinos so, muitas vezes, vaidosos - lembrou Poirot. - Alm disso, podia t-lo divertido rir-se  
minha custa.
- Se continuar a falar assim, acabar por me convencer! Palavra, comeava a sentir-me constrangido!
Mas Poirot voltou-se de novo para o inspector:
- Deve tratar-se de um crime essencialmente simples, disse para comigo. A presena sem significado dos 
relgios, uma hora adiantados: os preparativos to
complicada e deliberadamente feitos para a descoberta do cadver, tudo isso devia ser posto de parte, para 
comear. Eram, como se diz na vossa imortal Alice, "sapatos e barcos e lacre e cera e couves e reis". O 
ponto
essencial, vital, era que um vulgar homem idoso morrera e que algum quisera que ele morresse. Se 
soubssemos quem a vtima era, teramos uma pista que nos indicaria o seu assassino. Se se tratasse de 
um chantagista conhecido, deveramos procurar uma pessoa susceptvel de ser vtima de chantagem. Se se 
tratasse de um detective, deveramos procurar algum
com um segredo criminoso. Se se tratasse de um homem rico, deveramos procurar o assassino entre os 
seus herdeiros... mas como no sabamos quem o homem era, restava-nos a difcil tarefa de procurar, entre 
os do crculo circundante, algum que tivesse uma razo para o matar. Pondo de parte Miss Pebmarsh e 
Sheila Webb, quem existia nesse crculo susceptvel de no ser o que parecia? A resposta foi 
decepcionante. Com excepo de Mister Ramsay, que segundo me consta, no era o que parecia - Poirot 
olhou-me interrogadoramente e
eu acenei com a cabea -, todos os outros pareciam autnticos. Bland era um conhecido construtor civil; 
McNaughton, regera uma cadeira em Cantabrgia;
Mistress Hemming era viva de um leiloeiro local; os Waterhouse eram respeitveis e antigos locatrios...
Voltemos a Mister Curry. Donde viera? Que o levara a
Wilbraham Crescent, dezanove? E, a este respeito,
uma das vizinhas, Mistress Hemming, fez uma observao muito preciosa. Quando lhe disseram que o 
morto no morava no nmero dezanove, ela redarguiu: "Ah, compreendo! Foi l para ser assassinado. Que 
estranho!" Ela, como acontece com tanta frequncia queles que esto to absortos nos seus 
pensamentos que no prestam ateno ao que os outros dizem, teve o dom de penetrar no mago do 
problema. Resumiu, numas breves palavras, todo o crime: Mister
Curry foi a Wilbraham Crescent, dezanove, para ser assassinado. Era to simples como isto. 
- De facto, essa observao dela impressionou-me - confessei, mas Poirot no me ligou importncia.
- Dilly, dilly, dilly. Vem para seres morto. Mister Curry foi... e foi morto. Mas isso no era tudo. Convinha 
muito que ele no fosse identificado. No tinha carteira nem documentos e o nome do alfaiate fora retirado 
do seu vesturio. Mas isso no chegaria. O carto impresso de Curry, agente de seguros, constitua 
apenas uma providncia temporria. A fim de que a
identidade do indivduo fosse oculta para sempre, era necessrio atribuir-lhe uma falsa identidade. No me 
restaram dvidas de que, mais cedo ou mais tarde,
apareceria algum que o reconheceria positivamente e, ento, estaria tudo acabado. Um irmo, uma irm, 
uma esposa... Foi uma esposa: Mistress Rival... S o nome dela deveria ter levantado suspeitas. H no 
Somerset uma aldeia, estive l perto com uns amigos, h uma aldeia chamada Curry Rival. 
Inconscientemente,
sem se saber como, estes dois nomes insinuaram-se, foram escolhidos. Mister Curry... Mistress Rival.
"At agora, o plano parece bvio. Mas o que me intrigava era o facto de o nosso assassino parecer 
absolutamente certo de que no haveria nenhuma identificao

244

genuna. Mesmo que o homem no tivesse famlia, seria natural que tivesse uma senhoria, criados, 
pessoas com quem negociasse... Isto levou-me  deduo seguinte: ignorava-se o desaparecimento do 
indivduo. Logicamente tive de deduzir, depois, que ele no era ingls, que se encontrava neste pas apenas 
de visita. Confirmava-o o facto de o trabalho protsico dos seus dentes no ter sido identificado c. 
"Comecei a fazer uma vaga ideia da vtima e do assassino. Uma vaga ideia, apenas. O crime fora bem 
planeado e inteligentemente cometido... Mas eis que
surgiu um factor de pura sorte, uma daquelas coisas que nenhum assassino pode prever...
- O qu? - perguntou Hardcastle.
Inesperadamente, Poirot declamou, de modo teatral:
Por falta de um prego perdeu-se a ferradura, Por falta de uma ferradura perdeu-se o cavalo,
Por falta de um cavalo perdeu-se o cavaleiro, Por falta de um cavaleiro perdeu-se a batalha, Por falta de 
uma batalha perdeu-se o reino...
E tudo por falta de um prego numa ferradura!
Inclinou-se para a frente e afirmou:
- Muitas pessoas podiam ter assassinado Mister Curry; mas s uma pessoa podia ter assassinado, ou 
podia ter razo para assassinar, Edna.
Fitmo-lo ambos, embasbacados.
- Consideremos o Gabinete Cavendish. Trabalham l oito raparigas. No dia nove de Setembro, quatro delas 
estavam ausentes, em servio a certa distncia, e por isso almoaram com os clientes. Essas raparigas 
eram as quatro que geralmente almoavam na primeira hora de almoo, isto , do meio-dia e meia
hora  uma e meia. As restantes quatro, Sheila Webb, Edna Brent, Janec e Maureen, almoavam no 
segundo perodo, ou seja, da uma e meia s duas e meia. Mas nesse dia Edna Brent teve um pequeno 
acidente, pouco depois de sair do escritrio: partiu um salto do sapato, num ralo. Como no podia andar 
assim, comprou uns bolos e regressou ao escritrio.
Poirot acenou-nos com um dedo, enfaticamente, e continuou:
- Disseram-nos que Edna Brent andava preocupada com qualquer coisa, que tentara, em vo, falar com 
Sheila Webb fora do escritrio. Presumiu-se que
o motivo da sua preocupao se relacionava com a prpria Sheila Webb, mas no existem nenhumas 
provas
disso. Ela podia desejar, apenas, consultar Miss Webb acerca de qualquer coisa que a intrigava... Mas, se 
disso se tratava, uma coisa salta  vista: queria falar com Sheila fora do escritrio. As palavras que disse 
ao polcia, no inqurito, so a nica pista de que dispomos quanto  natureza do que a preocupava. Disse 
qualquer coisa deste gnero: "No compreendo como o que ela disse pode ser verdade." Tinham sido trs 
as mulheres que haviam prestado declaraes, nessa manh. Portanto, Edna podia querer referir-se a Miss 
Pebmarsh ou, como se presumiu, a Sheila Webb... Mas existe uma terceira possibilidade, em que ningum 
pensou: podia referir-se a Miss Martindale.
- Miss Martindale? Mas as declaraes dela foram muito breves, duraram escassos minutos...
- Exactamente. Relacionaram-se apenas com o telefonema que recebera, supostamente, de Miss 
Pebmarsh.
- Quer dizer que Edna sabia que no fora Miss Pebmarsh...
- Suponho que era ainda mais simples, suponho que no houve telefonema nenhum. O salto do sapato de 
Edna partiu-se a pouca distncia do escritrio e ela
regressou ao Gabinete Cavendish. Mas Miss Martindale, no seu gabinete particular, no soube que Edna 
regressara, continuou convencida de que se encontrava sozinha... Bastou-lhe dizer que recebera um 
telefonema

246

 uma e quarenta e nove. Ao princpio, Edna no teve conscincia do que sabia. Sheila foi chamada ao 
gabinete de Miss Martindale e recebeu ordem para
sair, em servio. Ningum disse a Edna como nem quando a entrevista fora combinada. Depois chegou a 
notcia do crime e, pouco a pouco, a histria tornou-se mais definida. Miss Pebmarsh telefonou a pedir que
lhe mandassem Sheila Webb... Mas Miss Pebmarsh nega que tenha telefonado. Diz-se que o telefonema 
foi feito s dez para as duas... Mas Edna sabe que isso
no pode ser verdade. No chegou nenhum telefonema a essa hora. Miss Martindale devia-se ter 
enganado... Mas Miss Martindale no  pessoa que se engane.
Quanto mais Edna pensa no assunto, mais intrigante lhe parece. Decide contar a Sheila, perguntar-lhe. Ela 
deve saber...
"Depois chega o dia do inqurito e as raparigas vo todas assistir. Miss Martindale repete a sua histria do 
telefonema e Edna compreende, finalmente, que as declaraes prestadas por Miss Martindale com tanta 
clareza e com tanta preciso quanto  hora exacta no so verdadeiras. Pergunta ento a um polcia se 
pode falar com o inspector. Suponho que, ao sair do tribunal juntamente com outras pessoas, Miss 
Martindale ouviu a pergunta. Talvez, entretanto, j tivesse ouvido as pequenas troar de Edna, por causa do 
percalo do
sapato, sem compreender todo o seu alcance... Fosse como fosse, seguiu a jovem a Wilbraham Crescent. 
Porque ter Edna ido para esses lados?
- S para ver o stio onde o caso se passara, suponho - explicou Hardcastle, a suspirar. - As pessoas 
costumam fazer isso.
- Sim,  verdade. Talvez Miss Martindale falasse l com ela, seguisse com Edna pela estrada abaixo e a 
pequena lhe fizesse, de repente, a pergunta que a intrigava. Miss Martindale resolveu agir depressa e, como 
estavam perto da cabina telefnica, disse: "Isso  muito importante, deve telefonar  Polcia imediatamente. 
O nmero da esquadra  este assim assim. Telefone e diga que vamos as duas para l." Edna nascera 
para fazer o que lhe mandavam, isso era uma
espcie de segunda natureza. Entrou na cabina, levantou o auscultador... e Miss Martindale entrou atrs 
dela, puxou-lhe o leno do pescoo e estrangulou-a.
- E ningum viu?
- Algum podia ter visto, mas ningum viu. Era uma hora da tarde, a hora do almoo... As pessoas que 
porventura se encontravam na Wilbraham Crescent estavam entretidas a olhar para o nmero dezanove. Foi 
um risco temerrio, corrido por uma mulher temerria e sem escrpulos.
Hardcastle abanava a cabea, duvidoso.
- Miss Martindale? No compreendo como poder estar metida no assunto...
- No, ao princpio no se compreende. Mas como Miss Martindale matou, indubitavelmente, Edna, oh, 
sim, s ela pode ter assassinado a pequena!, como
matou Edna, tem de estar metida no assunto. Comeo a pensar que em Miss Martindale temos a Lady 
Macbeth do crime, uma mulher implacvel e sem imaginao.
- Sem imaginao? - admirou-se o inspector.
- Oh, sim, sem imaginao! Mas muito eficiente. Uma boa planeadora.
- Mas porqu? Qual o mbil?
Hercule Poirot olhou para mim e esticou o dedo.
- A conversa dos vizinhos no lhes serviu, ento, de nada, hem? Pois eu encontrei nela uma frase muito 
esclarecedora. Lembram-se de que, depois de falar em viver no estrangeiro, Mistress Bland disse que 
gostava de viver em Crowdean "porque tenho aqui uma irm". Mas Mistress Bland no devia ter uma irm. 
Herdara
uma grande fortuna, o ano passado, de um tio-av canadiano, porque era o nico membro sobrevivente da 
famlia.
Hardcastle endireitou-se, alerta.

248

- Pensa, ento...
Poirot recostou-se na cadeira, uniu as pontas dos dedos, semicerrou os olhos e falou em tom sonhador:
- Suponha que  um homem, um homem muito insignificante, pouco escrupuloso e com dificuldades 
financeiras. Um dia, chega uma carta de uma firma de
advogados a informar que a sua mulher herdou uma grande fortuna, deixada por um tio-av do Canad. A 
carta vem dirigida a Mistress Bland, e a nica dificuldade reside no facto de a Mistress Bland que a recebe 
no ser a Mistress Bland certa, ser a segunda esposa de Mister Bland e no a primeira... Imagine o 
desgosto, a contrariedade, a fria. E, depois, surge uma ideia. Quem sabe que a Mistress Bland existente 
no  a Mistress Bland em questo? Em Crowdean ningum sabe que Bland j foi casado anteriormente. O 
seu primeiro casamento, h muitos anos, efectuou-se durante a guerra, quando ele estava fora do pas.  
possvel que a sua primeira mulher tenha morrido pouco depois e ele haja voltado a casar quase a seguir. 
Ele tinha a carta de casamento, vrios documentos de
famlia, fotografias de parentes canadianos j falecidos... Seria tudo um mar de rosas. Pelo menos valia a 
pena arriscar. Arriscam e so bem-sucedidos. As formalidades legais cumprem-se e os Bland ficam ricos e 
prsperos, com todas as dificuldades financeiras resolvidas... Mas eis que, um ano depois, acontece algo... 
O qu? Suponho que algum informou que vinha do
Canad a este pas, algum que conhecera bem a primeira Mistress Bland e, portanto, no se deixaria 
enganar pela segunda. Talvez fosse um antigo advogado
da famlia ou um amigo ntimo. Fosse quem fosse, era algum que saberia, que perceberia a fraude.  
possvel que tenham pensado nalgumas maneiras de evitar o encontro. Mistress Bland poderia ir para o 
estrangeiro, a pretexto de doena... Mas qualquer soluo desse gnero era susceptvel de levantar 
suspeitas. O visitante insistiria em ver a mulher que viera procurar... 
- E, da, o assassnio?
- Sim. Creio que a irm de Mistress Bland deve ter sido a alma danada da conspirao, quem planeou tudo.
- Parte do princpio de que Miss Martindale e Mistress Bland so irms?
- S assim as coisas fazem sentido.
- Mistress Bland lembrou-me algum conhecido, quando a vi... - murmurou Hardcastle. - So muito 
diferentes na maneira de ser, mas  verdade, existe
uma semelhana. No entanto, como puderam pensar que seriam bem sucedidos? Acabariam por dar por 
falta do homem, por proceder a investigaes...
- Se o indivduo andava pelo estrangeiro em viagem de recreio e no de negcios, o seu itinerrio talvez 
fosse vago. Uma carta de um lado, um postal ilustrado de outro... S passado algum tempo as pessoas 
comeariam a estranhar no receber notcias dele. Nessa altura, quem se lembraria de relacionar um 
homem identificado e sepultado como Harry Castleton, com um rico visitante canadiano, que nunca sequer 
fora visto para estes lados? Se eu fosse o assassino, faria uma viagem de um dia  Frana ou  Blgica e 
livrar-me-ia do passaporte do indivduo num comboio ou num autocarro, para que as investigaes, se 
efectuassem noutro pas.
Mexi-me, involuntariamente, e os olhos de Poirot fitaram-me, acto contnuo.
- Que se passa, Colin?
- Bland disse-me que, recentemente, fizera uma viagem de um dia a Bolonha... com uma loura. 
- O que pareceria muito natural, pois provavelmente  um dos seus hbitos. 
- Tudo isto so conjecturas - protestou Hardcastle. - Mas pode-se investigar.
Poirot tirou uma folha de papel de cima da mesa e estendeu-a a Hardcastle.

250

- Escreva a Mister Enderby, Ennismore Gardens,
dez; ele prometeu-me proceder a certas averiguaes,
no Canad.  um advogado internacional muito conhecido.
- E a histria dos relgios?
- Ah, os relgios, os famosos relgios! - exclamou Poirot, a sorrir. - Creio que descobriro que foi ideia de 
Miss Martindale. Como o crime era simples,
como j disse, disfararam-no de fantstico... Aquele
relgio com o nome de Rosemary, que Sheila trouxe de casa para ser consertado, no ter sido perdido no 
Gabinete Cavendish? T-lo- Miss Martindale aproveitado como alicerce da sua grande produo e ter sido 
em parte por causa desse relgio que escolheu Sheila para descobrir o corpo?
- E ainda o senhor diz que essa mulher no tem imaginao! - explodiu Hardcastle. - Ela, que congeminou 
tudo isso, no tem imaginao?
- Mas no foi ela que o congeminou! A  que est todo o interesse. Estava tudo preparado,  espera dela. 
Desde o princpio, notei a existncia de um
padro, de um padro que conhecia e de que me recordava bem porque acabara de o ler, com diversas 
variantes. Fui muito afortunado. Como o Colin lhe confirmar, esta semana estive num leilo de manuscritos 
de escritores. Entre eles, havia alguns de Garry Gregson. Mal ousei ter esperana, mas a sorte estava do 
meu lado... - Como um prestidigitador, tirou dois modestos cadernos de uma gaveta da secretria. - Est 
tudo aqui!  um dos muitos enredos de livros que
ele planeara escrever. No chegou a escrever este, mas Miss Martindale, que foi sua secretria, estava ao 
corrente da sua existncia. Limitou-se a adapt-los aos seus fins.
- Mas os relgios devem ter significado alguma coisa... no enredo de Gregson, claro.
- Oh, sem dvida! Os relgios dele estavam parados nas cinco e um, nas cinco e quatro e nas cinco e sete, 
e formavam, em conjunto, a combinao de um
cofre: quinhentos e quinze mil, quatrocentos e cin quenta e sete. O cofre estava oculto atrs de uma 
reproduo da Mona Lisa, e dentro do cofre - prosseguiu Poirot, com uma careta de desagrado - estavam 
as jias da coroa da famlia real russa. Um acervo de tolices, tudo aquilo. E, claro, havia uma historiazita
de uma rapariga perseguida. Muito a propsito para a Martindale. Ela limitou-se a escolher as suas 
personagens e a adaptar-lhes a histria. Todas aquelas pistas
que conduziam... aonde? A nada! Uma mulher eficiente, sem dvida.  caso para pensar... O escritor 
deixou-lhe um legado, no deixou? Como e de qu
, morreu ele, hem?
Mas Hardcastle recusou-se a interessar-se por histria passada. Pegou nos cadernos e tirou-me da mo a 
folha de papel timbrado do hotel, para a qual eu estivera a olhar, como que fascinado. O inspector 
garatujara o endereo de Enderby sem se dar ao trabalho de virar o papel de modo que o timbre do hotel 
ficasse para cima: o nome e a morada do Curlew Hotel estavam de pernas para o ar, no canto inferior 
esquerdo. Ao olhar para aquela folha de papel, compreendi como fora idiota.
- Obrigado, Monsieur Poirot - agradeceu Dick. Deu-nos, sem dvida, que pensar. Se resultar ou no...
- Sinto-me muito satisfeito por ter sido til - interrompeu Poirot, modestamente.
- Terei de investigar vrias coisas...
- Naturalmente, naturalmente...
Hardcastle despediu-se e partiu, e Poirot olhou para mim, de sobrancelhas arqueadas.
- Eh bien, que bicho lhe mordeu? Parece um homem que viu fantasmas!
- Vi quanto fui parvo.
- Ah, isso acontece muitas vezes!
Mas, provavelmente, nunca acontecera a Hercule Poirot! Apetecia-me atac-lo.
- Diga-me uma coisa, Poirot. Se, como afirmou, 

252

podia ter feito tudo isto sentado na sua cadeira, em Londres, e nos podia ter l mandado chamar, ao 
Hardcastle e a mim, por que diabo veio c?
- J lhe disse que esto a arranjar o apartamento.
- Emprestar-lhe-iam outro, se quisesse. Ou, ento, poderia ter ido para o Ritz, onde estaria mais 
confortavelmente instalado do que neste hotel.
- Sem dvida. O caf, aqui... mon dieu, o caf!
- Ento, porqu?
Hercule Poirot enfureceu-se.
- Eh bien, j que  to estpido que no compreende, dir-lho-ei! Sou humano, no sou? Posso ser uma 
mquina, quando  preciso, posso recostar-me a
pensar, resolver assim os problemas... Mas tambm sou humano! E os problemas dizem respeito a seres 
humanos.
- E ento?
- A explicao  to simples como o assassnio. Vim aqui trazido por curiosidade humana - afirmou Hercule 
Poirot, a esforar-se por falar com a maior
dignidade.

29

NARRATIVA DE COLIN LAMB

Encontrava-me de novo em Wilbraham Crescent, na direco do oeste. Parei diante da cancela do nmero 
19, mas desta vez no saiu ningum a correr de casa. Havia sossego e tranquilidade.
Dirigi-me  porta principal e toquei  campainha.
Miss Millicent Pebmarsh abriu a porta.
- Sou Colin Lamb. Posso entrar e falar consigo?
- Com certeza. - Conduziu-me  sala. - Parece passar aqui muito tempo, Mister Lamb. Constou-me que 
no pertence  Polcia local...
- Pois no. Suponho, at, que soube exactamente
quem eu era, a partir da primeira vez que falou comigo.
- Julgo no compreender o que quer dizer.
- Fui muitssimo estpido, Miss Pebmarsh. Vim a esta terra  sua procura, encontrei-a logo no primeiro 
dia... e no me apercebi disso!
- Possivelmente o assassnio perturbou-lhe o esprito.
-  possvel, sim. Cometi, tambm, a estupidez de olhar para um bocado de papel de pernas para o ar.
- Que pretende com toda essa conversa?
- Inform-la de que o jogo acabou, Miss Pebmarsh. Encontrei o quartel-general, onde se traam os planos. 
Todos os registos necessrios so conservados
por si, em braille, num microponto. As informaes que Larkin obtinha em Portlebury eram-lhe 
comunicadas e, daqui, seguiam para o seu destino, por intermdio de Ramsay. Quando era preciso, ele 
vinha  sua casa,  noite, atravs dos jardins. Um dia, deixou cair uma moeda checa, no seu jardim.
- Foi muito descuidado.
- Todos ns somos descuidados, numa ocasio ou noutra. O seu disfarce  muito bom.  cega, trabalha 
num instituto de crianas deficientes, tem em casa, como  natural, livros infantis, em braille...  uma 
mulher de invulgar inteligncia e personalidade. No sei
qual  a sua fora impulsionadora...
- Digamos, se quiser, que sou dedicada.
- Sim, pensei que se tratava disso. 
- Porque me est a dizer essas coisas? No parece natural.
Olhei para o relgio, antes de responder:
- Tem duas horas, Miss Pebmarsh. Daqui a duas horas, chegaro membros do Departamento Especial...
- No o compreendo. Porque veio  frente dos seus colegas, para me dar o que parece um aviso...

254

- Vim, de facto, avis-la. Ficarei aqui at os meus colegas chegarem, para ter a certeza de que nada dei 
xar esta casa... nada, excepto a senhora. A senhora
tem duas horas de avano, se as quiser aproveitar.
- Mas porqu? Porqu?
- Porque creio que existe a possibilidade de se tornar, em breve, minha sogra... Talvez me engane...
Millicent Pebmarsh levantou-se, em silncio, e aproximou-se da janela. No desviei os olhos dela, pois no 
tinha iluses a seu respeito. No confiava absolutamente nada na criatura. Era cega, mas at uma cega 
pode apanhar um tipo, se ele est desprevenido.
A cegueira no a prejudicaria se tivesse ensejo de me encostar uma automtica  espinha...
- No lhe direi se est certo ou errado - disse, devagar. - Porque pensa que... que est certo?
- Por causa dos olhos.
- Mas no somos parecidas no carcter.
- Pois no.
Afirmou, quase num desafio:
- Fiz o melhor que pude por ela.
- Isso  uma questo de opinio. Para si, uma causa est primeiro.
- Assim  que deve ser.
- Discordo. Soube quem ela era... naquele dia?
- S quando ouvi o seu nome... Mantive-me informada a seu respeito... sempre.
- Nunca foi to desumana como gostaria de ser.
- No diga tolices.
Olhei mais uma vez para o relgio.
- O tempo passa...
Afastou-se da janela e aproximou-se da secretria.
- Tenho aqui uma fotografia dela... em pequena...
Encontrava-me atrs dela quando abriu a gaveta.
No era uma automtica: era uma faca pequena, mas muito afiada... A minha mo cerrou-se sobre a sua e 
afastou-a.
- Poderei ser brando, mas no sou parvo.
Tacteou,  procura de uma cadeira, e sentou-se, sem denunciar a mnima emoo.
- No aproveito a sua oferta. Ficarei aqui at chegarem. H sempre oportunidades... at na priso.
- Oportunidades de doutrinao?
- Se lhe agrada o termo...
Continumos sentados, hostis, mas a compreender-nos.
- Demiti-me do Servio - informei. - Volto para a minha profisso: biologia martima. H um lugar, numa 
universidade australiana.
- Acho que faz bem. No tem o que  preciso para este gnero de trabalho.  como o pai da Rosemary. 
Ele tambm no compreendia a frase de Lenine: "Fora com a brandura."
Lembrei-me das palavras de Poirot e redargui:
- Contento-me com ser humano.
Continumos sentados em silncio, cada um conven cido de que o ponto de vista do outro estava errado.

Carta do detective-inspector Hardcastle
a Monsieur Hercule Poirot

"Caro M. Poirot:
Estamos agora de posse de certos factos que talvez lhe agrade conhecer.
H cerca de quatro semanas, partiu do Canad para a Europa um tal Mr. Quentin Duguesclin, do 
Quebeque. No tinha parentes chegados e os seus planos
de regresso eram vagos. O seu passaporte foi encontrado pelo proprietrio de um pequeno restaurante de 
Bolonha, que o entregou  Polcia. Ainda ningum o
reclamou.
Mr. Duguesclin era um velho amigo da famlia Montresor, do Quebeque. O chefe dessa familia, Mr. Henry 
Montresor, morreu h dezoito meses e deixou a sua
considervel fortuna  sua nica parente viva, a sua

256

sobrinha-neta Valerie, descrita como mulher de Josaiah
Bland, de Portlebury, Inglaterra. Uma respeitvel firma de advogados londrinos actuou como procuradora 
dos executores testamentrios canadianos. As relaes
de Mrs. Bland com a sua famlia do Canad cessaram por completo aquando do seu casamento, que no 
mereceu a aprovao familiar. Mr. Duguesclin disse a um
amigo que tencionava visitar os Bland, enquanto estivesse em Inglaterra, pois fora sempre muito amigo de
Valerie.
O cadver supostamente identificado como sendo o de Harry Castleton foi agora definitivamente identificado 
como o de Quentin Duguesclin. Foram encontradas algumas tbuas arrumadas a um canto de um lote 
onde Bland est a construir. Embora tivessem sido apressadamente apagadas, as palavras
Snowflake Laundry puderam ler-se com nitidez, depois de os peritos lhes aplicarem o devido tratamento.
No o incomodarei com pormenores de somenos, mas sempre lhe digo que o acusador pblico acha 
possvel passar um mandado de captura de Josaiah Bland.
Miss Martindale e Mrs. Bland so, como conjecturou, irms, mas, embora eu concorde consigo quanto  
participao da primeira nos crimes, ser difcil obter as
provas necessrias. Ela , sem dvida, uma mulher
muito astuta. No entanto, Mrs. Bland d-me esperanas. Pertence ao tipo de mulher que se vai abaixo e 
fala.
A morte da primeira Mrs. Bland, em consequncia da aco do inimigo em Frana, e o casamento de 
Bland com Hilda Martindale (que pertencia  NAAFI1) tambm em Frana, podem ser, suponho, facilmente 
comprovados, embora muitos registos tenham
sido destrudos, nesse tempo.

' Sigla de Navy Army and Force Institute, que se pode traduzir por
"Organizao do xrcito, da Marinha e da Fora Area." (N. da T.)

Foi um grande prazer para mim conhec-lo, naquele dia, e agradeo-lhe as utilssimas sugestes que 
apresentou. Espero que as obras e a decorao do seu
apartamento londrino tenham ficado a seu gosto.

Sinceramente,
Richard Hardcastle

Nova carta de RH a HP

"Boas notcias! Mrs. Bland foi-se abaixo! Confessou tudo! Atira as culpas para cima da irm e do marido. 
"S compreendeu quando j era tarde de mais o q pretendiam fazer Pensou que tencionavam apenas 
drog-lo, para que no a reconhecesse"! Uma histria incrvel. No entanto, acredito que no foi ela a
incitadora do crime.
No Mercado de Ponobello identificaram Miss Martindale como a "americana" que comprou dois dos 
relgios.
Mrs. McNaughton diz, agora, que viu Duguesclin
na furgoneta do Bland, a entrar na garagem deste. T-lo-, realmente, visto?
O nosso amigo Colin casou com a pequena. Se quer que lhe diga,  doido. As maiores felicidades.

Richard Hardcastle

258

O Autor e a Obra

Agatha Christie, romancista e autora dramtica inglesa, de seu nome completo, Agatha Mary Clarissa 
Miller Christie, nasceu em Torquay, a 15 de Setembro de 1891. Filha de me inglesa e pai americano fez 
os seus estudos em casa, educada por professores.
Durante a Primeira Guerra Mundial alistou-se na Cruz Vermelha para acompanhar o seu primeiro marido, o 
coronel Archibald Christie, de quem tomou o clebre apelido, que manteve apesar da separao em 1926. 
A sua experincia com venenos nos hospitais onde trabalhou est na origem do profundo conhecimento 
sobre a matria, utilizado em muitos dos seus romances. Foi nesta poca que escreveu A Primeira 
Investigao de Poirot (1920), com que deu incio  sua
longa e brilhante carreira de escritora de livros policiais. Coincidiu a obra com a apresentao da 
personagem Hercule Poirot, o detective belga que se ornaria quase to conhecido como a sua autora e que 
na resoluo dos enigmas policiais ser concorrente da amvel Miss Jane Marple, a personagem favorita de 
Agatha Christie.
Depois do segundo casamento, em 1930, com o arquelogo Max Mallowan, a escritora, apaixonada por 
viagens, passou a dividir o tempo entre a "estruturao dos crimes" e as escavaes arqueolgicas.
Clebre, desde a publicao em 1926 de O Assassinato de Roger Ackroyd, Agatha Christie manteve ao 
longo da sua vasta obra - mais de oitenta volumes as caractersticas que identificariam o seu estilo: a 
investigao racional e a psicologia; o mistrio denso e a variedade de personagens e ambientes; o 
emaranhado de indcios e a soluo imprevista.
Os seus livros encontram-se traduzidos em cerca de cem lnguas e os exemplares vendidos ascendem s 
centenas de milho. No entanto, no foram s os livros policiais a proporcionar-lhe a admirao do pblico, 
pois Agatha Christie tambm  autora de peas de teatro - refere-se A Ratoeira (1951), mantida em cena
durante vinte e cinco anos -, histrias para crianas e romances psicolgicos publicados sob o pseudnimo 
de Mary Westmacott.
Membro da Real Sociedade de Literatura e distinguida com um grau honorfico em Letras, atribudo pela 
Universidade de Exeter, recebeu, em 1956, o ttulo de Dama do Imprio Britnico, pelo conjunto da sua 
obra.
Agatha Christie morreu em Wallingforg, Oxford, a 12 de Janeiro de 1976.

260

FICO POLICIRIA DE AGATHA CHRISTIE

TTULO ORIGINAL TRADUO PORTUGUESA
The Mysterious Affair at Styles 1920 A Primeira Investigao de Poirot
The Secret Adversary 1922 O Adversrio Secreto
Murder on the Links 1923 Poirot,O Golfe e o Crime
The Man in the Brown Suit 1924 O Homem do Fato Castanho
The Secret of Chimneys 1925 O Segredo de Chimneys
Poirot Investigates 1925 Poirot Investiga
The Murder of Roger Ackroyd 1926 O Assassinato de Roger Ackroyd
The Big Four 1927 As Quatro Potncias do Mal
The Mistery of the Blue Train 1928 O Mistrio do Comboio Azu1
The Thirteen Problems 1928 Os Treze Problemas
Partners in Crime 1929 O Homem Que Era o N.016
The Seven Dials Memory 1929 O Mistrio dos Sete Relgios
The Murder at the Vicariage 1930 Encontro com Um Assassino
The Sittaford Mistery 1930 O Mistrio de Sittaford
Peril at End House 1931 A Diablica Casa Isolada
Parker Pynne Investigates 1932 Parker Pynne Investiga
Lord Edgware Dies 1933 A Morte de Lord Edgware
The Hound of Death 1933 Testemunha de Acusao
Murder on the Orient Express 1933 Um Crime no Expresso do Oriente
Why Did't They Ask Evans? 1933 Perguntem a Evans
The Mistery of Listerdale 1934 O Mistrio de Listerdale
Three Act Tragedy 1934 Tragdia em Trs Actos
The ABC Murders 1935 Os Crimes do ABC
Death in the Clouds 1935 Morte nas Nuvens
Murder in Mesopotamia 1935 Assassnio na Mesopotmia
Cards on the Table 1936 Cartas na Mesa
Death on the Nile 1937 Morte no Nilo
Dumb Witness 1937 Poirot Perde Uma Cliente
Murder in the Mews 1937 Crime nos Estbulos
Appointment with Death 1938 Morte entre as Runas
Hercule Poirot's Christmas 1938 O Natal de Poirot
Murder is Easy 1938 Matar  Fcil
Ten Little Niggers 1939 Convite para a Morte
Sad Cypess
The Regata Mistery
The Labours of Hercules
One Two Buckle My Shoe
Evi1 Under the Sun
NorM
The Body in the Library
Five Little Pigs
The Moving Finger
Toward Zero
Sparkling Cyanide
Death Comes as the End
The Hollow
Taken at thc Flood
Crooked House
A Murder is Announced
They Came to Bagkdad
Three Blind Mice
e (The Mousetrap)
Mrs McGinty's Dead
They Do it with Mirrors
After the Funeral
A Pocket Ful1 of Rye
Destination Unknown
Hickory, Dickory Dock
Dead Man's Folly
The Mysterious Mr. Quin
4.50 from Paddington
Ordeal by Innocense
Cat Among the Pigeons
The Adventure of the
Christmas Pudding
Tke Pale Horse
The Mirror Crak'd from Side
to Side
Tke Clocks
A Caribbean Mistery
At Bertram's Hotel
Third Gir1
Endless Night
By the Pricking of My Thumbs
Hallowe'en Party
Passenger to Frankfurt
Nemesis
Elephants Can Remember
Postern of Fate
Poirot's Early Cases
Curtain. Poirot's Last Case

Sleeping Murder
Miss Marple's Final Cases

1939 Poirot Salva o Criminoso
1939 O MistrIo da Regata
1939 Os Trabalhos de Hrcules
1940 Os Crimes Patriticos
1940 As Frias de Poirot
1941 Tempo de Espionagem
1941 Um Cadver na Biblioteca
1941 Poirot Desvenda o Passado
1942 O Enigma das Cartas Annimas
1944 Contagem at Zero
1944 A Sade da... Morte
1945 Morrer No  o Fim
1946 Poirot o Teatro e a Morte
1948 Arrastados na Torrente
1948 A ltima Razo do Crime
1950 Participa-se Um Crime
1951 Encontro em Bagdade
1951 A Ratoeira
1951 Poirot Contra a Evidncia
1952 Jogo de Espelhos
1953 Os Abutres
1953 Centeio Que Mata
1954 Destino Conhecido
1955 Poirot e os Erros da Dactilgrafa
1956 Poirot e o Jogo Macabro
1957 O Misterioso Mr. Quin
1957 O Estranho Caso da Velha Curiosa
1958 Cabo da Vbora
1959 Poirot e as Jias do Prncipe
1960 A Aventura do Pudim de Natal
1961 O Cavalo Plido
1962 O Espelho Quebrado
1963 Poirot e os 4 Relgios
1964 Mistrio nas Carabas
1965 Mistrio em Hotel de Luxo
1966 Poirot e a Terceira Inquilina
1967 Noite sem Fim
1968 Caminho para a Morte
1969 Poirot e o Encontro Juvenil
1970 Passageiro para Francoforte
1971 Nemesis
1972 Os Elefantes No Esquecem
1973 Morte Pela Porta das Traseiras
1974 Ninho de Vespas
1975 Cai o Pano (O ltimo Caso de Poirot)
1976 Crime Adormecido
1979 Os ltimos Casos de Miss Marple

FIM DO LIVRO.
